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Jornal A Hora

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Publicada em 02/12/2018

Projetos que transformam

Durante o ano, escolas como a Monsenhor Scalabrini, Melinho e Érico Veríssimo desenvolveram ações de solidariedade, resgate de memórias e debate sobre direitos humanos

Escola Monsenhor Scalabrini, de Encantado, propôs a confecção de cataventos para ilustrar o objetivo do principal projeto do ano
Escola Monsenhor Scalabrini, de Encantado, propôs a confecção de cataventos para ilustrar o objetivo do principal projeto do ano

Quando inicia o ano letivo, os professores do Instituto Educacional Monsenhor Scalabrini, de Encantado, se reúnem para decidir quais projetos serão feitos no ano. “Scala, um mundo em movimento” foi o nome escolhido este ano para contemplar as movimentações de toda a escola, referentes ao voluntariado e à solidariedade.

Uma das atividade foi a criação de cataventos que ficam dentro das salas de aula, em alusão ao movimento que é o cerne do projeto. A vice-diretora do turno da tarde, Miriam Dentee Bertelle, 36, conta que durante as atividades educacionais, foram trabalhadas questões como identidade das turmas, em que cada hélice desse catavento abrigava um significado para os alunos, e os desejos e esperanças de cada turma para o ano.

“Depois disso vieram vários projetos com esse viés de movimento do mundo e das situações que aconteceram este ano”, lembra.

Miriam Bertelle

Um deles foi em parceria com o Rotaract de Encantado, com a questão do aluno se sentir cidadão e construir-se como pessoa, com sonhos e agente da sua comunidade. Por meio de palestras, o clube procurou incentivar primeiro a mudança pessoal para que então os alunos observassem como ajudar a cidade e o país. Ao fim dos encontros, propuseram uma ação de intervenção na comunidade. Uma das turmas propôs a revitalização com a limpeza e a pintura da Praça da Bandeira, na área central da cidade.

“Vieram em turnos inversos, em sábados pela manhã e mobilizaram a prefeitura para conseguir os materiais necessários”, conta.

Para encabeçar essas iniciativas sociais, uma das professoras responsáveis foi a vice-diretora do turno da tarde, Francismara Sehn, 46. Ela coordenou o projeto Tribos, da ONG Parceiros Voluntários. Conta que a cada ano, a escola faz no mínimo quatro ações comunitárias.

“Depois de um trabalho de três anos de coleta de lacres e tampinhas de garrafas, conseguimos arrecadar 100 kg e trocamos por uma cadeira de rodas que fica em rodízio pela comunidade”, lembra a professora.

Com a venda desses lacres, também contribuem com a preservação do ambiente. Alunos e professores também conseguiram comprar uma caixa d’água que irriga a horta da escola. Entre outras iniciativas, algumas turmas também visitaram uma casa de idosos, passando o dia em companhia dos residentes. Também com as crianças da Apae e do Lar Encantado.

“Eles cantaram e conversaram com essas pessoas, foi uma troca de carinho, e um projeto importante para conhecerem a nossa diversidade. A ação Tribos tem esse objetivo de fazer o bem sem pedir nada em troca”, comenta.

Com a arrecadação de jornais e doação de rações, a escola também propôs um voluntariado com a ONG de animais de Encantado, em ações conjuntas entre rifas. Na gincana, as equipes arrecadaram peças de roupas destinadas aos segundo Brechó Solidário, cuja verba foi revertida para a reforma do laboratório da escola.

Para finalizar o ano com boas energias, um grupo de alunos da escola conquistou o primeiro lugar na fase estudantil do Canto da Lagoa.

Miriam conta que ao fim do ano entendeu qual foi o principal objetivo do projeto: fazer com que os alunos percebam-se como agentes de mudança constante. “É por meio dessas ações que mudamos o mundo, sempre colocando boas energias em tudo o que fazemos”, conclui.

Para Francismara, os resultados do ano também foram positivos. “Por meio desse voluntariado, conseguimos descobrir espírito de liderança nos alunos, que com certeza será importante para escolhas futuras”, comenta.

Em um resgate de memórias e envolvimento familiar, alunos do Mellinho desenvolveram Portfólio de texto onde compartilham vivências
Em um resgate de memórias e envolvimento familiar, alunos do Mellinho desenvolveram Portfólio de texto onde compartilham vivências
Crédito: Divulgação

Resgate em família

Em uma das salas de aula do Colégio Cenecista João Batista de Mello, de Lajeado, os alunos do 6º anos tiveram um desafio. Orientados pela professora de Língua Portuguesa, Beatriz Lodi Freire, eles trabalharam os gêneros textuais para a elaboração de um portfólio dividido em quatro capítulos.

