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Jornal A Hora

PENSE - inserção digital

Publicada em 28/07/2018

Entre os livros e os tablets

Imersão tecnológica desafia escolas e exige novo modelo de educação. O avanço da tecnologia traz como consequência mudanças no comportamento de alunos e dos professores. Em um mundo onde quase todas as informações estão disponíveis na palma da mão, o papel das instituições, dos docentes, dos pais e dos alunos precisa ser rediscutido. Iniciativas nas redes pública e privada tentam aproximar as escolas da era digital, sem deixar de lado espaços onde a tecnologia é dispensável.

Crédito: Thiago Maurique Além de oferecer aulas
com tablets e outras ferramentas desde os anos iniciais, escolas
também preservam momentos
em que a tecnologia não
é utilizada para desenvolver
outras aptidões.
Além de oferecer aulas com tablets e outras ferramentas desde os anos iniciais, escolas também preservam momentos em que a tecnologia não é utilizada para desenvolver outras aptidões.

Escolas buscam equilíbrar uso digital

Gestores das redes pública e privada tentam se adaptar a uma sociedade cada vez mais digitalizada e enfrentam resistências para assegurar a inserção da tecnologia digital no ensino cotidiano.

O avanço da tecnologia e a consequente mudança no comportamento de alunos e professores representa um desafio para o sistema de ensino. Em um mundo onde praticamente todas as informações estão disponíveis na palma da mão, o papel das instituições, dos professores, pais e alunos passa por mudanças ainda difíceis de compreender.

As salas de aulas e a sistemática de ensino continuam praticamente inalteradas enquanto a sociedade evolui em passos largos rumo à digitalização. Atrasadas em relação ao cotidiano dos estudantes, as escolas deixam de atrair a atenção dos jovens.

Sem referências, alunos acabam à mercê de influenciadores digitais e ficam mais propensos a acreditar em informações falsas, desacreditando anos de estudos dos profissionais da educação. Diante desse cenário, gestores das redes pública e privada tentam se adaptar aos novos tempos e começam a enfrentar as resistências contra a inserção da tecnologia digital no ensino.

No Colégio Gustavo Adolfo, em Lajeado, processo iniciado em 2012 se tornou exemplo de digitalização nas escolas. De acordo com o diretor Edson Wiethölter, sem investir em tecnologia, a escola acaba ficando atrás do contexto da sociedade.

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“Hoje todo o ensino está se voltando para o desenvolvimento de capacidades, habilidades e competência, onde o conteúdo é o meio”, aponta. Dessa forma, alega, o professor deixa de ser o tutor do conhecimento para se tornar um interlocutor, voltado a desenvolver nos alunos a competência para fazer uso das informações que estão disponíveis e abertas para todos.

“Biblioteca não é mais lugar de pesquisa, é um espaço literário e as enciclopédias só se justificam no museu para contar histórias”, sentencia. A quebra de paradigmas exigiu mudanças em todos os setores e na forma de pensar da instituição.

Segundo Wiethölter, o processo começou com um forte trabalho de pesquisa, buscando cases nacionais que pudessem servir de referência. Em seguida, os professores passaram por formação específica na Univates. “Eles fizeram um estudo de caso da escola e nos deram um projeto do que deveria ter de estrutura física para ampararmos as questões pedagógicas.”

Dessa forma, concluíram que a tecnologia precisa ser um meio para diminuir caminhos, um facilitador no processo de ensino e aprendizagem. “Temos que ainda ser detentores do que produzimos, e não fazer por fazer.”

Diretor do Colégio Evangélico Alberto Torres (Ceat), Rodrigo Ulrich acredita que a sociedade precisa pensar o quanto a tecnologia contribuiu no desenvolvimento, seja em avanços na saúde, na qualidade de vida e igualmente no ensino. “A educação faz uso disso nos seus processos, seja em comunicação, gestão e no aspecto de ensino e aprendizagem.”

Lembra que antes dessa nova era mais digital houve outras tecnologias também impactantes. “Precisamos saber discernir entre o que de fato contribui e o que pode inclusive prejudicar o aprendizado.”

Como exemplo, cita a área da matemática, em que softwares ajudam os alunos a ver como evoluem gráficos de funções em terceira dimensão, algo difícil de enxergar sem a tecnologia. “Existem coisas muito boas, por outro lado, observamos muito modismo. Não podemos pensar que agora tudo é tecnologia, internet ou tablet.”

