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Jornal A Hora

País - Alerta para sua Saúde

Publicada em 17/06/2017

Hábitos da vida moderna engordam população mundial

A troca do manual pelo automático, do natural pelo industrializado e a crescente sensação de falta de tempo, geradora de estresse, contribuíram para que em 2015 cerca de 2,2 bilhões de pessoas estivessem obesas ou com sobrepeso. O que representa 30% da população mundial. O excesso de peso também é responsável por cerca de quatro milhões de mortes anuais.

Crédito: Carolina Chaves DEPOIS: Yasmin perdeu peso, mas ganhou qualidade de vida.                     Hoje, ela se exercita e preserva massa magra. Além disso, mantém uma alimentação saudável
DEPOIS: Yasmin perdeu peso, mas ganhou qualidade de vida. Hoje, ela se exercita e preserva massa magra. Além disso, mantém uma alimentação saudável

Os dados fazem parte de um estudo da série Fardo Global das Doenças, divulgado nesta semana, e feito por um grupo de médicos e pesquisadores, coordenados pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

Eles analisaram índices de 195 países e territórios, entre 1980 e 2015, e concluíram que os níveis de obesidade dobraram neste período, em pelo menos 70 nações. Uma delas é o Brasil. Nestes 35 anos, a taxa de obesos no país passou de 8,7% para 22,6%, entre a população adulta, com mais de 20 anos. O aumento do sobrepeso também foi expressivo, de 25,7% subiu para 35,2%.

Até o início deste ano, Eduardo Marcos de Bona, 43, integrava esses índices. Administrador de uma empresa de desenvolvimento de softwares, ele levava uma via desregrada desde a juventude. Se alimentava sem cuidar o que consumia, e não fazia exercício físico. Por volta dos 20 anos, começou a engordar, ultrapassando os 90 quilos.

ANTES: Aos 15 anos, ela chegou aos 87 quilos. Sofria por não se enquadrar nos padrões
ANTES: Aos 15 anos, ela chegou aos 87 quilos. Sofria por não se enquadrar nos padrões

Tentava inúmeras dietas, mas nenhuma dava certo. Até que no início deste ano passou por uma situação delicada no âmbito profissional, e decidiu que era hora de radicalizar. “Fui exigido ao extremo, tanto físico quanto emocional. Aí, parei tudo, refleti e vi que a chave para sobreviver era a mudança total de hábitos.”

Em fevereiro, ele procurou um profissional e fez um plano alimentar. Já tinha perdido alguns quilos, e estava com 86 na época. “Nas dietas que eu fiz antigamente, eu nunca baixava dos 80. Dessa vez, rompi os 80 com menos de 20 dias. Assim me animei e segui baixando o peso.”

Hoje, ele está com 67 quilos, 20 a menos do que no início do ano. Mas seu maior ganho não foi a perda de peso, mas a qualidade de vida adquirida. Bona passou a ter uma alimentação chamada de low carb, em que não ingere glutén, lactose e carboidratos. “Não passo fome, como mais que todos na mesa, mas são alimentos saudáveis, selecionados.” Além disso, faz academia com acompanhamento de um personal trainer, e corre cinco vezes por semana, em média, oito quilômetros. “Reconfigurei minha vida”, conclui.

Problema para os jovens

Mas não são só os adultos que não estão de bem com a balança. Os índices entre crianças e adolescentes também tiveram alta neste período. De 2,3%, a obesidade passou a afetar 8,6% dessa população, e o sobrepeso aumentou de 8,8% para 16,5%.

Foi exatamente nesta época da vida que Yasmin Guth, 24, passou a sofrer com o seu peso, afetada por não se encaixar nos padrões de beleza. Aos 15 anos, ela começou a tomar medicamentos anti-depressivos, e ficou ainda mais ansiosa. Comia de modo incessante, e engordava cada vez mais.

Com um estilo de vida low carb, Eduardo de Bona eliminou mais de 20 quilos em seis meses
Com um estilo de vida low carb, Eduardo de Bona eliminou mais de 20 quilos em seis meses

O aumento de peso diminuía cada vez mais a autoestima. A auxiliar administrativa recriminava a própria imagem no espelho. Não tinha vontade de se arrumar e se exercitar. “A única coisa que me dava prazer era comer.”

Neste período, ela chegou aos 87 quilos. Porém, só percebeu que a situação havia saído do controle quando comprou uma calça jeans. “Com sacrifício, uma 46 entrou. Lembro como se fosse hoje, chorei muito, me desesperei, fiquei sem chão e decidi que eu tinha que mudar.”

Aos 20 anos, Yasmin começou a frequentar academia. Fazer exercícios que lhe dessem prazer, e começou a gostar cada vez mais. “Quando se está focada, você começa a sentir prazer em substituir certas coisas. Cheguei ao tempo de ir todos os dias treinar.” Na época, ela atingiu os 58 quilos.

Mas percebeu que poderia continuar tendo uma vida saudável, dando espaço para outras atividades. Hoje, ela frequenta as aulas de três a quatro vezes por semana. Ganhou massa magra, e alguns quilos, e está feliz novamente. “Eu sou muito mais confiante, me gosto mais, minha vida mudou de verdade. Hoje eu tenho muito mais disposição”, afirma.

