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Jornal A Hora

ACIDENTE EM CONGONHAS - VOO 3054

Publicada em 15/07/2017

Maior tragédia aérea do Brasil completa 10 anos

A vida de cinco famílias da região mudou em 17 de julho de 2007. Parentes estavam no AirBus A-320 da empresa TAM - hoje LaTam - que não conseguiu frear na pista 35 L de Congonhas. Invadiu a av. Washington Luís, bateu em um táxi e explodiu após chocar-se a 177 km/h contra um posto de combustíveis e um prédio da própria empresa, ao lado do aeroporto, em São Paulo.

Crédito: Rodrigo Martini a comissária Patrícia Hauschild, de Teutônia, foi uma das vítimas. A mãe, Lia, e o irmão, Rodrigo, lembram da paixão dela por voar
a comissária Patrícia Hauschild, de Teutônia, foi uma das vítimas. A mãe, Lia, e o irmão, Rodrigo, lembram da paixão dela por voar

199 pessoas morreram. Eram 187 tripulantes, passageiros e mais 12 pessoas que estavam no táxi e no prédio da empresa. Entre as vítimas, o engenheiro químico de Estrela, Paulo César Pavi, a aeromoça de Teutônia, Patrícia Hauschild, o deputado federal de Taquari, Júlio Redecker, o advogado de Lajeado, Nelson Wiebelling, e a irmã de um médico estrelense, Sônia Maria Machado.

Os cinco estavam a bordo do voo JJ3054, com origem no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, e cuja decolagem ocorreu às 17h19min, cerca de uma hora e meia antes do acidente na capital paulista.

Naquela noite chuvosa, 250 homens do Corpo de Bombeiros trabalharam para controlar o incêndio. O serviço incluiu ainda 16 ambulâncias e profissionais do Instituto Médico Legal (IML). O fogo durou cerca de seis horas. As buscas nos escombros encerraram nove dias depois. Do local, foram retiradas 220 sacolas com restos mortais.

Entre as 199 vítimas, estava Patrícia Hauschild, teutoniense de 30 anos. Havia se formado comissária de bordo fazia oito. O irmão, Rodrigo, estava de aniversário naquele dia 17. A mãe, Lia Schneider, aniversaria um dia depois.

Patrícia era comissária de voo. A mãe, Lia, e o irmão, Rodrigo, lembram de como ela gostava de viajar e conhecer novas culturas
Patrícia era comissária de voo. A mãe, Lia, e o irmão, Rodrigo, lembram de como ela gostava de viajar e conhecer novas culturas

Patrícia era do mundo. Antes de completar 18 anos, já morava na Alemanha, onde participava de um programa de intercâmbio e trabalhava como babá. “Ela sempre quis conhecer o mundo. E conseguiu”, orgulha-se a mãe. Em 1998, aos 21 anos e já de volta ao Brasil, era professora formada e buscava “novos voos”. Iniciou um curso de aeromoça.

“Seis meses depois, e por ter a facilidade com a língua alemã, ela já estava contratada pela TAM. Primeiro para voos nacionais. Mas logo depois, começou a trabalhar em rotas internacionais, principalmente para a Alemanha”, conta o irmão. “Vivia para lá e para cá. Certa vez me levou para Paris em um Réveillon. Frio, frio, mas foi muito lindo”, recorda.

A vida a bordo preocupava a mãe. “Ela sempre me disse: se der algo errado, dificilmente sobreviveremos. Parecia que ela queria me deixar pronta. E eu falava: nem me fala uma coisa dessas.” Mas Patrícia não tinha medo, conta Lia. A mãe também não, isso até aquele fatídico início de noite.

“Queria esticar o braço e tirá-la daquela bola de fogo”

Patrícia morava em São Paulo. No fim de semana anterior à tragédia, veio a Teutônia comemorar o aniversário do irmão e da mãe. Junto com ela, veio uma amiga paulista, Aline Manteiro Castigo. O encontro na casa da família Hauschild, no bairro Languiru, repetiu o costume. Muita comida, conversa e chimarrão. Mas o destino interrompeu a comemoração.

