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Jornal A Hora

Pensar o Vale

Publicada em 14/07/2017

Vale pressiona o Estado para barrar a crise no leite

Líderes regionais cobraram soluções do secretário de Agricultura Ernani Polo durante debate Pensar o Vale. Evento realizado no Polo Tecnológico da Univates discutiu temas como a importação de leite em pó do Uruguai, a desestruturação do IGL, a lei de créditos presumidos e o incentivo fiscal às empresas multinacionais.

Crédito: Anderson Lopes Queda no preço do leite no mercado fez com que mais de 2,5 mil famílias da região abandonassem a atividade nos últimos dois anos. Evento reuniu os principais agentes da cadeia leiteira
Queda no preço do leite no mercado fez com que mais de 2,5 mil famílias da região abandonassem a atividade nos últimos dois anos. Evento reuniu os principais agentes da cadeia leiteira

Uma das principais fontes de renda da agricultura familiar, a cadeia leiteira gaúcha enfrenta uma debandada de produtores. A queda no preço do leite no mercado fez com que mais de 2,5 mil famílias da região abandonassem a atividade nos últimos dois anos. Caso a crise avance, o RS pode perder até 40 mil produtores nos próximos cinco anos.

Diante do cenário, o A Hora promoveu na manhã de ontem mais um debate Pensar o Vale. Mediado pelo diretor-geral do A Hora, Adair Weiss, o evento reuniu os principais agentes da cadeia leiteira, líderes regionais e teve a presença do secretário estadual de Agricultura, Ernani Polo.

De acordo com o reitor da Univates, Ney Lazzari, dos 12 mil alunos da instituição, ao menos dez mil são do Vale do Taquari e, portanto, pertencem direta ou indiretamente às cadeias produtivas do leite, aves e suínos. “Estamos economicamente ligados a toda a problemática relacionada a essas cadeias.”

Estamos economicamente ligados a toda a problemática relacionada a essas cadeias.” – Ney Lazzari, reitor da Univates

Conforme o presidente da Amvat e prefeito de Estrela, Rafael Mallmann, o cenário motiva uma das principais preocupações dos municípios, que é incentivar a permanência das famílias no campo.

ALÍVIO: motivo de apreensão, a mudança na política de créditos presumidos foi rechaçada pelo secretário Polo. Segundo ele, uma lei aprovada no Senado desobriga o Estado a reduzir os incentivos
ALÍVIO: motivo de apreensão, a mudança na política de créditos presumidos foi rechaçada pelo secretário Polo. Segundo ele, uma lei aprovada no Senado desobriga o Estado a reduzir os incentivos
Crédito: Anderson Lopes

Presidente do Codevat, Cintia Agostini enfatizou as necessidades da região. “Queremos decisões, ações e resultados”, sentenciou. Segundo ela, o Vale reponde a menos de 2% do território do RS, mas tem capacidade para produzir 1/3 do leite gaúcho. Para Cintia, um dos motivos que impede o desenvolvimento desse potencial é a importação de leite em pó.

Uruguai abala preços

A presidente do Codevat afirma que quase a metade das exportações de leite em pó uruguaio é comprada por indústrias instaladas no estado. Segundo ela, nos últimos dois anos, as importações do produto cresceram 300%, rebaixando os preços pagos ao produtor.

“São valores que não cobrem nem mesmo os custos de produção”, alerta. Cintia questiona como as famílias continuarão na atividade se estão operando no prejuízo. “É preciso uma decisão política para resolver esse problema”.

Temos que encontrar ações conjuntas e unificadas para sermos um país exportador.” – Alexandre Guerra, presidente do Sindilat

Presidente da Fetag, Pedrinho Signori ressalta os investimentos realizados pelos agricultores para participar dos programas de sanidade animal e outras ações visando a qualidade do leite. “Todos tinham a expectativa de melhorar o parâmetro de pagamento, e assim pagar as prestações dos investimentos.”

De acordo com Carlos Freitas, presidente- executivo da Dália Alimentos, tudo indica que o cenário adverso permanecerá pelo menos até março de 2018 caso não se encontre uma forma de estabelecer limites às importações.

