Versão Impressa

Jornal A Hora

Vale do Taquari

Publicada em 21/04/2017 e atualizada em 22/04/2017

Fechar hospitais e rever gestão é urgente, apontam painelistas

Os custos crescentes dos serviços de saúde e a redução dos repasses do Estado e da União complicam a administração de hospitais e municípios

O Pensar o Vale reuniu especialistas na área de saúde para debater as necessidades de um setor vital para o bem-estar da população. Os gastos crescentes com o setor e a redução nos repasses federais e estaduais causam graves dificuldades financeiras aos hospitais e obrigam municípios a custear parte dos serviços oferecidos pelo SUS.

O evento ocorreu nessa quarta-feira no auditório do Centro Clínico Univates, com a participação do diretor-executivo do Hospital Bruno Born (HBB), Cristiano Dickel, o coordenador do curso de Medicina da Univates, Luiz Fernando Kehl, o coordenador da 16º CRS, Ramon Zucchetti, e o prefeito de Imigrante e representante da Amvat, Celso Kaplan.

Dickel abriu as discussões falando sobre o aumento dos custos da atividade hospitalar. Segundo ele, a situação financeira das instituições se agravou nos últimos dois anos, devido a cortes de incentivos estaduais, como o IOSP para os procedimentos de média complexidade.

“Ainda temos todos os problemas federais, como a defasagem da tabela do SUS”, lembra. Conforme o administrador, a região ainda tem como peculiaridade um grande número de hospitais realizando os mesmos serviços. “Temos 37 municípios e 20 hospitais instalados. Em 14 deles, temos uma ocupação média de 40%.”

Segundo ele, existem hospitais na região com um leito para cada 65 habitantes da cidade. “Todos prestam serviço nas quatro áreas básicas, fazendo com que esses custos fiquem espalhados pela região.”

De acordo com Dickel, como cada casa de saúde recebe um pouco do mesmo bolo de recursos, cada prefeito tenta apoio de outros dois ou três para conseguir pagar os serviços dos hospitais. “A região tem de R$ 3 milhões a R$ 3,2 milhões aportados mensalmente pelos município.”

Conforme o prefeito de Imigrante, a lei obriga os municípios a aportarem 15% do seu orçamento na saúde, mas ressalta que os percentuais aplicados estão muito acima disso. Segundo ele, a média apontada pela Famurs é de 23%.

“As prefeituras gaúchas desembolsam mensalmente R$ 80 milhões em hospitais. São números assustadores”, alerta. De acordo com Zucchetti, alguns municípios empregam 12% dos orçamentos somente em aporte aos hospitais.

“Fui procurado por um secretário municipal sobre um paciente cuja internação custou R$ 84 mil. É inviável”, ressalta. Lembra que foram criadas várias campanhas de arrecadação de recursos para os hospitais da região, mas que os valores são ínfimos na comparação com as necessidades do setor.

Também ressalta a aquisição por parte do Estado de equipamentos não utilizados pelos municípios. Cita o exemplo de uma máquina que custou R$ 150 mil aos cofres públicos, por meio de consulta popular, e se encontra parado por falta de médicos.

Para Kehl, diante dessa realidade, é fundamental buscar modelos de gestão mais adequados ao setor “O sistema de hoje está fadado a sucumbir porque não há dinheiro que suporte o custo dos serviços.”

O painelistas foram unânimes nas medidas necessárias para reverter a situação.

Dados da região

Em 37 municípios do Vale do Taquari, existem 20 hospitais. Desses, 14 têm taxa de ocupação de até 40%.

Municípios aportam mensalmente R$ 3 milhões nas casas de saúde da região.

Regionalização dos serviços

Dickel afirma que o Estado tem avançado na estratégia de regionalizar o setor. Segundo ele, o sistema está bem estabelecido na alta complexidade, em que hospitais como o HBB são referência em especialidades como neurologia, cardiolocia, oncologia, nefrologia e deformidades do lábio palatal.

“Porém, os procedimentos de média complexidade, onde está a principal defasagem da tabela do SUS, não estão organizados dessa forma”, ressalta. Conforme o administrador, para o sistema se tornar sustentável, alguns hospitais precisam deixar de realizar determinados serviços para centralizar e otimizar os recursos.

“Precisamos ter na região um hospital montado para atender a mulher e a criança, um de referência em traumato, e outros menores que sejam nosso suporte para internações mais simples”, acredita. Segundo ele, o custo para o atendimento de alguém que está com dor de cabeça no HBB é o mesmo que alguém com um problema mais grave.

