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Jornal A Hora

Entrevista

Publicada em 02/12/2018

“Nível de conhecimento nas áreas elementares é insuficiente”

IEDA GIONGO

Dados do MEC indicam que alunos saem da escola sem saber o básico em Português e em Matemática.

Os dados, do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), em agosto, colocam as autoridades de ensino em alerta.

Cerca de 70% dos estudantes que concluíram o Ensino Médio no país apresentaram resultados considerados insuficientes em Matemática. A mesma porcentagem não aprendeu nem mesmo o considerado básico em Português. Na disciplina das letras, os estudantes alcançaram, em média, 268 pontos, o que coloca o país no nível 2, em uma escala que vai de zero a 8. Até o nível 3, o aprendizado é considerado insuficiente pelo MEC.

A partir do nível 4, o aprendizado é básico e, do nível 7, adequado. Na prática, isso significa que os brasileiros deixam a escola provavelmente sem conseguir reconhecer o tema de uma crônica ou identificar a informação principal em uma reportagem.

Em Matemática, os estudantes alcançaram, em média, 270 pontos, também deixa o país no nível 2. Só que a escala vai até dez, e segue a mesma classificação em Língua Portuguesa. A maior parte dos estudantes não é capaz, por exemplo, de resolver problemas utilizando soma, subtração, multiplicação e divisão.

No 5º ano, a pontuação média em língua portuguesa passou de 208 para 215 entre 2015 e 2017. No mesmo período, a pontuação média de matemática subiu de 219 para 224 pontos. De acordo com o MEC, os dois resultados colocam os estudantes em um patamar considerado básico. Diante dos números, o ministro da Educação, Rossieli Soares disse que “o Ensino Médio está absolutamente falido, está no fundo do poço.”

“Temos que pensar fortemente a questão da universidade trabalhar com as escolas”

Formada em Matemática e Doutora em Educação, a professora Ieda Maria Giongo integra um projeto da Univates com escolas municipais, com foco na formação dos professores dos anos iniciais. Antes, atuava no Observatório da Educação, onde uma proposta semelhante contribuiu para o aumento do desempenho do IDEB das escolas participantes.

A Hora – Porque os alunos tem tanta dificuldade nas disciplinas elementares?

Ieda Maria Giongo • Precisamos pensar que temos um aluno que não é tão passivo. Temos a questão da tecnologia, e avaliar a formação dos professores em que os próprios docentes da escola básica sejam pesquisadores, e não só consumam a formação que vem da faculdade. Por isso trabalhamos à universidade fazer pesquisa com a escola, e não sobre a escola ou mesmo nem na escola. É uma via de mão de dupla: nós também aprendemos com a escola básica. O professor da escola básica não é só um consumidor, é um produtor de conhecimento. A pesquisa nos mostra que isso na educação continuada é muito produtivo. Inclusive, as escolas que trabalhavam conosco no Observatório da Educação tiveram aumento no IDEB.

O aluno chegar ao nono ano sem saber o básico não é uma falha no sistema de ensino, que acaba empurrando o discente que ainda não está pronto?

Giongo • Não falo em falha, porque normalmente se põe a culpa no professor, nos cursos de graduação… Acho que temos que pensar na formação que seja especificamente contínua na área que o professor mais atua, e temos que pensar fortemente a questão da universidade trabalhar com as escolas.

Algo muito bom que está aí é a residência nas escolas. Temos que pensar em metodologias que se preocupem com o ensino, na aprendizagem e na avaliação. Se queremos um ensino diferenciado, como vamos fazer essa avaliação? Isso não se faz do dia para a noite. Sem pesquisa não vamos conseguir alcançar muita coisa. Que não é só mais quadro e giz a gente já sabe.

O próprio Ministro da Educação afirmou que o ensino médio está “falido”. Como isso se reflete no ensino superior?

Giongo • Se o aluno chega ao ensino superior com essa defasagem, temos que tentar atenuar. Culpar o Ensino Médio também não me parece uma boa. Penso que temos que ter uma discussão séria. Vem agora a nova Base, que recebeu muitas críticas. Eu acho que temos que revisar a Base. A primeira pergunta é: afinal, o que se quer do Ensino Médio? Se quer um ensino mais acadêmico? Um ensino mais profissional? Não podemos pensar que um aluno termine o Ensino Médio e não consiga manipular uma calculadora científica, por exemplo, ou que não consiga minimamente manejar um software. Não estou dizendo que não se usa mais lápis e papel, mas os softwares, se bem usados, fazem o aluno pensar muito. No Português, tem que saber ler, escrever e interpretar. No Ensino Médio, temos que preparar o aluno para, quando tiver uma dúvida, saiba onde pesquisar.

Se não revertermos essa realidade, quais os riscos a que estamos sujeitos enquanto sociedade?

Giongo • A pesquisa científica vai ficar décadas atrás. Vamos ter falta de pessoas especializadas. Falam tanto nos países que têm muitos mestres e doutores, mas eles têm porque, certamente, foi dada ênfase na educação básica. E, se pensarmos em sair da crise, por exemplo, é preciso pensar em processos em que as pessoas sejam alfabetizadas – e isso não é só ler e escrever. A tônica está na alfabetização científica e tecnológica. Vamos continuar vendo resultados ruins nos exames, vamos continuar culpando uns aos outros, e será um círculo vicioso; temos que pensar nisso. A situação está posta. Agora, temos que ver o que vamos fazer.

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