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Jornal A Hora

País

Publicada em 18/03/2017

Contratações crescem pela primeira vez em 22 meses

Após período em que as empresas demitiram mais do que contrataram, em fevereiro, o cenário foi outro. No primeiro mês com um saldo positivo, as admissões superaram as demissões em 35,6 mi. Economistas consideram cedo para projetar uma retomada da empregabilidade do país.

Crédito: Eduardo Amaral Em fevereiro, contratações superaram demissões em 35, 6 mil. Resultado é considerado insuficiente para apontar melhoria duradoura.
Em fevereiro, contratações superaram demissões em 35, 6 mil. Resultado é considerado insuficiente para apontar melhoria duradoura.

No Vale do Taquari, os resultados pouco variaram em relação ao mesmo período de 2016. Em fevereiro deste ano, foram abertas 3,9 mil vagas e 3,2 mil foram demitidos na região. No mesmo mês do ano passado, foram abertos quatro mil postos de trabalho e 3,1 mil pessoas perderam o emprego.

O resultado positivo não foi uma constante durante todo 2016 na região, pois no fim do ano, o déficit foi de 478 demissões a mais do que contratações. Apesar de encerrar o ano em baixa, o Vale sofreu pouco com o desemprego durante o período mais duro da crise.

Professor da Univates, Eduardo Lamas destaca que, como sofreu menos nos últimos anos, o aumento da empregabilidade não deve ser grande nos próximos meses. “Muito provavelmente a região não vai mostrar uma grande alta, deve manter a mesma média, pois aqui nunca chegou a cair.”

De acordo com o docente, a característica da economia local foi fundamental para superar os piores momentos da instabilidade no país. “A região está muito ligada ao agronegócio, e ele vai bem”, ressalta Lamas. Ao falar desse segmento, ele chama a atenção para toda a cadeia produtiva, desde o trabalho no campo até a industrialização de alimentos.

Na região, o setor com melhor desempenho foi a indústria, que contratou 3,8 mil pessoas nos dois primeiros meses de 2017. A variação positiva é de 999 contratações a mais do que as demissões.

No campo, a situação é um pouco diferente, com 15 demissões a mais do que contratações entre janeiro e fevereiro. Neste período foram contratados 160 profissionais, enquanto 175 perderam o emprego.

PrintTroca de função

Moradora de Lajeado, Amanda Barcelos, 34, é um dos casos que comprova as diferenças da região. Após ficar desempregada, conseguiu se recolocar no mercado na metade de 2016.

Ela foi demitida junto com outras quatro colegas no fim de 2015. Durante seis meses, Amanda buscou um emprego novo sem sucesso. Para voltar a trabalhar, precisou mudar de área.

Depois de dois anos e meio atuando como auxiliar de escritório, Amanda assumiu o cargo de promotora de vendas. “Tive que sair da minha área e começar em uma função que nunca tinha feito na vida.”

A necessidade de sustentar a casa e a filha de 6 anos foi determinante para a mudança. “Não tinha nada na minha área, e com família e filha para sustentar, entre nada e ter alguma coisa preferi mudar.”

Mesmo sem programar, a troca é comemorada por Amanda, que diz ganhar mais do que na antiga função. “Além de um salário um pouco melhor, agora não trabalho no fim de semana.”

Ela agora espera estar economicamente mais estável para voltar a estudar e concluir o técnico em segurança do trabalho, o qual teve de abandonar quando prestes a se formar. “Assim que me estabilizar eu quero voltar a estudar e terminar meu curso.”

Sem otimismo exagerado

O professor Lamas destaca que o resultado positivo em fevereiro precisa ser analisado com cuidado. “Não podemos fazer a confusão entre recuperação e crescimento. Teremos alguma recuperação frágil, lenta, mas isso está longe de significar crescimento.”

Para ele, o aumento da empregabilidade é uma algo natural após tanto tempo de resultados negativos. “Vamos apenas parar de cair, depois de dois três anos de queda da economia, é natural que comecem a aparecer dados positivos.”

