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Jornal A Hora

Ideias

Publicada em 17/03/2017

Memórias XII – Bolsonaro na Univates?

Há alguns dias, alguém sugeriu Jair Bolsonaro como palestrante no centro universitário local em uma página nas redes sociais denominada Spotted Univates. A população LGBT acabou se envolvendo e sendo envolvida.

Certo David, revidando pessoas contrárias à sugestão, digitou: “os mortadelas […] querem é palestra sobre maconha, LGBT e miçanga.” Um tal de Ricciardo foi adiante e replicou o comentário – de um suposto homossexual – escrevendo: “Vai passar AIDS para alguém ao invés de ficar no Facebook. Abrir a cabeça com coisas novas, [por] exemplo [, com] uma lâmpada fluorescente.” Provavelmente, fez referência a caso ocorrido em 2010, em São Paulo, quando gays foram agredidos com lâmpadas fluorescentes. Considerando a segunda colocação néscia, deixo-a de lado para retomar a primeira e, a partir dessa, fazer alguns apontamentos sobre o imaginado elo natural entre minorias e esquerda.

Historicamente, alguns socialistas lidaram bem com as relações entre pessoas do mesmo sexo. Charles Fourier, antecessor de Marx, aceitava essas paixões como parte da sexualidade humana. Magnus Hirschfeld advogou ferrenhamente a favor da descriminalização da homossexualidade na Alemanha (onde vigia o Parágrafo 175).

Mas as principais lideranças – Marx, Engels, Stalin, Che Guevara, Fidel Castro – eram o que hoje denominamos de indivíduos homofóbicos (o termo “homofobia” foi usado somente na segunda metade do século passado). É preciso ponderar sobre o contexto histórico no qual viveram esses homens? Sim, mas se pensarmos em Fourier, anterior a Marx, e Hirschfeld, contemporâneo a ele, fica demonstrado ter havido quem pensasse diferente naquele tempo.

Não podemos, então, atribuir somente à época as ideias discriminatórias. Não é uma boa desculpa. Pontuada a posição de alguns nomes significativos, é imprescindível entender que as mudanças foram acontecendo de forma peculiar, dependendo do lugar.

No Brasil, até muito recentemente, a esquerda não se interessava em engrossar as fileiras com homossexuais. Talvez o Programa Brasil Sem Homofobia, lançado em 2004, durante o governo Lula, seja um dos marcos do diálogo efetivo com a minoria LGBT. A estratégia envolveu principalmente as áreas da saúde e educação e alcançou todos os cantos do país. Sou testemunha do processo.

No Vale do Taquari, eu trabalhava na Secretaria da Saúde de Estrela, quando o programa aportou com cartazes, material educativo e metas de acolhimento/humanização em relação aos grupos vulneráveis.

Tendo como incentivadora a coordenadora do Serviço de Assistência Especializada em DST, HIV e Aids, Maria de Lourdes Wermann, participei de diversas qualificações sobre diversidade sexual e políticas públicas em cidades como Florianópolis, Goiânia, Novo Hamburgo e Porto Alegre.

Simultaneamente, organizamos uma série de conversas/palestras para profissionais de saúde do município e para turmas de técnico em Enfermagem da Univates, nas quais fui palestrante. Tentamos diálogo com profissionais da educação, em Estrela, em 2006, mas o coordenador da pasta se mostrou contrário, levando-nos a desistir da área depois de um encontro desastroso.

Voltando à disputa entre coxinhas e mortadelas. Os primeiros não estão errados, quando o fazem (e sempre o fazem), ao denunciarem o preconceito comunista-marxista-socialista nos tempos idos. Mas estão equivocados em não admitir que, no nosso país, vieram dessa “ala” os primeiros sinais para unir forças de movimentos sociais e Estado visando reconhecimento de cidadania. A esquerda aprendeu, embora remanesçam conservadores entre seus partidários.

Do outro lado, boa parte da direita não despreza (mais) a relevância das organizações sociais. Mas não é esse o caso de Bolsonaro e seu grande séquito. Cabe, portanto, à direita assumir sua realidade e lidar com isso (se é que não a aprova).

Jandiro Adriano Koch
Estudante de História da Univates
jandirokoch@gmail.com

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