Para Ulrich, o objeto da tecnologia deve ser o meio e não o fim da educação ou da sociedade como um todo. Segundo ele, o encantamento com as ferramentas é compreensível na geração adulta, pois para a maioria dos adultos a construção desse universo digital remete a algo complexo. “Precisamos ter o cuidado com o encantamento para fundamentar mais as nossas decisões.”

Conforme o diretor, é preciso estar atento aos gostos dos alunos e ao prazer que eles sentem ao utilizar determinadas ferramentas, mas na dose certa. “Se corrermos atrás apenas da satisfação do prazer e do gostar, vamos criar um modelo que não prepara para a vida, pois todos nós sabemos que a vida não é feita apenas de prazeres.”

Experiências práticas

No Ceat, recentemente foram iniciadas experiências com simulados on-line. Depois de muito estudo, diz o diretor, os alunos começam a fazer algumas provas pela internet. “Mas é uma experiência, sem deixar o papel e os simulados impressos de lados.”

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Segundo ele, essas iniciativas precisam estar diretamente ligadas ao aprendizado dos alunos. “Procuramos ter excelentes experiências onde essas novas ferramentas digitais colaboram para a construção do conhecimento do aluno, mas, quase que num paradoxo, iniciativas como a escola de refletir sobre o uso de tecnologia e até evitar em alguns momentos.”

No caso do celular, o colégio exige que ele fique desligado ou silencioso e dentro da mochila nas salas de aula. Em algumas situações, os professores solicitam que os alunos usem o aparelho ou o tablet da escola. “São situações específicas e autorizadas pelo professor.”

No Gustavo Adolfo, as crianças até o 5o ano têm contato com a tecnologia por meio de aulas semanais em tablets. De acordo com Wiethölter, todas as salas têm televisores de LCDs. “O professor pode viajar para qualquer lugar do mundo em qualquer momento de dentro da sala de aula.”

Para diretor, se o universo tecnológico for usado pela escola, temos uma boa chance de promover o bom uso desses espaços e de criticar o que não é proveitoso. “Se isso não for provocado pela escola, corremos o risco do futuro adulto usá-lo sem uma consciência tão clara.”

A partir do 6o ano, afirma, a escola insere os livros digitais no ensino. O estudante recebe uma senha para baixar obras na nuvem digital e pode usar o material onde quiser, ressalta. “É uma ferramenta que agrega, pois não pesa tanto na mochila, acessa vídeos e links impossíveis para o livro físico.”

Celulares só são usados a partir do 6o ano e com a permissão do professor e cada aluno recebe um cartão com chip que são usados para controle de acesso ao colégio, retirada de livros na biblioteca e de bolas durante o recreio.

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“Não temos mais caderno de chamada físico, que é feita diretamente pelo no sistema”, afirma. Para o diretor, dessa forma, se ganha tempo e velocidade em um processo que antes era feito em um caderno e depois passado para a planilha dos boletins.

“A vida tecnológica é uma realidade que não temos como fugir”, aponta. De acordo com Wiethölter, há dez anos o colégio contratava um profissional de Porto Alegre que uma vez por mês olhava os computadores. Hoje o responsável de TI é um profissional de alto padrão, funcionário da escola.

Outro colégio privado de Lajeado, o Madre Bárbara, dispõe de tablets e notebooks utilizados em projetos e atividades na sala de aula. Um dos trabalhos dos anos finais do Ensino Fundamental tem como ferramenta de apoio aos estudos o site da professora de Ciências Andréia Wenzel, no qual encontram avisos, conteúdos, links para sites e vídeos relacionados à matéria.

Na sala de aula, os smartphones são usados para pesquisa se autorizados pelos professores. Outro projeto da escola é o Mostra Científico-Pedagógica, no qual os alunos utilizam as tecnologias na sala de aula para pesquisa, elaboração e apresentação do projeto.

A partir deste semestre está sendo inserido um projeto de aulas extracurriculares de programação chamado SuperGeeks. A proposta é ensinar Ciência da Computação de forma divertida, fazendo os alunos pensarem de forma criativa, desenvolverem o raciocínio sistêmico e trabalharem de forma colaborativa.

