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Jornal A Hora

AO MESTRE COM CARINHO

Publicada em 28/07/2018

Em primeiro lugar, deve-se respeitar o professor

Claudia Costin enaltece o poder e a relevância do professores sobre os alunos e convoca a sociedade a se engajar mais na educação. Insiste e defende a criação de políticas públicas mais aprofundadas e consistentes, a modo de melhorar os índices de ensino e aprendizado no país

Crédito: Divulgação CLAUDIA COSTIN

A professora universitária e gestora pública paulista, Cláudia Costin, já foi ministra da Administração e Reforma no governo Fernando Henrique Cardoso. Além disso, ocupou o cargo de secretária de Cultura do Estado de São Paulo durante a primeira gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), entre 2003 e 2005, e de secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro, de 2009 a 2014. Nesse período, as notas das escolas municipais no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica subiram 22%.

Em 2014, assumiu o cargo de diretora global de Educação do Banco Mundial. Dois anos depois, ela foi convidada para lecionar em Harvard, onde deu aulas para candidatos ao mestrado sobre o Banco Mundial e sobre a reforma educacional no Rio de Janeiro e em outras cidades. Em pesquisas sobre educação, Cláudia já visitou dezenas de países em busca de modelos ideais de ensino.

Em recente artigo publicado, você afirma que a preparação profissional de um professor é tão ou mais importante que a de um neurocirurgião. Por quê?

Claudia Costin • Na formação médica, desde o primeiro ano de faculdade, alunos têm que assistir a operações médicas e, em seguida, à medida em que vão avançando, assumem parte de cirurgias acompanhados por médicos veteranos. Isso me fez refletir que, no caso da formação do professor, isso não é aplicado, pelo menos em boa parte das faculdades de Educação. Ora, formar um professor é formar um profissional. Ninguém pensa em formar um médico dando apenas um curso de História da Medicina, Sociologia da Medicina sem trabalhar com seriedade a parte prática desde o início da faculdade. Assim como um neurocirurgião pode salvar uma vida imediatamente, ele pode causar um dano irreversível, um professor desenvolve todo potencial de uma criança ou de um jovem. Mas isso ocorre ao longo dos anos. O fato de não ser de imediato faz com que a sociedade não valorize adequadamente o professor.

O professor deve ser contratado para trabalhar 40 horas, como qualquer outro profissional e, de preferência, que atue em uma única escola.”

Quais a s principais carências na formação de um professor, em especial na rede pública?

Claudia • A formação enfatiza excessivamente os fundamentos da educação e muito pouco a prática e a didática de cada área. Por exemplo, dar aulas de Educação Física e História não é a mesma didática. Isso não é ensinar. Em tempos de inclusão na escola, é muito importante incluir também os futuros professores. Infelizmente, eles não são preparados para perceber que educação é um trabalho de equipe. O que um professor das séries iniciais ensina é fundamental para o que outro professor numa série adiante vai ensinar. Não adianta termos um professor excelente. Precisamos de uma equipe escolar excelente. Além disso, a lei que estabelece que 1/3 do tempo do professor é para preparação de aula não orienta como isso deve ser aplicado. O ideal é que isso seja feito dentro da escola, e não fora. E, para finalizar, o professor deve ser contratado para trabalhar 40 horas, como qualquer outro profissional e, de preferência, que atue em uma única escola.

Diante dessa negligência na formação profissional dos professores, qual o impacto que isso provoca na sociedade?

Claudia • No último Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb), fomos reprovados com 3,4 em nosso Ensino Médio. Isso é resultado dos déficits de aprendizagem que vão se acumulando nas etapas anteriores. Fato que isso decorre de uma sociedade que não valoriza o bom professor. No momento em que consideramos que contratar um professor para 16 horas a partir de um concurso público sem avaliarmos sua prática, estamos errando na seleção profissional. Para professores universitários, por exemplo, há prova didática além da prova escrita. Mas agora, para contratar professores que vão ensinar crianças e adolescentes a gente aceita uma prova escrita de múltipla escolha. Além dos salários serem baixos, a gente recruta mal. Isso acaba impactando no desenvolvimento de habilidades e competências do direito de aprender do aluno, que dessa maneira se torna despreparado não só para o mercado de trabalho, mas em sua cidadania e a vida como um todo. Porque acaba não se tornando uma pessoa autônoma capaz de escolher e discernir suas fontes de leitura, o poder de empreender e o gosto cultural.

Com seus celulares, os alunos, hoje, têm acesso a muita informação, mas eles não têm competência de discernir e avaliar o que, de fato, é construtivo.”

Fala-se muito, nos últimos anos, sobre a necessidade de o professor estar preparado para lidar com os diferentes tipos e características de alunos. Inclusive, ter sensibilidade e habilidade em lidar com questões emocionais dos estudantes. Os professores estão preparados para este novo momento?

Claudia • Têm professores que, embora não tenham trabalhado essas questões na faculdade, nos surpreendem positivamente em relação a isso. Porém ajudaria muito se o curso que ele recebe e a formação continuada em serviço tematizasse as competências socioemocionais, também chamadas de “habilidades do século 21”. Trata-se da empatia e, mais do que isso, de nos tornarmos mais humanos com os alunos. No entanto, não adianta dar aula de empatia para os alunos se, durante a formação e a profissão, o professor não teve a capacidade de desenvolver essa competência. Se um professor ridiculariza um aluno, por exemplo, ele está ensinando aos demais a não serem empáticos. Precisamos incorporar isso no processo de ensino conforme a disciplina.

Igualmente, você percebe os professores e as escolas devidamente atualizadas e preparadas para lidar com os impactos provocados pela era tecnológica e o acesso ao conteúdo facilitado pela internet? Qual o papel do professor diante disso?

