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Jornal A Hora

CARAVANA PENSE

Publicada em 24/09/2018

O ato de ensinar vem do amor

Estar presente na escola, apoiar os professores e dialogar com os alunos. Essa é a ideia das Caravanas do PENSE. Equipes do A Hora e dos apoiadores, Sicoob, Amvat, Cron, Univates, 3ª CRE e Instituto Dale Carnegie vão aos colégios da região

Crédito: Bibiana Faleiro Caravana em Teutônia teve a presença de alunos e professores das escolas municipais de Teutônia e da escola de Ensino Médio João de Deus
Caravana em Teutônia teve a presença de alunos e professores das escolas municipais de Teutônia e da escola de Ensino Médio João de Deus

“Eu vejo que hoje nós não somos valorizados financeiramente, mas o que mais me dói é quando não somos valorizados pelo que somos como profissionais e pessoas.”

A escola ficava no pátio de casa, no terreno emprestado pelo avô, em uma casinha antiga que virou também lugar de brincadeira de crianças. O professor de História André Luis Bronstrup, da Escola Estadual de Ensino Médio Gomes Freire de Andrade, em Teutônia, cresceu com as mãos sujas de giz riscando o quadro-negro da escola.

A vocação para o ofício acompanha Bronstrup desde cedo. Já havia concluído o Ensino Médio e tinha certeza de que seria professor. Em sala de aula faz 17 anos, acredita que a questão salarial tem importância. “Quando dizemos que o professor não está sendo valorizado, não estamos reconhecendo a figura do profissional.”

André Bronstrup

Isso, acredita, é fruto de um conjunto de situações vivenciadas no país, pois não se valoriza a educação. “Quando temos uma iniciativa dessas como o PENSE, só temos a agradecer.”

Segundo Bronstrup, a realidade nos países de terceiro mundo é a exploração da mão de obra não só em relação ao professor, mas também em outras tantas profissões. Para ele, a maior desvalorização é não reconhecer a importância do conhecimento que é construído junto com os alunos.

“A gente continua tendo esse papel importante apesar das tecnologias, das inovações. Hoje o conhecimento está em todo lugar, mas a gente precisa ter o professor atuante dentro da sala de aula”, conta.

Das subjetividades criadas por meio das experiências vividas por cada aluno dentro e fora da escola, criam-se as diferenças e individualidades. Nesse contexto, cada compartilhamento entre professor e aluno se desenrola em uma narrativa que por vezes tem poder de perpetuar a passagem deles pela escola.

O professor lembra que para ele as histórias mais marcantes são as que encontra fora da sala de aula, depois que os alunos se formam. “Eles nos reconhecem, chamam pelo nosso nome e dizem como fomos importantes na vida deles.”

Em situações como essas, os professores se tornam amigos e ajudam a esclarecer dúvidas e incertezas, em questões de estudo, trabalho e relacionamento com as famílias.

Ele lembra do caso de um aluno que passava por dificuldades pessoais, sentia-se culpado por algumas coisas que haviam acontecido com uma amiga.

“Eu escutei e aconselhei ele. Outro dia ele veio, me abraçou e me disse como foi bom o que eu falei. Estava se sentindo muito melhor e me agradeceu. Naquele momento eu me senti muito importante”, conta.

Projeto PENSE nas escolas 

Percebe-se mudanças cada vez mais aparentes na educação. Os professores buscam novas metodologias de ensino e avaliação dos alunos e expandem suas relações para além dos portões da escola. São conselheiros, orientadores e amigos quando as dúvidas escondem as ideias dos alunos.

Em frente a tantas personalidades diferentes, os desafios são diários, porque a formação requer mais do que o diploma da graduação. O projeto PENSE vê o papel do professor como fundamental para o crescimento de um cidadão comprometido, justo e com visão próspera de futuro.

O A Hora reuniu, em agosto, a escola de Ensino Médio João de Deus, de Cruzeiro do Sul, e escolas municipais de Teutônia para uma manhã de atividades relacionadas ao cooperativismo, com o Sicoob; às relações humanas, com o Dale Carnegie; à saúde, com o Cron; e à solidariedade com a Univates no projeto E seu sorrir.

No mesmo mês, a caravana esteve na Escola Estadual Érico Veríssimo, em Lajeado.

O PENSE visitou a escola Érico Veríssimo, de Lajeado, para falar sobre a importância de valorizar o professor e se dedicar ao estudo
O PENSE visitou a escola Érico Veríssimo, de Lajeado, para falar sobre a importância de valorizar o professor e se dedicar
ao estudo
Crédito: Bibiana Faleiro

Histórias

No tempo em que as comunidades viram crescer e desenvolver as civilizações, a educação das crianças era feita em casa, por meio das histórias contadas em família.

Ali já existia um universo de saberes que se dividia entre o popular, o mítico, o filosófico e o científico, onde o popular era o mais ensinado. Era o conhecimento baseado nas experiências com a realidade, criando suposições que na maioria das vezes tinham uma provação científica não conhecida.