“Uma colega não tinha como trabalhar em um voo que iria a Milão às 13h do dia 18. E a Patrícia foi chamada. Eu pedi para ela ficar para o meu aniversário, e sair logo pela manhã para São Paulo. Mas ela queria chegar antes, se arrumar para a viagem e tudo mais”, conta a mãe.

Irmão de Paulo, Alexandre,  aguardou 22 dias pelo reconhecimento do IML
Irmão de Paulo, Alexandre, aguardou 22 dias pelo reconhecimento do IML

Patrícia deixou a casa dos Hauschild pouco antes das 14h do dia 17, em direção ao Salgado Filho, junto com a amiga paulista. Por volta das 19h daquela terça-feira, cinco horas após se despedir da filha, Lia ficou chocada diante do televisor na casa de uma vizinha.

“A gente estava em uma festa quando me falaram de um acidente em Congonhas. Eu logo falei: mas a Patrícia está voando. E quando vi a imagem da cauda da TAM naquela bola de fogo, não consegui mais caminhar. Fiquei mal, mal, mal. Logo pensei: elas estão lá dentro. Queria esticar meu braço até lá e tirar ela daquela bola de fogo.”

Iniciaram as ligações. O celular de Patrícia estava desligado, assim como o da amiga, também funcionária da TAM. Insistiram durante toda a noite. Já na madrugada do dia 18, às 5h, Rodrigo foi até o aeroporto de Porto Alegre, onde a empresa aérea preparou um espaço para receber familiares dos passageiros.

Lá, teve acesso à lista de passageiros e tripulantes. Um breve alívio: o nome de Patrícia não estava. Mas a esperança durou poucos minutos. Logo na sequência, a confirmação: a irmã e a amiga pegaram carona no voo JJ3054, após tentarem, sem sucesso, uma viagem que partira uma hora antes. “No fundo eu já sabia. O celular estava desligado.”

Na manhã do dia 18, Rodrigo embarcou em um voo da TAM até São Paulo. Queria buscar a irmã. “Chegavam notícias de que muitos corpos não seriam encontrados”, lembra a mãe. Na capital paulista, o irmão falou com legistas e doou sangue para testes de DNA. “Fiquei três ou quatro dias e voltei. Fui ver o local. Fiquei a uns 50 metros. Não tinha mais nada. Queimou tudo.”

O corpo foi identificado pelo IML na manhã de 30 de julho, dia do aniversário de Patrícia. “Um dia antes, eu disse que iria até lá achar o corpo. Eu tinha a certeza de que eu acharia a minha menina no meio daqueles escombros. E naquela manhã me ligaram para dizer que o corpo estava identificado, em uma capela, esperando familiares. O caixão estava lacrado”, emociona-se.

A mãe chora ao lembrar de quatro famílias que nunca receberam os corpos. Nos dois primeiros anos, ela e Rodrigo foram até São Paulo participar das homenagens às vítimas, em um memorial erguido no local do acidente. “A TAM pagava voo e os melhores hotéis. Mas tudo foi enfraquecendo. Vai caindo no esquecimento. Não sei se vamos neste ano.”

Lia construiu a própria homenagem. A filha havia comprado um terreno próximo à casa da família, na mesma rua, onde queria construir um prédio. “Foi complicado, com muito choro sempre que eu iniciava, mas eu queria realizar por ela esse sonho. O nome do prédio é Patrícia.”

Possíveis causas do acidente

Em junho, o TRF-SP confirmou a absolvição de três acusados: a então diretora da Anac, Denise Abreu, e os funcionários da TAM, Marco Aurélio dos Santos de Miranda, ex-diretor de Segurança, e Alberto Fajerman, ex-vice- presidente de Operações.

O tribunal se baseou no relatório do Centro de Prevenção e Investigação de Desastres Aéreos (Cenipa). O centro indica que o acidente aconteceu pela operação inadequda dos manetes de potência do avião, e não por consequência de eventual decisão dos réus. Cita, ainda, que as condições meteorológicas não foram decisivas para o acidente.

Vizinhos também perderam filho

Outra família do bairro Languiru também chorava a morte do filho morto no acidente. Vizinhos poucos metros dos Hauschild, os pais de Paulo César Pavi foram confortados por Ilda que, por diversas vezes, insistiu para o casal de amigos ir até os cultos rezar pelas vítimas.