Lamas ressalta a estagnação de diversos setores econômicos, que impedem o desenvolvimento econômico do país. “É bom lembrar que o nosso PIB ainda está no nível de 2010, então a recuperação não é nada de excepcional.” Em razão disso, Lamas prefere manter a cautela ao projetar o restante do ano. “Nós temos um mês positivo, mas se somar o todo ainda continua negativo. O que deve acontecer é que o resultado fique cada vez menos negativo até virar positivo.”

Ele acredita que a comemoração do governo pelos resultados divulgados na quinta-feira, pode ser uma forma de combater o pessimismo o dos últimos meses. “Estávamos em um pessimismo exagerado, só não podemos entrar em um otimismo exagerado.”

PrintNecessidade de investimentos

A instabilidade política é um dos principais entraves para uma retomada da economia brasileira. De acorda com Lamas, o setor empresarial só retomará os investimentos quando a crise política, que atinge diretamente o Palácio do Planalto, for controlada. “Para desengavetar projeto de desenvolvimento é preciso ter estabilidade, e estamos longe disso.”

Para o professor da Univates, uma recuperação econômica só ocorrerá quando os empresários estiverem seguros. “Para desengavetar projeto de desenvolvimento é preciso ter estabilidade, e estamos longe disso.”

Sem expectativa de investimentos governamentais, a alternativa apontada por lamas é recorrer ao setor privado através de concessões. “O que o governo tem tentado fazer é mudar o regime de concessões para ter o investimento privado em uma estrutura pública.” Projetos nesse sentido já estão sendo feitos, como o caso dos aeroportos. “Isso tentará ser feito com as estradas, portos e outras partes da infra-estrutura. Assim, vai desonerar o setor público, que está completamente sem capacidade de investimento.”

Podemos terminar o ano com saldo positivo, mas projetar isso analisando apenas fevereiro é muito pouco.”
Podemos terminar o ano com saldo positivo, mas projetar isso analisando apenas fevereiro é muito pouco.”
Crédito: Divulgação

Não tem como demitir mais”

O economista do Dieese, Ricardo Franzói, considera a melhora como um resultado natural para o período.

Jornal A Hora – O governo mostrou grande otimismo com o resultado divulgado na quinta-feira, 16. Esse dado é um sinal que a economia está melhorando?

Ricardo Franzói – Se pegarmos o RS como exemplo, o mês de fevereiro já foi positivo, aqui foram criados 6,7 mil postos de trabalho. Eles vêm do setor fumageiro, pois é o período de contratação. Além disso teve o setor calçadista e a área de educação. Todos esses setores têm uma sazonalidade na criação. O que houve foi que os outros setores pararam de demitir tanto, até porque passaram dois anos demitindo. “Não tem como demitir mais”. Então estabilizou e com a sazonalidade o dado ficou positivo. Mas não dá para dizer que isso é uma retomada econômica.

Para o senhor, esse resultado então é passageiro?

Franzói – O ensino no ano passado criou 32 mil vagas, este ano 35 mil. Ou seja, o total do país 35 mil, o mesmo do ensino. Os outros setores compensaram o outro, que praticamente deu zero. Porém, esses que foram contratados no ensino serão demitidos entre novembro e dezembro. A economia não para, ela segue. Positivo zero depois de dois anos é um resultado ruim. Temos uma base baixa, e com isso deveríamos crescer 6% ou 7%, se tinha tanto otimismo com a mudança de governo. Podemos terminar o ano com saldo positivo, mas projetar isso analisando apenas fevereiro é muito pouco. Temos que esperar os próximos meses ver se isso se confirma.

Como a instabilidade política deve impactar na economia?

Franzói – Se confirmar o envolvimento destes dois frigoríficos investigados na Operação Carne Fraca, podemos ter problema inclusive com mercados que estavam sendo conquistados a duras penas como Estados Unidos e Japão. Isso pode prejudicar as importações, que é onde as empresas esperam lucrar, já que não deve ter muito consumo interno.

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