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Jornal A Hora

Vale do Taquari - alerta nacional

Publicada em 22/09/2017

Forquetinha tem maior índice de suicídios no país

Ministério da Saúde alerta para o aumento dos casos no país

Crédito: Anderson Lopes Município com cerca de 2,5 mil habitantes, Forquetinha apresenta a maior média de mortes autoprovocadas do Brasil
Município com cerca de 2,5 mil habitantes, Forquetinha apresenta a maior média de mortes autoprovocadas do Brasil

A cada 45 minutos, uma pessoa comete suicídio no paí. Das cinco cidades com maior prevalência de atentados contra a própria vida, três estão no RS, sendo duas no Vale do Taquari. Os dados foram divulgados ontem pelo governo federal.

Ao apresentar o primeiro boletim epidemiológico nacional sobre suicídio, o Ministério da Saúde emite o alerta sobre o aumento de 12% no número de registros em quatro anos. A divulgação faz parte das ações do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção.

O ranking nacional de casos é liderado pelo município de Forquetinha. Em média, são registrados 78,7 casos a cada cem mil habitantes na cidade, bem acima da taxa de mortalidade brasileira, de 5,7 para cada cem mil.

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A cidade de Taipas, no Tocantins, aparece na segunda colocação, seguida por Travesseiro. O município do Vale do Taquari tem índice de 57 casos para cada cem mil habitantes. A quinta cidade com maior prevalência é André da Rocha, também no RS. Ao todo, 23% dos casos do país são registrados na Região Sul.

Durante a apresentação dos dados, a diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis, Fátima Marinho, afirma que os números podem ser ainda maiores, uma vez que existem casos que não são registrados, devido aos tabus em torno do tema.

Todos os anos, ocorrem em média 11 mil mortes autoprovocadas no paí. Idosos com 70 anos ou mais apresentaram as maiores taxas, com 8,9 suicídios para cada cem mil habitantes. Conforme Fátima, entre os fatores que contribuem para isso, estão a maior prevalência de doenças crônicas, depressão e abandono familiar nessa faixa etária.

O avanço dos suicídios entre jovens também preocupa o ministério. Hoje, ele é a quarta causa de morte de brasileiros entre 15 e 29 anos. O boletim ainda indica crescimento nos casos na faixa etária entre 10 e 19 anos, que passaram de 782 em 2011 para 893 em 2015.

Sinais de alerta

O Ministério da Saúde também enumerou os principais fatores de risco para o suicídio. Entre eles, estão transtornos mentais como depressão, alcoolismo e esquizofrenia, questões sociodemográficas, como isolamento social, e psicológicas, como perdas recentes.

Condições de saúde incapacitantes, como lesões que desfiguram o paciente, dor crônica e neoplasias malignas também são sinais de alerta. De acordo com o ministério, nenhum desses aspectos podem ser considerados de forma isolada, e cada caso deve ser tratado de forma individual.

O estudo mostra que a proporção de óbitos por suicídio foi maior entre as pessoas que não têm um relacionamento conjugal. Do total de mortes, 60,4% eram de pessoas solteiras, viúvas ou divorciadas, contra 31,5% de casadas ou em união estável.

Conforme Fátima, ao mesmo tempo em que o casamento se torna um fator de proteção para o homem, no caso das mulheres, os índices de suicídio aumentam devido à violência doméstica. Das 48.204 pessoas que tentaram tirar a própria vida entre 2011 e 2016, 69% era mulheres e 31% homens.

Por outro lado, a taxa de mortalidade por suicídio dos homens é quatro vezes maior, com uma média de 8,7 casos para cada cem mil habitantes. No caso das mulheres, são registrados 2,4 óbitos para cada cem mil pessoas.

Entrevista

“O suicídio não é sobre uma causa só.”

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Psicóloga responsável pelo atendimento em Forquetinha, Angélica Renner se aprofunda no tema e trabalha ações para prevenção no município.

Quais as estratégias adotadas pelo município para prevenir o suicídio?

Angélica Renner – Essa é uma das nossas grandes preocupações e temos buscado várias ações nesse sentido. O município contratou um psiquiatra que atua durante dez horas por semana, e também tem uma psicóloga por 40 horas. Trabalhamos com grupos de oficinas terapêuticas. Hoje (quinta-feira), o suicídio é o tema da conversa do grupo. Também realizamos palestras e oficinas sobre o tema, a próxima ocorre já na próxima semana. Sempre avaliamos novas iniciativas para prevenção. Em novembro, sediaremos o encontro sobre saúde mental.

Como o profissional deve trabalhar com esse tema no ambiente familiar?

Angélica – No momento em que ocorre um suicídio na família, o sentimento que permanece é muito ruim. Vai desde raiva da pessoa que cometeu, passando pela tentativa de entender os porquês até o sentimento de culpa por não ter percebido os sinais do problema. Não é um assunto fácil, mas é necessário se discutir. Tenho participado de várias qualificações e busco estudar muito para entender o assunto, pois ele representa muito do do meu dia a dia.

Os pensamentos suicidas são comuns nos atendimentos cotidianos?

Angélica – A ideação do suicídio aparece muito nas consultas. Temos que avaliar o paciente para saber se é apenas um pensamento, se ele já tem um plano, ou mesmo já tenha tentado. O que assusta é que não só o de adultos, mas também o número de jovens que atentam contra a própria vida tem aumentado no mundo todo.

Existe uma causa específica para essa realidade?

Angélica – O suicídio não é sobre uma causa só. Não ocorre de alguém atentar contra a própria vida porque perdeu um emprego. São múltiplos fatores, e existe uma questão genética muito importante. Numa cadeia familiar, quando investigamos uma pessoa que tentou o suicídio, é comum que o pai, o avô ou a avó também tenham tentado. Fatores como depressão e abuso de álcool também contribuem, mas nem todos os depressivos pensam em tirar a própria vida. Então, a família precisa prestar atenção e entender que a pessoa está doente. Ao perceber algum sinal, é fundamental procurar ajuda na unidade básica de saúde.

Thiago Maurique: [email protected]

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