Desafio na rede pública

Coordenadora da 3ª CRE, Greyce Weschenfelder afirma que a rede estadual realiza iniciativas para se inserir nesse cenário porque a própria sociedade percebe essa necessidade. Segundo ela, os resultados não são obtidos com os mesmos métodos utilizados 20 anos atrás.

“Vemos aumento no índices de evasão, alunos desinteressados e agressivos e os números das provas externas não correspondem à nossa capacidade”, ressalta. Lembra que basta simplesmente colocar a tecnologia nas escolas.

“A infraestrutura existe faz algum tempo. Temos professores com tablets, escolas com lousas digitais e o próprio aluno com celulares de última geração”, aponta. Segundo ela, desde 2008, as 89 escolas da rede estadual recebem investimentos na área da tecnologia para a compra de equipamentos e formação dos professores.

Lembra que ainda existem dificuldades em relação à infraestrutura de internet, como em qualquer instituição com muitas conexões ao mesmo tempo, mas garante que serão solucionadas.

Ceat

“Temos o programa Educação Conectada, onde cada aluno terá 100kbps de velocidade. A escola terá verba federal em parceria com o RS para contratar o melhor serviço”, relata. O primeiro pacote a ser licitado incluirá 11 escolas de Lajeado.

Segundo ela, o grande desafio é engajar os professores nessa inserção digital. “Desde 2015 temos oficina da lousa digital, curso de Google, de uso do Power Point na edição de jogos e vídeos. Apostamos na formação.”

Um dos programas de sucesso, alega, é o de introdução da robótica nos anos iniciais, no qual a equipe da CRE vai até as escolas para ajudar nos trabalhos. “Temos profissionais que cuidam somente dessa inserção tecnológica nas escolas.”

Por outro lado, alega que a resistência de parte dos professores também é uma realidade. “Tem lousas digitais que sequer são usadas. Todas as escolas receberam formação para a área digital. Mas meu professor vai lá, se forma e, no outro dia, nada acontece.”

Procuramos ter experiências onde essas novas ferramentas digitais colaboram para a construção do conhecimento do aluno, mas, quase que num paradoxo, iniciativas como a escola de refletir sobre o uso de tecnologia e até evitar em alguns momentos.”
Rodrigo Ulrich, diretor do Ceat

Para Greicy, por mais que seja difícil para um profissional mudar um modelo ao qual se acostumou, uma vez que a tecnologia é utilizada, a aula se transforma e fica mais atrativa. “Não vamos desistir e o primeiro passo é a insistência. O segundo é a ajuda dos profissionais que estão engajados nessa mudança.”

A coordenadora ressalta, porém, que a tecnologia não pode ser utilizada em todos os momentos. Segundo ela, os alunos ainda precisam de momentos em que vão apenas escrever e ouvir as explicações orais dos professores. “Tem que haver essa miscelânea, porque a aprendizagem é dinâmica.”

Lembra que todo esse processo precisa estar relacionado com os alunos. Alguns, aponta, aprendem melhor no quadro, outros olhando o Power Point ou pesquisando no tablet. “O que a tecnologia vai me permitir é acesso à informação.”

Para ela, o que nunca vai terminar é a mediação do professor para que essa informação seja apropriada pelo aluno e dessa forma se transforme em conhecimento.

Relação professor x tecnologia

Para o diretor do Gustavo Adolfo, o momento de implementação de um novo sistema sempre encontra resistência, e quem resiste à mudança são os adultos. No caso do colégio, ressalta que houve dificuldades por parte dos profissionais, acentuadas ou não. “Nós também não obrigamos a usar determinada técnica, isso está por conta do professor. A exceção é a chamada on-line”, ressalta.

Para Wiethölder, o fundamental é não iniciar pela implantação de um novo sistema, mas sim pela formação, para que as pessoas se sintam parte do processo. “Percebemos que o profissional que entrou após a implantação se adaptou muito mais fácil, porque ele pega uma estrutura pronta”, aponta. Hoje, ressalta, a escola tem um passo a passo de como funciona o sistema, o que se deve fazer e como.

Os novos professores também têm o suporte de todos os que já estão ambientados no sistema. “Temos que salientar que essas instâncias tecnológicas precisam vir para melhorar.”