“Entendemos que o comércio internacional não pode ser totalmente bloqueado, mas todos os países do mundo criam mecanismos para equilibrar a balança comercial”, alega. Freitas defende a ideia de estabelecer cotas de importação, da mesma forma como ocorre na relação entre Uruguai e Argentina.

Todos os dias os gestores buscam formas de evitar a saída das famílias da agricultura.” – Rafael Mallmann, presidente da Amvat

Segundo ele, a medida é fundamental diante da falta de competitividade do Brasil na comparação com os países vizinhos. Conforme Freitas, o preço médio pago por litro de leite no mercado global varia de US$ 0,30 a US$ 0,36, enquanto no país o valor precisa ficar ao menos em US$ 0,40 para compensar o custo de produção.

“Considerando esse momento de globalização da economia, será muito difícil equilibrar isso no curto prazo”, aponta. Para aumentar a produtividade, atesta ser necessário investimento em tecnologia e em profissionais trabalhando no campo, algo que só seria viável com medidas para impedir o volume elevado de importações.

O produtor precisa saber quanto vai receber pelo leite. Sem isso, não
tem segurança.” – Pedrinho Signori, diretor da Fetag

“Nos últimos seis meses, o Brasil importou US$ 248 milhões a mais do que exportou”, informa. Conforme Freitas, um dos fatores que ainda assegura a atividade na região são as cooperativas que, mesmo perdendo competitividade, continuam comprando leite apenas dos produtores locais.

Produtores presentes no evento criticam a falta de uma política de proteção contra a entrada de leite em pó importado do Uruguai
Produtores presentes no evento criticam a falta de uma política de proteção contra a entrada de leite em pó importado do Uruguai
Crédito: Anderson Lopes

Incentivo desleal

Se o cooperativismo ainda é um dos pilares de sustentação da cadeia, o sistema enfrenta dificuldades devido a incentivos fiscais concedidos a empresas descritas por Freitas como extrativistas. “São organizações que, ao contrário das cooperativas, não têm qualquer ação de fomento agropecuário.”

Segundo ele, essas empresas, em geral provenientes da Região Sudeste, migram para o RS justamente devido ao trabalho de desenvolvimento do setor realizado pelo associativismo em parceria com a Emater.

Além de encontrar uma atividade bem desenvolvida, aponta, ainda ganham imensos benefícios do Fundopem. “Esse pessoal vem para cá com apenas dois profissionais, um para fazer lobby com o governo e conseguir incentivos fiscais, e outro para captar o leite.”

“Nos falta um líder e união. O IGL frustrou as expectativas e os elos da cadeia não se comunicam.” – Dirceu Bayer, presidente da Languiru

Segundo ele, mesmo a qualidade do leite fica comprometida no momento em que o preço se torna o principal fator levado em consideração.

Nesse sentido, o presidente da Languiru, Dirceu Bayer, ressalta a inexistência de uma liderança forte, capaz de reunir as forças atuantes na cadeia produtiva em um objetivo comum. “Falta alguém que represente a cadeia e que tenha legitimidade.”

Desorganização

Bayer lembra do movimento de criação do IGL que, segundo ele, não trouxe efeitos desejados por falta de união. “Tão importante quanto as cooperativas, são os sindicatos e demais entes envolvidos. Precisamos falar a mesma linguagem.” Para ele, o Estado tem a capacidade técnica para produzir, mas não tem política para o leite. Deputado estadual,

Edson Brum alega que parte dessa desestruturação da cadeia se explica pela concorrência interna entre indústrias e cooperativas.

“O IGL foi enfraquecido por interesses ideológicos e políticos, inclusive da secretaria.” – Edson Brum, deputado estadual

Lembra que a criação do IGL visou justamente suprir essa lacuna. Segundo o parlamentar, foi um trabalho de anos para estabelecer algo parecido com o que é realizado com sucesso por países como Alemanha, Espanha e o próprio Uruguai.

“Depois de tudo isso, o IGL foi enfraquecido por interesses ideológicos e políticos”, critica. Para o deputado, parte da desestruturação do instituto ocorreu devido à intenção do IGL de mapear o rebanho bovino gaúcho para garantir a sanidade animal.

