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Jornal A Hora

Vale do Taquari - Superação

Publicada em 12/08/2017

No trabalho, oportunidade para enxergar o futuro

Leonardo Seibel, o “Léo”, não enxerga do olho esquerdo desde o nascimento e sofre de uma doença degenerativa. Sabe que vai ficar cego, mas não se abala. Funcionário do Setor de Comunicação e Marketing da Univates, sonha em ser radialista.

Crédito: Carolina Chaves da Silva Acadêmico de Jornalismo, Seibel ingressou no setor de Comunicação da Univates no início deste ano
Acadêmico de Jornalismo, Seibel ingressou no setor de Comunicação da Univates no início deste ano

Alfabetizado pela irmã aos 3 anos, Leonardo Seibel, 20, aprendeu a ler. Morador de Teutônia, tinha facilidade com as letras e com a fala.

Comunicador nato, usava das capacidades para superar as dificuldades. Nasceu sem a visão no olho esquerdo. Resultado de uma doença hereditária chamada glaucoma, que mais tarde também viria a afetar o olho direito.

Nada que o impediu de seguir adiante e continuar aprendendo. Cursou os ensinos Fundamental e Médio na Escola Estadual Reynaldo Affonso Augustin, sem reprovar nenhum ano. Mas não sem ter que se esforçar para superar a doença, vencer a falta de materiais adaptados para o ensino de deficientes visuais e de empatia dos professores. “Eu nasci assim, então me acostumei. Aprendi a lidar com as situações desse jeito.”

Apesar da independência, contava com a ajuda dos pais e de alguns amigos. Companheiros que sentavam ao seu lado para ditar textos. “De certa forma prejudicou um pouco. Acabava ficando um pouco pra trás no conteúdo. Dependia de outras pessoas, e só alguns professores ajudavam”, lembra. A infraestrutura educacional era precária para um atendimento personalizado. No 2o ano do Ensino Médio, ganhou um tablet para facilitar o estudo. Isso ajudou na leitura.

Quando completou 18 anos, conseguiu uma vaga de jovem aprendiz em uma empresa local. Realizava um sonho. Viver, trabalhar, crescer, independente da deficiência. Mas nada foi como esperava.

Contratado para vaga de Pessoa com Deficiência (PCD), a experiência não foi das melhores. Passou cerca de um ano “cumprindo cotas”. Passava boa parte da carga-horária parado, sem atividades. Desanimou. Esperava mais. Havia percebido crescimento antes de começar a trabalhar e sabia que podia mais. Sem conseguir um novo emprego, Seibel passou um ano em casa. Pensava: será que será sempre assim?

Por meio de uma amiga, encaminhou um currículo para a Univates. A instituição tem programa de trabalho voltado para pessoas com deficiência. Depois de um ano, a chance bateu à sua porta.

Seibel tem 30% da visão do olho direito, e se esforça para enxergar os materiais na tela do computador. Colegas destacam a alegria dele
Seibel tem 30% da visão do olho direito, e se esforça para enxergar os materiais na tela do computador. Colegas destacam a alegria dele
Crédito: Carolina Chaves da Silva

Uma nova oportunidade

Foi chamado para a entrevista no fim de 2016. Conversou com integrantes do Setor de Recursos Humanos. Mostrou o que sabia fazer de melhor: se comunicar. Foi direcionado, em dezembro daquele ano, para o setor de Marketing e Comunicação. Três gerentes o avaliaram.

Cada um apresentou sua área – relacionamento, criação e imprensa – e Seibel se mostrou mais interessado pela última delas, que converge para o jornalismo. “Há um trabalho bem sério aqui, para encaminhar a pessoa para o local em que se sentirá melhor, que tem mais a ver com ela, com suas aptidões e gostos”, afirma Elise Bozzetto, gerente do setor de imprensa da Univates.

No caso de Seibel, foi mais fácil. Foi contratado como auxiliar de marketing e comunicação à imprensa. O trabalho de carteira assinada, para 20 horas semanais, foi o primeiro na carreira e trouxe diferentes desafios. Sem experiência na área, precisou aprender a elaborar notícias institucionais (releases) para o portal da Univates, além de atualizar as listas de e-mails.“Cheguei aqui totalmente cru. Estava meio perdido. Eram pessoas diferentes, rotinas diferentes”, relata Seibel.

Elise ajudava de várias maneiras. Avaliava como poderia facilitar o dia a dia do novo contratado. De forma didática, ensinou como deve ser feita a elaboração de um texto, repassou textos teóricos sobre produção jornalística até que ele pudesse fazer o trabalho sozinho. “Aos poucos fui pegando as manhas. À medida que eu aprendia, me adequava.”

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Esforço diário

A dificuldade na visão, que hoje já afeta 70% do olho direito, sempre foi o menor dos problemas. Seibel chegava bem perto da tela do computador para enxergar, e ampliava documentos impressos para ter mais facilidade na leitura. Nada que fosse empecilho para que, cerca de um mês depois, escrevesse o primeiro release.