Conforme o diretor do Ceat, a primeira palavra desse processo de transformação digital com os professores é respeito. “Qualquer mudança precisa disso, pois temos profissionais de longa data, com muita experiência e fazendo excelentes trabalhos que estão dando certo.”

Nós não obrigamos a usar determinada técnica, isso está por conta do professor. A exceção é a chamada on-line. Percebemos que o profissional que entrou após a implantação (do sistema digital) se adaptou muito mais fácil, porque ele pega uma estrutura pronta.”
Edson Wietholder, diretor do Gustavo Adolfo

Segundo ele, encaminhar algum processo de experiência nova pressupõe compreender o contexto e, tendo isso claro, estudar.” Não adianta um coordenador, diretor ou professor mais ligado nessa área não entender que o outro não está tão encantado com isso.”

O exemplo, aponta, são os tablets, usados em todos os níveis do colégio. Conforme Ulrich, alguns professores usam e outros nem chegaram perto, mas isso não representa problemas. O mesmo ocorre nos simulados on-line.

Nesse caso, um dos outros desafios é também da ética como aluno, ressalta. “Como vou considerar isso no processo avaliativo se ele fará isso em casa? Ele pode consultar em uma ou outra página ou mesmo pedir ajuda. Assim como também pode consultar o caderno.”

Para o diretor, de nada adiana fazer esse processo de digitalização se o aluno não se convencer que terão momentos em que não pode pedir ajuda ou pesquisar no Google. “Ele também precisa se testar e isso exige um amadurecimento.”

A Rede ICM, da qual o Madre Bárbara faz parte, oferece curso sobre educação digital para os docentes. Chamado Educação para a cidadania em contextos híbridos, multimodais, pervasivos e ubíquos: novas configurações de tempos e espaços escolares, consiste em encontros presenciais e a distância com vídeoconferências, leituras, avaliações e outras atividades.

Trabalho emocional

Ulrich defende a atenção às questões éticas e emocionais no ambiente escolar. Segundo ele, há uma premissa de que a escola é o balizador e o exemplo para a sociedade. “Temos procurado conceber um trabalho valorizado e um olhar para o cidadão.”

De acordo com o diretor, valorizar um conteúdo mais duro também é humano e ajuda a preparar o aluno para a vida. “Precisamos ter a atenção de não fomentar o paradoxo entre o que é humano e o que não é.”

Ele destaca os movimentos nacionais voltados para políticas públicas que elevam as competências socioemocionais na educação, como a nova base curricular comum. “O Brasil agora está falando disso por perceber que é uma demanda, mas para nós não chega a ser uma novidade.”

Lembra que o Ceat tem um trabalho na área das artes que parte da percepção de que ela contribui para o desenvolvimento humano, e o mesmo ocorre na esfera esportiva. “O colégio sempre apostou nisso e a gente percebe o quanto contribui. Aquele aluno que tem uma ou outra dificuldade e começa a fazer atletismo, basquete, vólei, futebol ou outras atividades, tem resultados positivos.”

Outras iniciativas nesse sentido são o trabalho com orientação educacional e as aulas de Ensino Religioso e Relações Humanas. “Na Educação Infantil, o ponto-chave são essas competências e a socialização dessa criança.”

Para Wiethölter, a tecnologia ajudou a acelerar a sociedade, e o ser humano não está preparado para isso. “Me arrisco a dizer de que essa paranoia social da velocidade, a intolerância do trânsito não é resultado da velocidade da comunicação no intelecto das pessoas.”

Segundo ele, hoje a escola caminha para a área humana com muita força. Assim como um responsável pela TI, o colégio tem também uma psicopedagoga em tempo integral que trabalha somente com a parte emocional, sejam nos conflitos, nos problemas de família ou na relação família e escola.

“Nossa escola também tem uma psicóloga só para os colaboradores, algo que também é novo, remete há dez anos atrás”, aponta. Tudo isso está voltado para desenvolver a clareza do papel de cada um na sociedade.

“As dificuldade existem e hoje enfrentamos mais crises sociais do que econômicas”, acredita.

De acordo com Greicy, as escolas abrangidas pela 3ª CRE estão engajadas em um projeto em parceria com o Ministério Público voltado para o uso digital ético. O programa incluiu formação em Encantado e um grande evento de mostra de trabalhos feitos pelos alunos sobre o uso ético da tecnologia no município de Relvado, com a participação de todas escolas.