À medida em que essas organizações sociais se tornaram mais complexas, surgiu a necessidade de passar a função que antes era das famílias para profissionais que se especializaram em compartilhar conhecimento. Assim foram surgindo os primeiros professores que lecionavam em pátios abertos e se restringiam a crianças de famílias com maior poder aquisitivo ou ligadas à igreja.

Quando as instituições de ensino se tornaram físicas, a educação tornou-se acessível a diferentes camadas da sociedade, mas o que mais se via era o investimento no estudo dos homens. Com o movimento iluminista do século XVIII, viu-se modificar alguns conceitos: a razão tornou-se importante ferramenta do conhecimento, com princípios de igualdade e liberdade.

Se antes as escolas eram conhecidas apenas nos limites europeus, com a evolução das sociedades civis, passaram a se estabelecer em diferentes países. Apesar do modelo nesses países do velho mundo funcionar como instituição de ensino, as demandas, necessidades e culturas de outras sociedades exigiram que se pensasse o lugar da educação para cada uma dessas organizações sociais.

Quero ser professor

Com 27 anos de profissão, a professora dos anos iniciais e coordenadora pedagógica Laura das Neves Schulte, da Escola Estadual de Ensino Médio de Teutônia, lembra que na infância dava aulas para os irmãos e, sempre que lhe perguntavam o que ela queria fazer quando crescesse, a resposta era a mesma: professora.

“Sou extremamente realizada no que eu faço. E penso que tem que ser dessa forma. Precisamos fazer o que gostamos, independente da questão salarial”, comenta.

Na primeira escola onde lecionou no município, alguns alunos ainda não eram batizados por não terem condições familiares. Ela lembra que duas meninas de 11 anos a convidaram para ser madrinha.

“Eu senti isso como algo muito importante, porque elas quiseram ser batizadas, e me escolheram como madrinha. Isso é reflexo do amor recíproco entre nós.”

Luana Vitoria Haas foi influenciada pela família desde cedo. O tio e a mãe eram professores e ela decidiu agregar ao curso superior de Química Industrial a licenciatura. Faz um ano que começou a dar aulas em ciências da natureza.

Nesse início de trajetória, já tem momentos marcantes com os alunos. “Me escolheram como paraninfa de 3º ano. Fizeram uma surpresa, leram uma mensagem e falaram dos conselhos que eu dava, da participação com eles, eu me emocionei muito”, conta.

Pricila Polanczyk

Amigo e confidente

Essa troca de aprendizados é sinônimo de crescimento mútuo entre aluno e professor. Pricila Polanczyk, 16, é aluna do 1º ano do Ensino Médio da escola Gomes Freire de Andrade. Ela quer ser perito criminal porque gosta da área da saúde, da investigação e do suspense, tendo se interessado principalmente com influência de séries e filmes.

Na escola, ela comenta que os professores sugerem o que se encaixa melhor com o perfil do aluno, mas deixam a liberdade para eles decidirem o que gostariam de fazer. “O professor é a base de tudo, porque sem ele a gente não consegue aprender nada. Tem que ter alguém que nos ensine, que nos encaminhe para esse futuro”, conta.

Pricila cita um professor de Ciências da escola onde estudou há cerca de três anos a quem sempre pedia conselhos. “Ele me ajudava em tudo o que eu precisava, era um professor, mas era como um pai pra mim”, lembra.

Raffaela Souza da Silva, 17, do 2º ano do Ensino Médio da Gomes Freire de Andrade, acredita que a principal importância de um professor é dar um bom exemplo.

A escola é lugar de descobertas e oportunidades de conhecer o mundo que, quando ainda somos jovens, às vezes, se esconde atrás da proteção das famílias. A educação que vem de casa aliada à da escola é que molda indivíduos justos e satisfeitos com suas escolhas.

“A escola para nós é uma segunda casa”, conta Natanael Torgeski, 17, do 2º ano do Ensino Médio da Gomes Freire de Andrade. Para ele, é uma pena que algumas crianças não tenham acesso à escola, porque isso influencia muito no aprendizado delas e na educação em si para a formação de um bom cidadão.

“De certa forma me fez ser quem eu sou hoje, ela me desenvolveu junto com meus pais e com os professores. A educação vem muito da escola e das famílias”, comenta.

Ele lembra de um professor de Matemática que o ajudava sempre que tinha um problema. Algumas vezes, Natanael precisava realizar provas e o professor vinha da casa dele até a do aluno para levá-lo à escola.

Gabriel Dammann

Compartilhar conhecimento

Sentados em fileiras na quadra do colégio, os alunos do Ensino Médio ouviam conceitos trabalhados nos livros de Dale Carnegie. Foram provocados pelo coordenador do Instituto no Vale do Taquari, Henrique Kuhn, a conversar com pessoas diferentes.