Mais tarde, passou a contatar veículos de comunicação para agendar entrevistas, além de fazer contatos com fontes e elaborar textos mais complexos.

O avanço, diz Elise, tinha como resultado o acompanhamento dos colegas, mas principalmente a vontade dele em aprender. “Sempre demonstrou o quanto estava feliz com tudo isso. Mostrava interesse e se dedicava para conseguir.” Os desafios eram necessários para que o jovem fosse adiante e conquistasse cada vez mais espaço.

Hoje, depois de seis meses na Univates, ele é responsável por manter a agenda de eventos no site da universidade. “Eu acredito que todos tenham limitação. Mas nunca podemos medir uma pessoa por ela. Precisamos ver o que ela pode fazer. Precisamos conhecer suas capacidades.”

Aprender e ensinar

Quem também teve papel importante nesse processo foi o acadêmico de Jornalismo e colega de setor Artur Dullius. Antes de Seibel ser contratado, era ele quem fazia essas tarefas. Por isso, ficou encarregado de passar as técnicas ao novo contratado. “De primeiro momento foi um susto. Nunca tinha trabalhado com um PCD antes. Então, não sabia o quanto ele poderia fazer, não sabia como tratar”, lembra.

Mas logo depois de conhecer o teutoniense, Dullius percebeu que, além de ensinar, poderia aprender. O entusiasmo do aprendiz com as tarefas simples do dia a dia lhe fizeram valorizar mais o próprio trabalho. Repensar antes de reclamar. “Nós trocamos conhecimento. Eu passo questões profissionais para ele. Enquanto ele me traz um aprendizado pessoal, que levo para minha vida.”

A troca entre Seibel e Dullius não fica só no ambiente de trabalho. Dullius auxilia o colega a transitar pelo câmpus, usar o ambiente comum, em adaptação para os PCDs. Também conversam nos intervalos sobre o trabalho e as aulas.

Colegas auxiliam Seibel no trabalho. Um aprendizado para todos
Colegas auxiliam Seibel no trabalho. Um aprendizado para todos

Um novo desafio

Faz uma semana, Seibel tornou-se estudante do curso de Jornalismo. Avanço possibilitado pelo estudo, e aumento de carga-horária na instituição. No dia 1º de julho, ele foi contratado para 44 horas de trabalho, o que lhe garante 80% de desconto na mensalidade.

Desde então, pela manhã, fica na assessoria de imprensa. À tarde, é funcionário do Núcleo de Educação a Distância (Nead). No novo setor, ajuda outros PCDs a ampliarem seus conhecimentos. Faz o legendamento de vídeos para pessoas surdas. “Ainda estou conhecendo. Fazemos a interação entre alunos e professores, e tem sido bem interessante”, comenta Seibel.

Duas vezes por semana, ele frequenta aulas da graduação, e está gostando da experiência. Conhecendo os colegas e professores. Entre eles, Guilherme da Silva. Estudante de Fotografia que também trabalha com ele.

Os jovens cursam juntos a disciplina de História das Mídias. Silva pensou que a situação pudesse ser difícil para Léo, mas já no primeiro encontro houve boa interação com a turma. O professor o questionou sobre a deficiência e ele só pediu para que ampliasse a letra dos textos impressos. “Pensei que pudesse ser complicado, mas ele se integra muito bem. Brinca, ri, conversa, não teve nenhuma barreira entre nós.” Acredita que, assim como a experiência é boa para Seibel, será boa para ele e demais estudantes. “A gente trabalha muito essa questão de inclusão na Univates, mas normalmente os alunos percebem de forma diferente. Tendo uma pessoa ali, que consigamos ver a realidade, o que ela enfrenta, nos mobiliza a ter empatia, e se colocar no lugar dela, o que é bem importante.”

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De dentro para fora

Seibel agora se prepara para o futuro. A facilidade nas apresentações orais, ainda na escola, lhe fizeram almejar a possibilidade de ganhar voz por meio das ondas eletromagnéticas. Ele sonha ser radialista, e vê no trabalho atual uma porta para chegar aos microfones. Além de um caminho para um novo modo de vida, ao qual ele já vem se adaptando. Há algum tempo, ele aprendeu o básico de braile.

Pretende retomar as aulas, para que possa ler com as mãos. Ele ainda não sabe quando, mas deve perder todo o poder de enxergar com os olhos. Continuará enxergando com o coração. “O problema é a falta de informação das pessoas. Os pais acham que por seu filho ter deficiência não vai conseguir se adaptar ao mundo lá fora. Às vezes acabam se acomodando, não saindo. Eu também era assim. Mas o negócio é colocar a cara. Caiu, levanta e vai de novo.”

Lei de Cotas

A Lei nº 8.213, Lei de Cotas, estabelece que as empresas com mais de cem empregados são obrigadas a preencher entre 2% a 5% de seus quadros de funcionários com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência. Até 2015, no Brasil, havia 306 mil pessoas com deficiência empregadas formalmente. Dessas, 223 mil conseguiram emprego em função da Lei de Cotas.

Carolina Chaves da Silva: carolina@jornalahora.inf.br

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