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Jornal A Hora

PERSONAGEM DA REGIÃO

Publicada em 12/08/2017

“Apitei mais de mil jogos”

Jorge de Freitas, o “Taxa”, é referência no Vale. Dedicando-se faz mais de 30 anos à profissão, colecionou histórias e se tornou o árbitro mais popular nos campos locais

Crédito: Ezequiel Neitzke Funcionário público, Taxa divide o tempo entre o trabalho, família, amigos e a arbitragem
Funcionário público, Taxa divide o tempo entre o trabalho, família, amigos e a arbitragem

Filho mais velho de uma família com cinco irmãos, ele ajudava os pais a colocar comida na mesa. Eles moravam no bairro Conservas, em Lajeado. Com 23 anos, já havia atuado em diversos ramos, de vendedor até garçom.

Um convite inusitado, após um partida do Internacional, do bairro Conservas, mudou a vida do então jogador. Responsável pela equipe de arbitragem na época, Wolmir Pedrazza de Oliveira lhe chamou para compor o grupo que apitava jogos na região “Ele pediu por que eu não começava a apitar e eu falei que ele estava louco.”

No fim, a influência dos tios que eram árbitros e a possibilidade de uma renda extra atrairam Taxa à atividade nos fins de semana.

Em 1985, estreou em um clássico municipal entre Fluminense, de Mato Leitão, e Sebe, de Boa Esperança, Cruzeiro do Sul, pelo Regional Aslivata. A partida contou com a presença do então zagueiro Mano Menezes. Pressionado, Taxa chegou a ouvir de um tio que se fosse mal seria descartado. O confronto terminou empatado e sem erros de arbitragem.

Para Taxa, as maiores dificuldades estão no futebol amador. Ao longo dos 30 anos de carreira, o árbitro se recorda das duas vezes que apanhou
Para Taxa, as maiores dificuldades estão no futebol amador. Ao longo dos 30 anos de carreira, o árbitro se recorda das duas vezes que apanhou

De lá para cá, passaram-se três décadas e Taxa se consolidou como um dos árbitros mais respeitados e requisitados nos campos amadores do Vale. “Eu não lembro de alguém que apitou tanto quanto eu.” Foram tantas partidas que sequer consegue contar. Só nas finais, arrisca dizer que atuou em “mais de cem”, seja nos vales do Taquari e Rio Pardo, como na Serra.

Colecionador de histórias, Taxa se recorda das agressões que sofreu, das tentativas de suborno e da tentativa em apitar campeonatos profissionais – fato que não se concretizou devido a questões financeiras.

As amizades e a renda extra foram os principais benefícios da profissão. Em contraste, havia o distanciamento da família. “Nem sempre fui um pai presente para meu filho. Sorte que sempre tive o respaldo da minha mulher e da sogra.”

Aos 55 anos e com 106 quilos, Taxa sente o peso da idade. Apitar jogos de futsal e minifutebol ainda é possível. No caso das partidas em campo 11, a situação é mais complicada. “Gosto mais dos veteranos, pois consigo acompanhar,” brinca.

Apesar disso, Taxa não pretende parar tão cedo. “Se Deus me der saúde, quero apitar mais uns cinco, seis anos.”

Entrevista

A Hora – Como surgiu o apelido “Taxa”?

Taxa – Isso é uma confusão. Foi com 3 anos. Como surgiu, nem sei dizer, faz bastante tempo.

Existe muitas dúvidas em relação ao seu peso. Quanto pesa hoje?

Taxa – Hoje estou com 106 quilos. No meu auge, tinha 90 quilos. Se me cuidar uns 45, 60 dias, baixo tranquilamente uns dez quilos. Tudo o que tenho aqui é cerveja e churrasco (risos).

Qual foi o primeiro jogo que apitou?

Taxa – Nunca mais me esqueço, a primeira escala que peguei foi em um Regional. Clássico entre Sebe, de Boa Esperança, e Fluminense, de Mato Leitão. Só os atletas experientes: Mano Menezes, Joia, Ocior, Bracht, Pelezinho, Ruben Rosing. Quando o Wolmir me deu a escala, os colegas perguntaram para onde eu ia, disse que ia no Fluminense versus Sebe. O Joia, meu tio, me disse: “Vai e arrebenta no jogo, senão, domingo que vem você volta como bandeirinha.” (risos). Aí tive sorte, pois fui bem e dali em diante as coisas só aconteceram. Meu nome logo estourou na arbitragem. No primeiro ano, já apitei final de campeonato.