“Sempre acreditei que para um aluno escrever um bom texto, ele precisa saber o porquê está escrevendo e para quem se destina”, ensina a professora.

Assim, começou a trocar os trabalhos dos alunos entre as turmas, de modo que cada texto foi lido pelos mais novos ou pelos mais velhos. Segundo ela, essa é uma forma de ver a evolução deles ou mesmo os pontos fracos.

“Quero tirar da cabeça dos alunos que a produção de texto só é revisada pelo professor. Eles precisam ter um incentivo para escrever, então tive a ideia de criar o portfólio. Percebo que cada vez que faço algo diferente, os textos são muito melhores”, conta.

Inserido neste trabalho, elaborou um capítulo intitulado memórias, em que a partir do resgate de histórias contadas pelas famílias, os alunos criaram poemas e narrativas, e provocou nos familiares a escrita de uma carta, que também compõe o portfólio.

Temas dos direitos humanos ganhou espaço em projeto na Escola Érico Veríssimo
Temas dos direitos humanos ganhou espaço em projeto na Escola Érico Veríssimo

“É uma maneira de perceber com qual gênero textual ele se identifica e consegue se expressar”, comenta.

Assim como foi importante para Beatriz, o projeto teve uma reação especial para os alunos e às famílias. Um deles foi Pedro Henrique Loeblein Schmitz, 13. Ele conta que durante o resgate das memórias, a família estava reunida, e a lembrança dos momentos da infância de Pedro comoveu a todos.

“Foi muito legal ver toda a família se envolvendo comigo nesse trabalho. Minha mãe se emocionou e meu avô lembrou de muitas histórias também”, lembra.

O colega Luiz Pedro Raubach Saraiva Rosa, 14, também teve histórias para contar depois do projeto. Entre elas, a lembrança de um coelhinho amarelo de pelúcia que ele tinha quando criança.

“Lembro que quando era mais novo, minha avó e eu esperávamos minha mãe chegar do trabalho, e eu sempre estava com esse coelhinho. É uma lembrança boa que eu tinha esquecido”, conta.

Para Júlia Quadros, 13, o projeto desenvolveu sentimentos de gratidão, surpresa e acolhimento, principalmente quando a família escreveu as cartinhas para ela. “Eu não estava esperando que meu pai e minha irmã tirassem um tempo para escrever para mim. Por mais que sejamos próximos, nunca tinha percebido como sou importante para eles, me emocionei muito”, lembra.

Ela que gosta muito de escrever, sentiu-se feliz por ter seus textos impressos e saber que mais pessoas poderiam ler.

Pensar a mudança social

No fim do ano, a Escola Érico Veríssimo, de Lajeado, foi palco para uma discussão sobre assuntos de direitos humanos, propostos pelos alunos.

Frente a esta ideia, a professora de história, Karen Pires, 35, elaborou uma série de discussões sobre feminismo, pena de morte, aborto, depressão, onde cada turma tinha um relator, responsável por anotar os assuntos e argumentos trabalhados em aula.

Já no início do projeto, o psicólogo Sérgio Pezzi, 61, foi convidado para orientar os alunos em encontros com os relatores de cada turma, com debates fundamentados nas opiniões das propostas sugeridas durante os encontros entre os estudantes.

Depois de passarem o ano letivo com essa atividade, os professores da área de humanas, responsáveis pela ação convidaram, além de Pezzi, a psicóloga Fernanda Porster e o promotor Carlos Fioriolli para provocarem debates com as turmas da escola, sobre os assuntos de direitos humanos trabalhados pelos alunos.

Nicole Schossler

Ao fim da manhã reservada para as palestras, a professora Karen avalia o projeto como preparatório para o exercício de cidadania, e acredita que o melhor lugar para incentivá-la é na escola. O psicólogo Sérgio Pezzi complementou afirmando que além dos professores, as famílias são também responsáveis por conversar e orientar seus filhos.

 

Para a aluna do 9º ano, Nicole Schossler, 14, o projeto é uma forma de conhecimento necessária para debater de forma coerente e com respeito dentro da sociedade.

A escola a encaminhou para o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica), do qual Nicole foi eleita delegada suplente.

Ela conta que no ano que vem, vai à Porto Alegre para representar o município e apresentar as ideias propostas no conselho.

“No cenário de polarização política em que vivemos no país, é de extrema importância que tenhamos esse espaço na escola para debater esses temas e adquirir cada vez mais conhecimento”, conta.

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