“Existem as fakes, a pornografia e jogos como o da Baleia Azul que se disseminam por meio da tecnologia. O mundo digital não é um mar de rosas”, aponta. Por isso, diz, as escolas da rede estadual não abrem mão do contato olho no olho, da aula e da relação entre aluno e professor.

Ping pong Leandro Souza

Entrevista

“A tecnologia não precisa ser usada em tudo”

Mestre em Ciência e Gestão da Tecnologia da Informação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Leandro Henrique de Souza atua faz mais de dez anos em gestão educacional. É professor de inovação e novos modelos de negócios, consultor e palestrante em eventos em todo o país.

As escolas estão preparadas para o mundo digital?

Leandro Souza – Muitas escolas estão preocupadas com a situação, mas não sabem muito bem o que fazer. De um lado, você tem a gestão escolar ciente da necessidade de trazer a tecnologia para melhorar resultados, a gestão e a sala de aula ou mesmo como uma questão de marketing, de outro, temos professores muito resistentes, porque é uma quebra de paradigma muito grande. Viemos daquele paradigma em que o professor é o mestre que ensina e os alunos escutam e aprendem. Muitos hoje se sentem constrangidos porque, pela primeira vez, o aluno tem mais conhecimento técnico do que ele algumas vezes e em relação a algumas coisas. Na minha opinião, os professores deveriam usar isso a seu favor, como uma forma de engajar os alunos e facilitar coisas maiores. Existe uma resistência dos pais também. Pensam que a criança não está aprendendo por usar Ipad, tablet, computador. A cada ano, os próprios alunos deixam de conectar a tecnologia com a educação. Com o passar do tempo, eles mesmos acham que a tecnologia não pode ser utilizada para isso. A gestão escolar acaba tendo dificuldade em trazer essa transformação digital, seja por investimento ou não saber como usar a tecnologia em sua total capacidade.

Os aparelhos tecnológicos podem ser ferramentas de construção de conhecimento?

Souza – A tecnologia pode e deve ser. Vai ajudar a escalar a educação e trazer mais inteligência para o processo. Não tem que separar o que é tecnologia porque tudo que usamos é tecnologia. Lápis e borracha também é. O que precisamos entender é onde a tecnologia digital pode ser usada com mais força e onde ela não precisa ser usada. Porque ela não precisa ser usada em absolutamente tudo. Ela pode ajudar em alguns elementos. Conforme não usamos e fazemos essa separação, cria-se a cultura do não uso da tecnologia nos alunos. Isso é ruim. Se hoje temos um poder computacional imenso em mãos, por que não usar na hora certa e no lugar certo?

É importante preservar momentos de não uso de tecnologia digital e promover outros tipos de vivência?

Souza – Sem dúvida. A tecnologia pode ajudar a reduzir alguns custos, escalar algumas coisas e personalizar o ensino. Em uma sala com 30 alunos, cada um tem o seu nível de aprendizado, uns mais rápidos e outros mais devagar. A tecnologia permite você personalizar aluno por aluno. É uma forma de uso. Mas temos muitos conceitos que precisam ser trabalhados, como colaboração, trabalho em equipe e empatia que precisam de outros métodos, como o design thinking. É importante os alunos aprenderem a trabalhar em equipe porque, quando saírem dali, vão trabalhar em times. A empatia é fundamental para a educação cidadã desses estudantes. São conteúdos humanos importantes. Por isso, é preciso preservar esses momentos de não uso das tecnologias digitais.

Qual o papel do professor no momento em que existe uma enxurrada de informações verdadeiras e falsas disponíveis na palma da mão dos alunos?

Souza – Um dos papéis é de curadoria, de trazer bons conteúdos que falam a língua dos alunos. Não adianta trazer um conteúdo que o estudante não consiga se apropriar. Outro é o da facilitação, como ajudar o aluno a encontrar bons conteúdos, criar uma cultura de saber o que é fake news e o que é informação crível, o que é bom e o que é ruim. Ele tem o papel de cocriador de conteúdo, facilitador de um processo, e não mais apenas a pessoa que detém o conhecimento e pronto. Ele precisa mostrar ao aluno como encontrar bons conteúdos, bons sites e criar essa cultura de buscar informações boas.

Para isso ele também precisa estar inserido nesse universo digital?

