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Jornal A Hora

Estado

Publicada em 21/04/2017

Jogo Baleia Azul alerta pais e autoridades

Desafios nas redes sociais propõem automutilação e podem resultar em suicídio. Instituições traçam estratégias para evitar aumento da participação dos jovens nos grupos e convocam vigilância dos pais sobre as atividades dos filhos nas redes sociais.

Um jogo sinistro preocupa pais, educadores e agentes públicos. O Baleia Azul impõe 50 desafios pelas redes sociais, como bater fotos assistindo a filmes de terror na madrugada, automutilação e, na última prova, cometer suicídio. O alerta foi feito nesta semana, quando aconteceram mortes de jovens em Minas Gerais e em Mato Grosso.

O assunto chegou ao Ministério da Educação (MEC). Em viagem a Brasília, a diretora da Coordenadoria Regional de Educação (CRE) do Vale, Greicy Weschenfelder, afirmou. “Tanto nos gabinetes de parlamentares quanto no ministério, o tema está em debate.”

Segundo ela, há um movimento para criar uma frente parlamentar e elaborar uma reação ao fenômeno. “Não dá para se omitir. Isso chegou em uma proporção preocupante.” Ainda que não haja registro de participante nas escolas do Vale do Taquari, casos de mutilação chegaram ao conhecimento das direções e da CRE.

Acompanhamento integral

Greicy afirma haver muitos jovens com alto nível de depressão, com potencial de atentar contra a própria vida. Nesse cenário, soma-se a dependência das redes sociais. “Muitos são viciados e agem conforme o que veem e compartilham no Facebook.”

A coordenadora frisa a necessidade de uma fiscalização mais rigorosa dos pais sobre o comportamento dos filhos na internet. “As famílias precisam aprender a dizer não. Se for o caso, tirar o celular e limitar o uso da internet.”

Frente à repercussão do jogo, escolas iniciaram atividades para alertar os estudantes sobre os riscos do desafio. Conforme Greicy, por meio das Comissões de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (Cipaves), se procura acompanhar esses comportamentos. Um levantamento feito em 700 escolas resultou em 333 registros de automutilação em 2016.

Política editorial

O manual de redação do A Hora segue os preceitos do jornalismo contemporâneo ao tratar de suicídio. Conforme a orientação editorial, a empresa evita publicar matérias sobre suicídios consumados, mesmo aqueles com farta comprovação.

A política decorre de estudos da psicologia que apontam a divulgação de casos de suicídio como indutor para pessoas propensas ao ato. Pesquisas apontam que tais publicações produzem um estímulo à imitação.

Em situações peculiares, a decisão quanto à divulgação desse tipo de fato compete ao diretor de redação. Pela relevância e gravidade do caso específico, o jornal decide pela publicação, alertando sobre os riscos que estão sujeitos os jovens.

Alerta na rede privada

O Sindicato do Ensino Privado do RS (Sinepe) também faz um alerta sobre o jogo. Orienta as escolas a abrirem espaços para discussão sobre o assunto. “A escola deve aproveitar esse momento para ouvir os estudantes, esclarecer dúvidas e falar sobre valorização da vida, respeito ao próximo, enfim, atitudes que podem evitar o bullying e suas consequências. Também é um momento oportuno para tratar dos riscos e das armadilhas do ambiente digital”, realça o presidente, Bruno Eizerik.

Afirma que o papel da família é fundamental. “É em casa que o diálogo deve começar e a escola deve dar sequência a essa discussão.” Em caso de suspeitas de comportamento estranho dos alunos, a escola deve chamar os familiares e, se for preciso, o Conselho Tutelar e a rede de saúde.

O sindicato sugere também que se faça um trabalho de conscientização com as famílias sobre a importância de acompanhar de perto a rotina dos filhos e para ficarem atentas a sinais que podem indicar algo mais grave.

“Eu saí quando o curador pediu pra esculpir uma baleia azul nos braços.”

Um jovem de 14 anos, morador de uma cidade do Vale do Taquari, entrou no desafio em um grupo da Baleia Azul no dia 26 de maio e saiu nessa quarta-feira. Ele conta quais foram os motivos para desistir do jogo.

A Hora – Por que entrou no grupo?

– Eu não aguentava mais chorar por uma pessoa que me abandonou quando eu mais precisei.

A Hora– Quais as características do grupo? Eram hackers?

– Eles não são hackers. Existem hackers no grupo. Mas muitos não são. Todas as pessoas têm esperanças. Alguns têm esperança de uma vida melhor, outros de que tudo vai melhorar um dia.

A Hora – O que os participantes e os curadores conversam?

– Muitos querem apenas parar de sofrer. Eles se vêm como amigos. Os curadores puxam assunto.

Normalmente eles já sabem quem é a melhor vítima pra fazer a lavagem cerebral. Aos poucos, eles contam sobre o grupo da Baleia Azul.

A Hora – Por que saiu?

– Eu saí quando o curador pediu pra esculpir uma baleia azul nos braços. Com gilete.

Eu pensei amargamente em fazer isso. Eu tava vidrado naquele grupo desde que terminou o meu namoro. Então eu pedi pra pular pro último desafio: me matar.