Hoje, o casal de idosos vive em Estrela, cidade natal de Paulo. Lá também mora Christina, a viúva, e as duas filhas, hoje com 14 e 12 anos, que na época viviam em Mogi das Cruzes, com o pai. Na cidade paulista, a família Pavi viveu por seis anos antes da tragédia. No dia do acidente, mãe e filhas estavam de férias no Vale do Taquari.

Depois da morte de Paulo, a viúva e as duas meninas não deixaram mais Estrela. Segundo amigas, Christina prefere não falar sobre a tragédia. Na cidade, também mora o irmão da vítima, Alexandre Pavi, proprietário de uma locadora de veículos em Lajeado.

Ele lembra do dia do acidente. No fim de tarde daquela terça-feira, Alexandre estava em um bar, em Estrela. “Estava vendo pela televisão. No início disseram que era um avião que decolou em Minas Gerais, e depois confirmaram que vinha do RS. Mas eu nem sabia que horas ele tinha ido.”

O irmão estranhou o celular desligado. Conseguiu o número de telefone de um colega de Paulo, que “estava nervoso”. “Ele me disse que estava indo ao aeroporto checar. Daí logo descobrimos o horário que ele tinha embarcado e ficamos sabendo.”

Uma lacuna ficou em aberto entre amigos e familiares, comenta Alexandre. “Fica faltando um braço na família. Mas felizmente ele deixou duas filhas maravilhosas que vivem aqui em Estrela. E a gente tem que ir convivendo assim, porque Deus quis assim. E precisamos aceitar dessa forma.”

Irmã do médico Protógenes da Cunha Nunes, Sônia, foi uma das vítimas. O pediatra lembra do caráter e da liderança da irmã.
Irmã do médico Protógenes da Cunha Nunes, Sônia, foi uma das vítimas. O pediatra lembra do caráter e da liderança da irmã.
Crédito: Rodrigo Martini

“Minha irmã conheceu o neto um dia antes”

O pediatra, Protógenes da Cunha Nunes, atua faz mais de 30 anos em Estrela. Ele é irmão de Sônia Maria Machado, 71, uma das 199 vítimas. A irmã sempre morou em Porto Alegre, e ia para São Paulo resolver problemas de precatórios do marido morto. “Sempre foi uma líder muito trabalhadora.” Ela participava do grupo de Tricoteiras dos Precatórios.

Um dia antes da tragédia, nasceu o único neto de Sônia. “Ela pegou ele no colo uma só vez”, emociona-se Protógenes. Sônia deveria ter embarcado em um voo no início da tarde. No entanto, um compromisso com autoridades atrasou os planos.

Nunes lembra com detalhes do último dia com a irmã mais velha. “Nossa mãe estava hospitalizada em Porto Alegre e fui para lá à tarde. Ouvi no rádio do carro sobre o acidente. O repórter disse que a cauda da aeronave, com uma porta de emergência, estava fora do fogo. Rezei, sem saber que ela estava lá dentro, para todos saírem por ali”, conta.

Ninguém saiu. Ainda sem saber que Sônia havia perdido o voo e embarcado horas depois no mesmo AirBus que ardia em chamas, o pediatra seguiu viagem. Quando estava próximo ao aeroporto da capital, um irmão, de São Gabriel, ligou. “Tu tá vendo o acidente da TAM? Olha, a Sônia pode estar ali dentro.”

O médico respirou fundo e tentou argumentar. “Mas o voo dela é mais cedo”. No entanto o irmão estava mais informado e confirmou. “Ela perdeu, tinha um compromisso e embarcou mais tarde.” Foi ali que começou o martírio da família. O pediatra ligou para a mulher, para o filho e todos já estavam apreensivos. As ligações para Sônia caíam na caixa-postal.

Junto com familiares, foi até o aeroporto em busca de informações. Na sequência, foram encaminhados ao saguão do Hotel Plaza São Rafael. Lá, diante de um rádio à pilha, escutou, em meio a choro, gritos e desespero, o nome de todos os 181 passageiros. Um a um. Sônia foi uma das últimas. “Foi a confirmação. Um horror, um horror lá dentro daquele saguão.”