“O problema foi esse, pois não acredito nos números de abigeato, e sim em sonegação”, aponta. Diante disso, relata, foi abandonada uma política construída por várias pessoas de diferentes ideologias por outra completamente equivocada. “Precisamos também da consciência do Sindilat, pois são os associados desse sindicato que estão importando leite em pó”, ressalta.

O RS sofre com empresas extrativistas que recebem incentivos fiscais do Fundopem.” – Carlos de Freitas, presidente-executivo Dália

Presidente do Sindilat, Alexandre Guerra afirma que o Estado precisa repensar a sua produtividade para poder competir com o mercado internacional. “Temos que encontrar ações conjuntas para sermos um país exportador”, alega. Segundo ele, não é possível impedir as importações porque o Brasil vende mais produtos para o Uruguai do que compra do país vizinho.

Uma das sugestões de Guerra é estabelecer compras governamentais para tirar a pressão do mercado sobre os produtores, além de criar um plano de utilização da capacidade ociosa das indústrias do setor.

“O que nós queremos são decisões e resultados para esse tema preocupante.” – Cintia Agostini, presidente do Codevat

Conforme o presidente do Sindilat, outro fator determinante para os problemas da cadeia é a guerra fiscal entre estados. Segundo Guerra, o RS é o que mais sofre consequências disso, por estar longe do Rio de Janeiro e de São Paulo, principais centros consumidores. “Nosso custo de logística é extremamente elevado.”

Ernani Polo convoca os representantes da cadeia a unificar discursos e estratégia
Ernani Polo convoca os representantes da cadeia a unificar discursos e estratégia
Crédito: Anderson Lopes

Secretário Polo pede mais unidade

Após ouvir as constatações, o secretário Ernani Polo afirmou que o papel de todos os envolvidos é encontrar caminhos para o setor. Segundo ele, o RS perde competitividade devido às dificuldades logísticas, não apenas no leite.

“Percebemos que as atividades exigem profissionalismo para reduzir custos e que os produtores sejam competitivos”, alega. Para melhorar as condições de competição, defende o trabalho integrado entre todos os elos da cadeia.

“Talvez uma relação contratual entre todos poderia ser um caminho”, sugere. Polo afirma que outros setores conseguem avançar de forma mais célere devido a essa sintonia, citando como exemplo a organização da cadeia do vinho.

“Passamos por um momento difícil com as ações da Operação Leite Compen$ado, e hoje nossa produção é a mais fiscalizada do país”, ressalta. Diante disso, aponta, a atividade passou por uma transformação que resultou na profissionalização da cadeia.

Alega que o governo aprovou a tributação do leite UHT que entra no RS como forma de proteger o setor. Para ele, ainda é necessário tornar o estado em um produtor de derivados de leite com valor agregado, como queijo, requeijão e iogurte.

“Com simplicidade, humildade, podemos construir juntos esse caminho”, afirma. Segundo ele, as iniciativas do IGL e do Fundoleite foram bem intencionadas, mas a falta de sintonia dos envolvidos no processo dificultou os trabalhos.

Edson Brum rebateu, dizendo que o tratamento dado pela secretaria ao IGL não foi o mesmo dado aos demais institutos. “Teve interesse ideológico e econômico por trás, inclusive por parte da secretaria.”

Polo respondeu dizendo que nunca houve essa diferenciação. Segundo ele, a diferença é que o IGL foi acionado judicialmente por uma cooperativa e por empresas que não queriam contribuir com o fundo, algo que não ocorreu nos demais institutos.

“Temos R$ 1,5 milhão na conta do Fundoleite, e a Fazenda está executando quem não pagou”, assegura. Para o secretário, diante de tudo o que ocorreu nesse processo, ficou clara a dificuldade de representatividade do setor.

Mesmo assim, ressalta a intenção do governo em retomar as atividades do IGL. Segundo ele, hoje mesmo ocorre reunião entre o presidente do instituto, Carlos Joel da Silva, e o governo federal para tratar sobre a aquisição governamental de leite e a questão da importação.

“Essa equalização da balança comercial tem que ser feita ou pelo Piratini ou pela União”, acredita. Segundo Polo, o governo está disposto a mudar o que for necessário para melhorar as condições da atividade.

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“Chega de discutir, a solução está dada.”