Nas três décadas de carreira, qual foi o jogo mais marcante?

Taxa – Foi a decisão do Regional (2004) entre Águia Azul e Juventude de Vila Arlindo. Era o segundo jogo da final. Aos 38 minutos do segundo tempo, estava 1 a 0 para o Águia Azul e eu não havia dado nenhum cartão.

Daí apliquei o primeiro amarelo no zagueiro do Águia Azul e fui agredido. O cara me deu um soco no supercílio. Abriu e começou a sangrar. Fui para o vestiário com os dois massagistas. Eles fizeram um curativo e voltei. Tinha mais de três mil pessoas no estádio. Todos acharam que eu não voltaria, mas eu voltei e terminei o jogo. Ganhou o Águia Azul por 2 a 0.

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Além dessa que você acabou de relatar, foi agredido outra vezes? Quantas?

Taxa – Sim, fui agredido também em uma semifinal do Regional. Foi o jogo entre Juventude, de Vila Arlindo, e Gaúcho, de Teutônia, mas não lembro o ano. A partida não foi ruim dentro de campo, mas aconteceram fatos isolados que a tornaram polêmica.

Havia acontecido uma confusão na partida aspirante entre Fluminense, de Mato Leitão, e Gaúcho, de Teutônia. Terminou o jogo e estava fardado, pronto para entrar em campo. Nesse momento, fui agredido. Um cara do Fluminense me deu um pontapé no joelho. Me atirei em campo e disse que não teria jogo, pois não conseguia nem caminhar. Daí o massagista do Juventude fez uma massagem, colocou éter no meu joelho e fui apitar. O Juventude ganhou do Gaúcho, lá em Teutônia por 2 a 1.

No fim, os caras queriam que fizesse festa com eles. Quando saí de lá, e voltei para o cachorrão, onde era o ponto de encontro dos árbitros, não consegui nem sair do carro. A perna tinha esfriado e estava dura. Fui direto para o hospital. Eu uivava de dor. Eles meteram uma injeção e fiquei bom de novo. Por incrível que pareça essa (final do Regional de 2004) foi a agressão mais forte, com lesão e sangue. Os outros casos foram lances em que você leva uma pressão e os jogadores lhe dão um pontapé por baixo. Nada mais que isso.

Qual o sentimento após ser agredido?

Taxa – Fica muito constrangido. Vou falar desta agressão do jogo do Águia Azul. Acabou a partida, fui para o pronto-socorro fazer pontos. No outro dia de manhã, morava ainda no bairro Conservas, me fechou o olho. Na época, o Joel Alves me entrevistou para o Grupo Independente. Eu só chorava. Me olhava no espelho e não achava ser verdade isso. Às 11h vieram o treinador e o presidente do Águia Azul. Quando eles colocaram a mão no portão, avisei que se eles botassem os pés dentro do meu terreno iria matá-los. Xinguei eles tanto que foram embora constrangidos. Hoje somos todos amigos. É uma coisa marcante ser agredido. Em cima disso, sempre soube sair bem. Até hoje ainda não acredito que fui agredido naquele jogo. De vez em quando, encontro o meu agressor no litoral, nem ele entende como aconteceu. Ele me disse que estava com problemas familiares, mas é uma coisa que me marca para sempre a vida da pessoa.

Já foi ameaçado de morte?

Taxa – Nunca. Fui só procurado para vender a partida.

Então são comuns os casos de suborno a árbitros no futebol amador?

Taxa – Hoje eu não vejo mais isso. Antigamente era mais comum. Só para ter uma ideia. Final de Regional entre Esperança, de Teutônia, e Juventude, de Venâncio Aires, no Estádio Edmundo Feix, em Venâncio Aires. Os caras de um time vieram me procurar para me subornar, em um jogo que sabia que não iria apitar. Na época, apitou Alceu Signori. O time que veio me comprar ganhou o título no campo.