Nos meses seguintes, morreram a mãe e o único irmão de Nunes. Restaram outras duas irmãs. “Foi um ano difícil, cara. Difícil. Mas a gente tem os filhos, a vida segue e agora nós estamos aqui, firmes e fortes”, resigna-se. Sobre indenizações e processos, ele não faz questão de falar. “Isso aí não tem valor nenhum, o que tem valor é a vida”, finaliza.

Lucas Redecker, deputado estadual pelo PSDB, se emociona quando as pessoas relembram a atuação do pai, o ex-parlamentar Júlio Redecker.
Lucas Redecker, deputado estadual pelo PSDB, se emociona quando as pessoas relembram a atuação do pai, o ex-parlamentar Júlio Redecker.
Crédito: Divulgação

“O sentimento ainda é de injustiça”

Lucas Redecker é filho do ex-deputado federal, Júlio Redecker, uma das vítimas da tragédia. O pai foi parlamentar em Brasília durante quatro mandatos consecutivos. Natural de Taquari, foi advogado, professor universitário e empresário antes de iniciar na vida pública em 1995. No voo JJ3054, estava fazendo escala para uma viagem aos EUA.

Júlio, pelo PSDB, iria aos Estados Unidos na companhia do então presidente da Câmara Federal, Arlindo Chinaglia (PT-SP), onde fariam reuniões com parlamentares norte-americanos. Meses antes da tragédia, o parlamentar se destacava em duas importantes CPIs: do Mensalão e do próprio Apagão da Aviação.

No dia do acidente, o filho, hoje deputado estadual pelo PSDB, estava em um sítio da família, em Cambará do Sul. Lá, Júlio ficara até o domingo anterior. “Não pegava celular. Fiquei sabendo já eram 21h. Me disseram que o avião havia batido em um prédio após pousar. Pensei que haveria sobreviventes, pois não houve queda da aeronave”, lembra.

Lucas também conversou com o pai minutos antes do embarque. “Ele pediu algumas informações e me disse que estava embarcando. Foi isso. Foi meu último contato com ele.” Sobre o legado do pai, ele separa o lado profissional da relação familiar. “Era um grande amigo, muito carinhoso e ao mesmo tempo sempre cobrando. Exigente”, conta.

Na vida pública, Lucas se orgulha do legado deixado pelo pai. “Percebo em todos os municípios que visito. No Vale do Taquari, por exemplo, não há cidade que não tenha algum retorno do trabalho dele como parlamentar”, diz. Na região, Júlio tinha como assessor o lajeadense Vitor Hugo Gerhardt, morto em junho de 2016, após problemas cardíacos.

Passados dez anos da tragédia, o sentimento é de injustiça, diz Lucas. “O TRF-SP absolveu os três possíveis culpados, faz duas ou tres semanas, e a gente acaba sentindo impunidade diante de um acidente que matou 199 pessoas.” Para o filho, o acidente foi uma sucessão de erros. Da empresa, da Anac, Infraero e de quem liberou a pista e o voo da aeronave.

“Deram condiçoes de voo para uma aeronove com “reverso pinado”, deveria existir justiça. Que alguém fosse o culpado, e até o momento só culparam os pilotos que, com certeza, não queriam morrer.” Além dos problemas no avião, a pista, molhada, fora liberada após reformas sem os dispositivos necessários para mantê-la seca.

Na época, o país vivia um verdadeiro caos aéreo. Um ano antes, outro avião da TAM despencou próximo a Congonhas, matando outra centena de pessoas. “Havia denúncias que os pilotos se comunicavam por bilhetes dentro das cabines, para não deixar áudio relatando os problemas da aeronove”, lembra Lucas.

Uma década após a morte do pai, o atual deputado estadual também lamenta a inoperância dos órgãos nacionais responsáveis. “Em termos de controle de voo, as informações que tivemos foram de que as coisas não mudaram muito. Em Porto Alegre, por exemplo, seguimos com uma pista curta. E assim são diversos aeroportos no Brasil. E o tráfego aéreo aumentou. Ainda tem muito a melhorar”, finaliza.

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