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Publicada em 24/09/2018

“O estudante gosta de encontrar sentido no que vai aprender”

Doutora em Educação pela UFRGS e coordenadora do curso de Pedagogia da Univates, Danise Vivian fala sobre rendimento escolar.

Crédito: Gesiele Lordes DSC_0747

Quais são os fatores que interferem no rendimento escolar?

Danise Vivian • Quando falamos em rendimento escolar estamos nos referindo ao processo de ensino e de aprendizagem que conduz a construção do conhecimento como atividade primordial da escola. A relevância desta questão está diretamente vinculada à inserção deste estudante na sociedade, na constituição da sua cidadania e na promoção da sua autonomia. Muitos são os fatores que podem interferir no rendimento escolar e eles são classificados como implicações intraescolares e extraescolares. Fatores internos ao contexto educacional referem-se à constituição do currículo escolar, à forma de avaliação adotada, às metodologias de ensino dos professores, ao tempo e ao espaço destinados à educação. Já os fatores externos remetem à qualidade de vida do estudante, suas condições econômicas e de vivência, ou não, em um espaço letrado que estimule a curiosidade e a aprendizagem.

Muito se fala em inovação na educação. A forma como o aluno recebe o conhecimento interfere na maneira como ele absorve o saber?

Vivian • O processo de ensino e de aprendizagem assume uma grande importância para a aquisição do conhecimento. Logo, alunos e professores são figuras essenciais nesta construção do conhecimento. Os primeiros, com o desejo de aprender, a vontade e a motivação para conhecer mais. Os segundos, como os organizadores deste processo, pois para que um professor consiga provocar a aprendizagem dos estudantes é necessário realizar um conjunto de operações didáticas coordenadas entre si: ter um planejamento e, consequentemente, a consciência da direção do ensino e da aprendizagem que quer seguir, refletir sobre as melhores estratégias para a “ensinagem” dos saberes, conhecer os interesses dos seus alunos, investigar as suas aprendizagens. Partindo dessa concepção, a aula torna-se dinâmica, algo que precisa ser repensado e reavaliado constantemente, principalmente, quando verifica-se que os alunos não estão conseguindo acompanhar os temas trabalhados.

Não há uma receita no campo educacional que possa ser seguida por todos, mas buscar gerar a curiosidade sobre o que se vai aprender é uma estratégia muito positiva.”

O que os professores podem fazer para aumentar a eficiência das aulas?

Vivian • Não há uma receita no campo educacional que possa ser seguida por todos, mas buscar gerar a curiosidade sobre o que se vai aprender é uma estratégia muito positiva. O estudante gosta de encontrar sentido no que vai aprender e a relação do conhecimento com a realidade é fundamental. Precisamos colocar o estudante em uma condição ativa dentro da escola, ou seja, ele precisa aprender a aprender e isso demanda construir experiências pedagógicas significativas com o seu apoio. Na sociedade tecnológica e globalizada em que vivemos, altamente dinâmica, tirar o aluno da condição de passividade, de alguém que apenas absorve o conhecimento, para provocar a sua curiosidade e o seu movimento em querer aprender mais é essencial.

Além das avaliações internas, em diversas etapas da vida escolar os alunos são treinados, com simulados, para avaliações externas, como a Prova Brasil ou Pisa, sem contar Enem e vestibulares. Mesmo assim, alguns jovens chegam à faculdade sem dominar o básico. As provas convencionais ainda funcionam?

Vivian • Quando ressaltamos que o aluno precisa ser protagonista na construção do conhecimento, justamente destacamos a necessidade de ele refletir sobre aquilo que está aprendendo e não apenas acumular ou memorizar conteúdos. As provas são um instrumento de averiguação da aprendizagem, mas elas não mensuram todas as competências desenvolvidas pelos estudantes na construção do seu conhecimento. Aprender é mais do que apenas acumular saberes. É conseguir, a partir deles, constituir a sua cidadania e autonomia. A prova, por si só, não consegue descrever todas as aprendizagens de um aluno, sejam elas cognitivas, procedimentais ou atitudinais. Faz-se necessário pensarmos em outros instrumentos avaliativos, principalmente, diante de uma escola inclusiva, em que todos têm o direito e o seu tempo de aprender.

Como a dificuldade em disciplinas tão elementares, como Português e Matemática, reflete, de forma geral, na vida dos alunos?

Vivian • A dificuldade na aprendizagem em qualquer campo disciplinar gera implicações psicopedagógicas, sociológicas e político-pedagógicas. Psicopedagógicas, pelo sofrimento que causa no estudante pela sua condição de não aprendizagem; sociológicas, pois gera dificuldades na inserção social desse estudante, principalmente diante da sociedade grafocêntrica em que vivemos; e político-pedagógicas, que ressaltam a necessidade de repensar as dinâmicas escolares na contemporaneidade.

Qual a sua opinião sobre a avaliação por áreas do conhecimento e não mais por disciplinas isoladas, como ocorre na rede estadual do RS?

Vivian • A avaliação por área de conhecimento exige uma reestruturação educacional. Avaliar coletivamente pressupõe que os componentes curriculares tenham tempo para pensar e planejar, coletivamente, e isso nem sempre acontece nas instituições de ensino. Alterar qualquer percurso educacional, seja currículo, metodologia, avaliação e etc. precisa ser realizado com tempo, estudo e reflexão por parte de todos os envolvidos. O aluno também precisa compreender o que muda em sua avaliação e essas alterações precisam estar claras para toda a comunidade escolar.

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