Diretor da CIC-VT e ex-secretário executivo do IGL, Oreno Ardêmio Heineck acredita que a solução passa por reestruturar o instituto. “Não podemos devolver ao Estado uma questão que discutimos para a iniciativa privada gerenciar.”

Segundo ele, a resistência ao IGL por parte de entidades como a Farsul e de algumas indústrias ocorre por desconhecimento do projeto. Caso o Estado não tenha o interesse de retomar o IGL, sugere o retorno da proposta de formar o Vale dos Lácteos. “Chega de discutir, a solução está dada. Senão colocarmos em prática o que foi construído nas duas últimas décadas, podemos ficar mais dez horas conversando e não sairemos do lugar.”

Menos conversa e mais ações

Representando os produtores, a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Teutônia e Westfália, Liane Brackmann, criticou o posicionamento do Sindilat quanto à importação. “Tratam com normalidade, como se as vacas do Uruguai fossem mais valiosas que as nossas”.

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Para ela, é dever do Estado proteger o produtor, que está deixando a atividade por se sentir desamparado. “Este mês, R$ 500 mil deixam de circular na economia de Teutônia por causa do impacto da crise do leite.”

Lembra ainda que as mudanças no Plano Safra fizeram com que os agricultores paguem juros superiores à inflação. “Até março do ano que vem, serão mais 30 mil produtores abandonando a atividade.” Secretário de Agricultura de Estrela, Adão Braun afirma que os agricultores exigem uma solução para não “morrer à míngua”. Ressalta o decreto do Estado que reduziu de 18% para 4% a alíquota cobrada na importação do leite.

“Precisamos eliminar esse incentivo para estancar a crise”, sentencia. Segundo ele, as autoridades brasileiras optaram por prestigiar o produtor uruguaio e três ou quatro grandes indústrias em detrimento das famílias que dependem da atividade.


OPINIÃO: Adair Weiss

Adair

Quais saídas restam?

O debate de ontem, no Tecnovates, denota a gravidade que enfrenta o setor leiteiro gaúcho. Feridas foram expostas, mas o entendimento de unidade prevaleceu.

O secretário Ernani Polo foi político. Mas deixou uma dose de esperança ao propor o consenso. Concorda com a importância do IGL e de abrir a discussão aos setores envolvidos.

A palavra empenhada por Polo cria expectativa e é uma das saídas. Afinal, sua origem é da agricultura familiar.

Hoje, em POA, no IGL, o tema volta à mesa. O debate de ontem em Lajeado, certamente, pesará na discussão. Espero que o apelo dos produtores e líderes setoriais tenha sensibilizado o secretário de Estado e os demais atores com poder de decisão.

Embora pareça difícil resolver o impasse das importações do Uruguai, é vital olhar para isso com a seriedade devida. Não há mais como resistir ao dano que o contrário causará.

Não menos importante é regrar as concessões fiscais aos grupos econômicos estrangeiros que adotam modelo extrativista na cadeia.

Não faz qualquer sentido ignorar a ociosidade da planta fabril gaúcha e conceder incentivos fiscais a novos grupos econômicos. As plantas das nossas indústrias podem absorver mais 30% de leite. Logo, o governo do Estado deve ser estratégico e incentivar a melhoria da produtividade para tornar o setor forte na ponta mais fraca: o produtor. Trazer ou incentivar novas indústrias vai apenas desestabilizar o arranjo produtivo ainda muito frágil.

Por outro lado, se Polo não assumir posição e não fechar apoio aos pequenos produtores, o Vale terá de tomar uma atitude isolada: seguir o exemplo da Galícia e criar sua própria ferramenta de organização.

Um agência de desenvolvimento regional, com um fundo próprio. Não apenas pelas cooperativas, mas todas as empresas e setores ligados ao desenvolvimento regional devem aderir. Será uma alternativa em uma clara demonstração de protecionismo contra a falta de políticas públicas do Estado.

Por último, ao governador do Estado, José Ivo Sartori: olhe para o setor leiteiro como ferramenta estratégica de desenvolvimento social. Nenhum outro setor tem lastro tão profundo na economia gaúcha quanto o do leite. E, principalmente, é uma questão de sobrevivência dos pequenos municípios.

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