Para Kehl, a divisão por especialidades evita a diluição dos recursos destinados aos hospitais, mas ainda enfrenta resistência nos municípios. “Vivemos uma cultura ainda muito antiga, de querer ter o hospital e a igreja na nossa cidade.”

Kaplan acredita que essa resistência ao fechamento de hospitais é um dos grandes problemas para os gestores. “A população tem uma relação de carinho com essas instituições que já não são mais viáveis financeiramente.”

Lembra que muitos municípios bancam sozinhos os custos das casas de saúde, acarretando graves problemas para as contas públicas. De acordo com o coordenador da 16ª CRS, o Estado busca aplicar a regionalização de parto e cesária. Segundo Zuchetti, hoje 15 hospitais na região realizam o procedimento, e a meta é manter no máximo seis.

O sistema de hoje está fadado a sucumbir porque não há dinheiro que suporte o custo dos serviços.”

Luiz Fernando Kehl Coordenador do curso de Medicina da Univates

Atenção básica

Os debatedores apontaram a rede básica de atendimento como um dos principais desafogos para o sistema de saúde. De acordo com Dickel, nos municípios com uma rede básica bem estruturada, médicos de saúde da família e postos funcionando 24h, boa parte dos pacientes não precisará de atendimento hospitalar.

Cita como exemplo a instalação da UPA em Lajeado. Segundo ele, a estrutura tirou casos sem gravidade da emergência do HBB. “É um modelo muito eficiente que poderia ser melhor aproveitado pela região.”

Para Kehl, a medicina básica, além de desafogar os custos dos hospitais, promove um resultado melhor ao pacientes. Especializado em Pediatria, lembra que a região tinha altas taxas de internação na área nos anos de 1970. “Hoje, temos coeficientes abaixo de dois dígitos, índices de primeiro mundo, porque o atendimento primário é melhor.”

Em Imigrante, Kaplan vivenciou o processo de fechamento do hospital local. Segundo ele, a manutenção da estrutura ficou inviável diante de uma população de três mil habitantes. “Se a atenção básica é boa, o hospital fecha e a população é melhor atendida por um custo menor.”

Para o prefeito, Imigrante também se beneficiou pelo fato de estar a 30 quilômetros de distância de três centros de referência regional. Conforme Kehl, o fortalecimento da atenção básica também absorve o aumento da longevidade da população. Segundo ele, o trabalho preventivo é capaz de reduzir a demanda de especialidades como oncologia e neurologia, mais prevalente em idosos.

De acordo com Dickel, o fechamento dos hospitais não é uma imposição. “É mais importante estar adequado às necessidades da rede”, aponta. Cita como exemplo a transformação do hospital de Santa Clara do Sul, que trabalhava com os mesmos serviços dos demais, em uma estrutura focada no atendimento geriátrico.

Kehl ressalta ainda a dificuldade de contratação de médicos residentes para a região. Segundo ele, a Univates lançou dez vagas para residência em Saúde da Família, mas não obteve candidatos.

Lembra que as prefeituras do estado do Rio de Janeiro combateram o problema oferecendo um complemento mensal para a bolsa de residência do SUS. Para ele, em vez de gastar dinheiro com os hospitais, os recursos poderiam ser investidos nesse profissional que atenderá a atenção básica.

Atendimento na Univates

A criação do curso de Medicina da Univates e a inauguração do centro clínico da instituição trouxeram novas perspectivas para o setor. De acordo com Kehl, o centro clínico foi criado para auxiliar no ensino dos alunos, e tem a capacidade limitada à disponibilidade de professores, mas ajuda a desafogar a demanda dos hospitais.

Segundo ele, os pacientes são encaminhados pela rede pública para a unidade, e o número de atendimentos é definido por cada especialidade. “Imagino que vamos crescer, porque há a demanda e existe possibilidade de fazer mais serviços.”

Conforme Kehl, hoje os custos de funcionamento do centro clínico são todos custeados pela universidade. “Temos que atrelar algum recurso público, senão ficará insustentável, e já começamos a negociar com alguns municípios.”

Notícias relacionadas
Vale do Taquari

Feriado muda horários de atendimento

Instituições financeiras e repartições públicas retomam serviços na segunda-feira

Estrela

Corsan apresenta estudo sobre sistema de esgoto

Documento foi entregue na manhã de ontem

Vale do Taquari

RGE religa energia elétrica no shopping

Centro comercial ficou parcialmente às escuras entre terça e quinta-feira