Outra vez que me tentaram comprar foi em Boqueirão do Leão. O pessoal de um time ficou 45 minutos me cutucando, dizendo para fazer a minha proposta, que eu era o cara, que iria fazer tudo certo e o time sairia campeão. Mandaram fazer o meu preço. Quando cheguei no campo da final, chamei o presidente da Liga e comentei sobre o caso. Antes de começar a partida, chamei o cara que tentou me comprar e o treinador do time adversário e disse que ia arrebentar na partida e que não adiantava fazer o que algumas pessoas estavam tentando fazer. Fui lá, fiz uma das melhores partidas minhas e o time que tentou me comprar saiu derrotado. Ao final do jogo, os cara me chamaram para comer churrasco na sede deles, lógico que não aceitei, não sou louco (risos).

No amador, ouve-se muita história, entre elas, que você ia armado para as partidas. É verdade?

Taxa – Vou lhe contar o que aconteceu uma vez. Fui apitar um jogo no campo do Olarias. Olarias versus Floriano, de Bom Retiro do Sul. Lá deu uma confusão. O pessoal do Olarias não queria deixar o jogador do Floriano sair, fui lá e tirei o cara e o pessoal do Olarias chamou a polícia dizendo que eu estava armado. Nunca usei um canivete no futebol e na minha vida pessoal. Nunca andei armado. Quer tirar a dúvida? Me traz uma arma para ver se sei atirar, não sei dar um tiro. É que assim, morei 50 anos no bairro Conservas, que é um bairro mal falado. Sempre gostei de morar lá, tenho minha empresa lá. Como ando no meio de todo mundo, desde o empresário ao bandido, o pessoal acabou me rotulando, mas nunca usei arma.

Pensou em se profissionalizar?

Taxa – Na década de 90, o presidente da Liga de Cruzeiro do Sul (Licrufa) era o Marcos Bender, conhecido como Marquinhos. Quando estava no meu auge, o Marquinhos pediu por que eu não fazia um curso na federação (FGF) e apitava jogos profissionais. Eu arrumei toda a minha documentação e quando chegou a hora de fazer o curso faltou grana. Depois passou o tempo e não valia mais a pena por causa da idade. Até hoje amigos comentam que se tivesse ido apitar profissionalmente teria entrado no quadro da Fifa, mas são coisas que não temos como prever que vão acontecer.

Existe muita diferença da época em que começou a apitar para hoje?

Taxa – Hoje é barbada apitar futebol amador. Quando comecei, era muita rivalidade. Podia contratar atletas amadores de tudo que era lugar. Hoje é mais tranquilo, a maioria dos municipais é formada apenas por jogadores da casa. No decorrer dos anos, o próprio regulamento dos campeonatos foi se aperfeiçoando. Nunca mais me esqueço, fui apitar uma decisão municipal entre Santa Clara e Cruzeiro, lá no campo velho do Santa Clara. Me perguntaram quem eu era, respondi que era o árbitro do jogo, e logo comentaram: “estamos ralados”. Era clássico deles, jogo pegado, Cruzeiro foi campeão na prorrogação. Até hoje, quando vou a Santa Clara do Sul, o pessoal fala desse jogo.

Onde é mais fácil de apitar, no minifutebol, futsal ou futebol 11?

Taxa – Hoje prefiro apitar futsal e o minifutebol, até porque para o futebol de campo exige muito preparo físico. O pessoal raramente me verá apitando o aspirante. Titular, então, nem pensar. O pessoal vai me ver domingo de manhã no veterano, em que vou trotear como eles. O futebol 7 e o de salão dá para continuar apitando por mais uns quatro ou cinco anos, isso se não sofrer alguma lesão. Dez anos atrás, apitava tudo. Apitei sete finais consecutivas de 2004 a 2010. Não é porque coordeno a arbitragem que vou, mas é porque o pessoal solicita minha presença e participação.

Então, após três décadas de arbitragem, você pensa em parar?

Taxa – Daqui a pouco, vou ter que parar. No campo, eu já tinha parado, mas acabei voltando para apitar algumas partidas, principalmente, no veterano. Estou com 55 anos e 106 quilos. Mesmo se tivesse mais magro, a idade não iria me dar aquele pique.

Muitos árbitros que apitam hoje são os mesmos que do começo do século. Por que é tão difícil a renovação no quadro amador?

Taxa – Hoje, ninguém quer sair de casa para ir apitar para ser xingado. Nos últimos cinco anos, surgiu apenas um árbitro, o Júnior, que inclusive se profissionalizou.

Ezequiel Neitzke: [email protected]

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