Claudia • Com seus celulares, os alunos, hoje, têm acesso a muita informação, mas eles não têm competência de discernir e avaliar o que, de fato, é construtivo. Mas o professor tem o repertório cultural que permite que o aluno coloque essa informação em contexto. Cabe ao professor organizar a aula de uma maneira muito diferente do que é hoje, muito menos ser um mero fornecedor de aulas, como se fossem palestras, e trilhar mais o ensino desse aluno em grupo colaborativo. Pesquisar coisas que interessem os alunos e desenvolver isso para o século 21. Assim, o professor conseguirá ensinar esse aluno com as grandes questões do planeta, seja a sustentabilidade e os desafios que ele tem no seu bairro, por exemplo, no objetivo de integrar diferentes disciplinas com esses saberes para solucionar problemas.

Cabe ao professororganizar a aula de uma maneira muito diferente do que é hoje, […] como se fossem palestras, e trilhar mais o ensino deste aluno em grupo colaborativo.”

Estamos em ano eleitoral. Já ouvimos, novamente, discursos em que a educação é tratada como prioridade. Infelizmente, os governos não têm passado da retórica e, na maioria das vezes, insistem no “mais do mesmo” na educação. Aqui no estado, a situação é ainda mais dramática porque tem uma defasagem no salário, e pior, sequer é pago em dia. Que impacto isso tem sobre o professor e, por consequência, sobre o ensino?

Claudia • Em primeiro lugar, deve-se respeitar o professor. E respeitar professor é pagar salário em dia. É o mínimo. Entendo que o RS vive uma crise fiscal enorme que foi causada ao longo dos anos por algumas abordagens demagógicas, porque se as medidas fiscais cabíveis fossem adotadas o problema não teria se acumulado desse jeito. Por outro lado, isso não deveria ser descontado no professor, que é um profissional que tem problemas gravíssimos nas suas práticas e nos seus desafios.

Além dessas questões de pagar salários em dia e não parcelado, há outras questões importantes.

O que é prioritário na educação?

Claudia • Precisamos observar até que ponto os direitos de aprendizagem da criança estão sendo priorizados. Educação não é só garantir que crianças e adolescentes estejam nas escolas, mas que estejam, de fato, aprendendo, sabendo interpretar, ter raciocínio matemático, desenvolver uma mente investigativa, que é a base para todas as ciências, e ter competência para transitar no século 21 com um repertório cultural.

Claudia Costin foi contratada pelo governo de Lajeado e auxiliou na reformulação do modelo de ensino municipal
Claudia Costin foi contratada pelo governo de Lajeado e auxiliou na reformulação do modelo de ensino municipal

No seu ponto de vista, qual seria o modelo de ensino ou de escola ideal? 

Claudia • Para isso, é preciso valorizar e profissionalizar mais nossos professores, para que voltem a ter o respeito devido da sociedade, para que voltem a ser tratados como profissionais de respeito.

Como e o que fazer para, de fato, conseguirmos resgatar a motivação, a autoestima e o entusiasmo dos professores? E qual o papel da sociedade nesse tocante?

Claudia • Em primeiro lugar, o governo deveria colocar a educação no lugar mais importante da agenda. Olhar para essa questão como prioridade. É isso que os estadistas fazem. Os professores precisam ensinar de um jeito que todos aprendam. Não adianta só reprovar ou passar um aluno que aprendeu pouco para uma série adiante.

Em primeiro lugar, deve-se respeitar o professor. E respeitar professor é pagar salário em dia. É o mínimo.”

Qual a relação entre família e escola/professor?

Claudia • Lógico que a educação deve começar na família e que a família deveria trabalhar em parceria com a escola. Mas isso é fácil na classe média, onde há uma organização sólida para trabalhar e acompanhar o que o aluno aprende na escola. Porém há famílias em meios vulneráveis ou que não têm como estar presente no cotidiano da escola. Nesses casos, é papel da escola, naturalmente apoiada por outras políticas públicas, trabalhar com essas crianças a partir de onde ela chega. Fomos um dos últimos países a universalizar o acesso à educação básica no Ensino Fundamental. Todos têm direito a aprender. As equipes de professores têm que estar preparadas a lidar com essas crianças. Por isso, precisamos qualificar mais nossos profissionais. Estamos dando tarefa demais para escola? Ora esta é a realidade do país. O marinheiro não reclama do mar. Ser professor é um labor complexo.

O PENSE coloca o professor no topo da pirâmide. O destaca como protagonista e tenta resgatar seu valor e relevância para a evolução e o desenvolvimento do indivíduo. Para você, qual é a melhor maneira de valorizar os professores?

Claudia • É tratá-los como profissionais e parar o discurso de vitimização do professor. O professor não pode cair nessa armadilha. Como adulto, escolheu uma profissão e deve lutar por melhores condições de trabalho. Cabe aos governos dar esse suporte e condições para que essas equipes de professores atuem colaborativamente nas escolas.

Os professores precisam ensinar de um jeito que todos aprendam. Não adianta só reprovar ou passar um aluno que aprendeu pouco para uma série adiante.”

Analisando o momento político e econômico, com uma visível crise de identidade no país, com a democracia definitivamente ameaçada, qual o risco que corremos enquanto nação e onde entra o ensino e a educação nesse contexto?

Claudia • A escola é um espaço de ensinar valores e atitudes. Alguns valores importantes, como o fato de cada criança e adolescente ser portador de um sonho, têm de ser construídos de forma conjunta pela escola. É preciso reservar tempo e espaço, também, para o protagonismo do aluno. Se a escola ensinar valores como esse, se nós resolvermos a crise de valores que vivemos hoje, a futura geração saberá construir uma sociedade melhor.

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