“É importante conhecer o que a pessoa pensa, porque ninguém é igual”. Maiara Leticia Willers, 15, do 1º ano do Ensino Médio, reconheceu a importância da integração promovida naquela manhã, com a possibilidade de conversar com pessoas diferentes.

Ela lembra de todos os conselhos e da ajuda que seus professores sempre lhe deram. “O professor é a base fundamental de toda profissão, ele nos ensina a agir com toda a sociedade”, conta.

Assim também Gabriel Bastos Dammann, 17, do 3º ano do Ensino Médio, percebe a importância de falar com as pessoas, porque, segundo ele, quem não souber conversar, não sabe fazer nada. Lembra que quando estava no 1º ano do Ensino Médio estava passando por problemas emocionais. “Um professor que eu não tinha tanta afinidade assim me chamou para conversar fora da aula e me ajudou bastante”, conta.

“Além de nos dar a educação básica, o professor serve como exemplo para algumas decisões. Eles debatem sobre política e coisas da sociedade, não só em sala de aula”, lembra.

Érico Veríssimo

O que diferencia uma pessoa de outra são as experiências vividas por ela, a criação de uma cultura relacionada às suas origens e tudo o que ela passou no processo. Despidos desses conhecimentos, realça Henrique Kuhn, todos são parecidos, por isso, é importante respeitar as diferenças e entender que cada um tem a sua história e opinião.

Nos estudos de Dale Carnegie, são trabalhadas questões de autoconfiança, comportamento e relacionamento social com as escolas que o PENSE visita. A metodologia se assemelha para alunos e professores, em dois ambientes diferentes, mostrando que as mudanças começam por cada um e que a iniciativa é que move nossos caminhos.

Kuhn e o integrante do instituto na região, Marciano Rohr, exemplificaram, com histórias da própria vida, que a vontade e a busca podem gerar grandes resultados.

Da mesma forma, a gerente do Sicoob Lajeado, Luciani Beatriz Klamt Valentini, contou sua trajetória entre a escolha de vários cursos, estimulando as ideias de liderança, comportamento e espelho social.

Para encerrar a manhã na escola Érico Veríssimo, o vice-reitor da Univates, Carlos Cândido da Silva Cyrne, falou sobre cyberbullying e a era digital em meio à cultura da não violência. Ele reforçou os valores de respeito e humanidade dentro e fora do ambiente escolar e estimulou a confiança: “Precisamos aprender a gostar de nós mesmos, a confiar na família e ter fé”.

Renato Cramer é médico oncologista do Cron. Ele falou sobre a saúde do professor, em especial sobre a prevenção de doenças causadas por maus hábitos, vícios e falta de conhecimento sobre o assunto.

Verônika Machado

No coração dos alunos

“Sou uma pessoa que me cobro demais, e ano passado uma professora de História me falou que eu não precisava me preocupar tanto, que não tem problema se não tiramos sempre as melhores notas”. Verônika Coimbra Machado é aluna do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Érico Veríssimo e conta que sempre procurou se colocar no lugar dos professores em sala de aula, vendo-os como mestres.

Segundo ela, esses profissionais são muito importantes para a formação de cidadãos, por meio da orientação, conhecimento e carinho. “Eu acho que devem ser mais valorizados, porque são eles que formam todas as outras profissões”, comenta.

Conta que vê o professor como um amigo e companheiro com quem pode contar e ser entendida. “A cabeça de um professor não é só para dar aulas e ensinar aquilo que é preciso, mas muitas vezes para entender os alunos e isso a gente vê muito na nossa escola, os professores gostam de nos ver bem.”

Também Lucas Lima, 17, do 3º ano do Ensino Médio do Érico Veríssimo, vê a importância do professor. “Sem eles não seríamos ninguém e mesmo assim não são muito valorizados”, lembra.

Paula Bagatini

Dificuldades em ser professor

“Nasci e me criei dentro de uma sala de aula, venho de uma família de professores”, lembra a docente de Língua Portuguesa e Literatura, Silvana Battisti, 46. Há 25 anos lecionando, hoje trabalha no Érico Veríssimo e vê que a maior dificuldade na profissão é a falta de interesse dos alunos pelo conhecimento.

Ela lembra da história de uma ex-aluna que se formou como professora e disse que o maior exemplo foi dado por Silvana. “Esses pequenos gestos mostram como a gente foi importante na vida deles, mesmo que muitas vezes não percebemos”, comenta.

A professora de Educação Física Paula Bagatini também vem de uma família de educadores e diz não se ver fazendo outra coisa. Há 12 anos na profissão, acredita que lecionar vem do amor, e que a escolha vem de dentro.

“Eu vejo que quando o aluno tem o exemplo vindo de casa, com uma inspiração e propósitos, ele vê a escola de forma diferente”, conta. Segundo ela, a escola tem papel de complementar a educação que vem de casa, mas muitas vezes os pais deixam seus filhos na instituição e esperam que os professores eduquem seus filhos não só com o conhecimento, mas com saúde emocional e até as visões de como é o mundo lá fora.

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