Souza – Ele não precisa ser um expert total em tecnologia, mas precisa ter uma fluência tecnológica. Tem que entender como funciona, como ela acontece e os principais pontos. Não significa que precisa ser um desenvolvedor de software. Precisa saber usar as ferramentas, quais as principais redes sociais e aplicativos. É preciso entender como essas coisas funcionam. Quando eu estava na universidade, surgiu o twitter. Fazia uma semana do lançamento e um professor chegou na sala e, ao invés de colocar o e-mail e o telefone no quadro, colocou o endereço do twitter. Ninguém entendeu o que era aquele @sobrenome, e o professor tinha quase 80 anos. Mas ele era fluente em tecnologia. Esse é o papel do professor.

A diferença de investimento na inserção digital pode aumentar a distância entre as escolas públicas e privadas?

Souza – A tecnologia ajuda a eliminar essa diferença. Se você gravar um vídeo de uma aula de reforço em Matemática, por exemplo, esse material pode ser usado em todas as escolas, não apenas em uma. Depois que você construiu um software que faz alguma coisa, o custo para replicar essa ferramenta vai a zero. Boa parte da solução dos problemas das escolas públicas pode estar na tecnologia. Mas temos no Brasil dificuldades e muitos problemas políticos. Então, sim, acredito que teremos um aumento do gap entre as escolas privadas e públicas, até que tenhamos a percepção de que a solução de uma boa parte dos problemas do ensino público passa pela tecnologia.

Mudança comportamental

O diretor do Gustavo Adolfo acredita que a educação é o único caminho para reduzir o abismo social do país. Segundo ele, é papel dos adultos criar o mundo para as novas gerações que chegam diferentes na nossa sociedade.

“É uma geração maravilhosa e nós temos que aproveitar esse potencial.” Acredita que na escola e na própria sociedade as questões de discriminação estão muito bem resolvidas nos adolescentes, mas não estão nos adultos.

Para Ulrich, um exemplo da diferença entre as gerações foi a palestra com Cristiano Nabuco, promovida pelo Ceat. Ao questionar os estudantes sobre como seria o mundo sem internet, um aluno disse que não sabia, porque já nasceu com a internet.

“Então, para ele, aquilo é importante, mas não com o mesmo peso que se imagina”, afirma. Segundo ele, se mesma pergunta for feita para um adulto, talvez a resposta seja que é impossível ficar sem essa tecnologia.

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“Eu vejo que temos que dar exemplos, inclusive na forma como usar a tecnologia, pois toda geração sofre interferência da anterior”, reforça. Para ele, se há uma geração vindo melhor, em alguma medida a anterior contribuiu.

Conforme o diretor, os pais têm um papel importante em transmitir conceitos que permitam um desenvolvimento saudável. Para ele, a lógica de não querer que o filho passe pelas mesmas dificuldades dos pais é um dos problemas.

“Eles não estão se dando conta de que, se houve sucesso, é exatamente por essas dificuldades, porque teve um pai que disse não”, ressalta. Rever esse conceito é fundamental, alega, sob pena de criar uma geração que não se esforça para nada.

O que está acontecendo com o nosso aluno é que ele não sabe lidar com a mínima frustração. Esse é um desafio grande, mas não para a escola, para a sociedade. Equilibrar essas questões e trazer as competências socioemocionais para dentro da escola.

A coordenadora da 3ª CRE acredita que as novas gerações estão tão velozes quanto a tecnologia que as cerca. Para ela, as crianças já nascem conectadas e com o celular na mão, o que é um problema. Afirma que o esfriamento das relações começa já na primeira infância.

“Para não deixar a criança chorar, as famílias dão um tablet com vídeo da Galinha Pintadinha. Então ela não sente essa emoção”, afirma. Os mais crescidos ganham telefone com whatsapp, instagram, facebook, entre outros estímulos. Lembra que é comum uma família em que todas as pessoas estão juntas, mas no celular.

“Haja saúde psicológica para isso, pois traz uma enxurrada de problemas”, ressalta. Para Greyce, o aluno se tornou imediatista, e a vida não é assim. Considera que as conquistas profissionais e relacionamentos afetivos duradouros levam tempo para ser construídos e que as novas gerações têm pouca compreensão sobre isso e dificuldade de lidar com as frustrações.

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