E o curador me disse que eu podia fazer isso, mas primeiro eu teria que fazer todos os passos. Eu não quis. Eles quase que me obrigaram a ficar. Até xinguei um cara do grupo e o irmão dele me ameaçou. Na mesma hora, eu bloqueei o administrador e todos que estavam nele. Dei uns tapas na minha cara, cortei o cabelo e pensei: eu preciso de vida nova, não posso mais sofrer por quem não merece meu sofrimento.

Eu ainda estou com os mesmos problemas, a minha ex me bloqueou no Facebook e eu não consigo mais falar com ela.

Mas não vou sofrer por uma idiota, eu pensei. Ainda estou depressivo, mas não volto mais para aquele grupo.

Eu tenho esperanças de ter uma vida melhor e aquele grupo não vai melhorar a minha vida. Por mais que as esperanças sejam poucas, elas existem.

2017_4_21_Arquivo Pessoal Indianara Rovêa_Psicologa_Lajeado_Entrevista“O adolescente se vê fazendo parte de um grupo, sendo de alguma maneira reconhecido”

Para a psicóloga, Indianara Rovêa, de Lajeado, o desafio mostra um lado problemático da imersão tecnológica. Ao passo em que os pais têm menos tempo para acompanhar as atividades dos filhos, se abre uma possibilidade para descaminhos.

A Hora – Quais os motivos que levam os jovens a participar de um jogo como o Baleia Azul?

Indianara Rovêa – O jogo Baleia Azul nos convida a pensar sobre o nosso contemporâneo, sobre as relações que estabelecemos atualmente. Tudo é rápido demais e se exige que sejamos bons em tudo no menor tempo possível. Não há mais espaço para pensarmos nas nossas tristezas, e os adolescentes se veem em meio a isso, muitas vezes, sem voz e vez, vulneráveis e com uma tremenda insegurança. Claro que temos que considerar a singularidade de cada caso, porém, penso que podemos analisar a situação a partir do contexto atual de nossa sociedade, que está perdendo cada vez mais a capacidade de estabelecer conexões reais e afetivas.

Por que esse fenômeno do Baleia Azul é preocupante?

Indianara – Por atingir um número muito amplo de adolescentes. Temos que nos preocupar ainda mais com que o estamos ofertando de atenção e cuidado aos nossos adolescentes, pois o jogo é apenas um gatilho para uma estrutura psíquica fragilizada.

A internet é uma ferramenta muito interessante, porém, nem todas as trocas feitas nela são saudáveis, e na fase da adolescência é necessário que os pais imponham certos limites, com o objetivo de cuidar, e não de quebrar a confiança ou policiar o filho.

Inclusive, de forma inconsciente, os adolescentes solicitam regras e limites que possam nortear sua vida. Os jogos violentos podem facilitar atitudes que refletem a configuração de uma saúde mental fragilizada e em sofrimento. Justamente por ser uma fase em que se busca identificações.

Quando participa de um jogo como Baleia Azul, o adolescente se vê fazendo parte de um grupo, sendo de alguma maneira reconhecido.

Informações do Centro de Valorização da Vida mostram um crescimento nos atendimentos diários de pessoas que buscam ajuda devido a sintomas de depressão. Em alguns casos, se faz menção ao seriado “13 Reasons Why”, lançado no dia 31 de março. A história conta os motivos para o suicídio de uma adolescente. A partir disso, qual sua avaliação sobre a abordagem do tema suicídio?

Indianara – O tema vem sendo discutido entre a área da saúde faz um bom tempo, já que o número vem aumentando gradativamente. Sobre isso, é importante que se tenha discussões a fim de informar e de oferecer caminhos para os que sofrem com a depressão e outras patologias, só é preciso ter cuidado com a veiculação de informações falsas ou preconceitos que acabam por aumentar as ocorrências.

Atenção aos sinais

• Falas sobre morte e suicídio, mesmo que indiretamente, com vontade de “sumir, “desaparecer”, “ir embora”
• Isolamento (afastar-se da família, dos amigos)
• Perda do interesse em atividades que costumava fazer
• Mudanças no hábito de sono (insônia ou aumento das horas dormindo)
• Irritabilidade, crises de raiva
• Comportamentos autodestrutivos (automutilação, uso de álcool e drogas, exposição a situações de risco)
• Ter tentativas de suicídio anteriores

Saiba mais

Baleia Azul

É um jogo virtual que propõe desafios macabros aos adolescentes, como bater fotos assistindo a filmes de terror, automutilar-se, ficar doente e, na etapa final, cometer suicídio.

Recomendações

• Falar de movimentos positivos como a página do Facebook “Baleia Rosa” que traz uma lista de tarefas “do bem” – https://www.facebook.com/eusoubaleiarosa/
• Informar aos filhos a existência do jogo Baleia Azul e seus perigos
• Instruir os filhos a não adicionarem estranhos nas redes sociais
• Monitorar o uso de smartphones e redes sociais
• Restringir o uso da internet em determinados horários
• Estar presente nos pátios virtuais e acompanhar o que o filho está fazendo
• Ficar atento a qualquer mudança radical no comportamento de crianças e adolescentes
• Acolher os filhos e conversar sempre que notar neles algum desconforto
• Destacar que a depressão é uma doença grave, mas tem cura

Onde buscar ajuda

Centro de Valorização da Vida
Oferece ajuda por telefone, chat, skype, e-mail e presencialmente
Telefones 141 (24 horas, para todo o país) e 188 (gratuito, apenas para o RS)

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