 Faz três anos que Luís Valandro mudou de vida. Perdeu 45 quilos, e hoje percorre mais que cem quilômetros pedalando
Faz três anos que Luís Valandro mudou de vida. Perdeu 45 quilos, e hoje percorre mais que cem quilômetros pedalando
Crédito: Arquivo Pessoal

45 quilos a menos, vida a mais

Representante comercial, Luís Valandro, 42, também mudou para melhor. Em busca da qualidade de vida, e saúde, ele eliminou 45 quilos. O processo iniciou há três anos, quando ele estava no limite. Sofria de pressão alta, ferritina – falta de ferro no sangue – e estava com o colesterol alterado. Resultado de uma alimentação sem moderações, e uma vida sedentária, que juntas o fizeram atingir os 115 quilos.

“Não dava muito bola. Ganhava um quilo aqui, outro ali. Até que, ou eu mudava, ou ficaria o resto da vida gastando em remédio.” Por sugestão do médico, procurou uma nutricionista. Em agosto de 2014, trocou a cerveja e carne vermelha pela água, frutas e verduras. O cansaço pela disposição. Caminha todos os dias, faz academia e pedala – até Porto Alegre. “Não interessa a hora que chego em casa. Tenho que caminhar. É algo vital, faz falta. Também como seis vezes por dia. 70% é fruta e verdura.” Rotina regrada, que lhe fez eliminar bem mais que o excesso de peso. Valandro não tem mais nenhuma doença. “É muito bom poder fazer exames e não ter nada. Percebo que muitos não se dão conta que grande parte das doenças poderia ser evitada.” Valandro ainda dá um conselho, para quem quer ter mais qualidade de vida. “Não precisa fazer loucura. Procura uma pessoa que entende, e vai mudando aos poucos. Os resultados virão.”

Causas para uma vida desregrada

A nutricionista Jéssica Schuster considera diferentes fatores responsáveis para o quadro apresentado pelo estudo. Um deles é o cenário alimentar atual, em que o acesso aos produtos foi facilitado, ao mesmo tempo em que é incentivado pela mídia o consumo de determinados alimentos, que muitas vezes são calóricos e processados. “O boom dos industrializados começou na década de 80. Hoje faltam as comidas de verdade, com menos calorias e substâncias químicas.”

A rotina mais parada, sem tanta movimentação quanto nos anos 1980, também é um fator preponderante. Hoje , estudos indicam que mais de 50% da população brasileira é sedentária. Situações que, somadas, são uma verdadeira bomba para a saúde, causando diversas doenças físicas e mentais. Dentre elas, o diabetes – que atinge 8,9% da população – a hipertensão e dislipidemias, como colesterol e triglicerídeos alterados. Ainda estão geralmente associadas a doenças cardiovasculares, e causam depressão. Conforme a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, até 2014, também havia sete milhões de obesos mórbidos no país, número que representa 3,6% da população.

Alimentação sem prazer

Por outro lado, ainda há o aspecto comportamental da alimentação, ligado ao que Jéssica chama da mentalidade da dieta, gerada pela busca incessante por aceitação e encaixe em determinado padrão de beleza.

“Muitas pessoas desaprenderam a comer de forma natural e tranquila. Vivem se privando do que gostam, classificam o que vão comer em bom ou ruim, engorda ou emagrece, acabam ficando com medo da comida, medo de comer.”

Muitas pessoas desaprenderam a comer de forma natural e tranquila. Vivem se privando do que gostam.” – Jéssica Schuster, nutricionista

Essa “mentalidade da dieta”, para a nutricionista, acaba levando a episódios de exagero e compulsão, e consequentemente ao ganho de peso. Os estudos que avaliam o efeito das dietas mostram resultados bem preocupantes, afirma Jéssica. O efeito sanfona, consequência mais comum das dietas, leva a uma queda no metabolismo, aumento da gordura abdominal, redução do colesterol HDL (bom), aumento do risco de cálculos biliares e aumento do risco de doenças cardiovasculares.

Reaprender a comer

Ela acredita que o segredo está em desenvolver uma consciência alimentar. Respeitar os sinais do corpo de fome e de saciedade. “Quando tiver vontade de comer algo como o chocolate, por exemplo, deve-se saborear, não engolir sem sentir. Comer com alegria e se sentindo feliz, não derrotado por estar engordando. Um pedaço de chocolate não engorda ninguém. O que engorda é se sentir tão mal comendo que você perde a noção por ficar triste e come a barra toda.”

Meta é retirar de circulação 28,5 mil toneladas de sódio
Meta é retirar de circulação 28,5 mil toneladas de sódio

Menos sódio

Para tornar a alimentação dos brasileiros mais saudável, desde 2007, o Ministério da Saúde implanta um programa de redução de sódio nos alimentos. Na primeira etapa, foi retirado apenas o excesso do componente nos alimentos. Na segunda fase, foi feita a substituição do sal tradicional por outros, que contém menos sódio. Agora, a meta é modificar fórmulas, e até 2020 retirar de circulação 28,5 mil toneladas da substância, principalmente de pães, massas instantâneas e bisnaguinhas. Apesar de ser essencial ao equilíbrio corporal, se consumido em excesso, esse componente pode gerar diversas complicações, como aumento da pressão arterial, doenças renais e ainda pode ser o propulsor de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

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