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Jornal A Hora

Entrevista

Publicada em 02/12/2018

“Uma aluna queria ir morar na minha casa. Queria que eu fosse mãe dela”

Crédito: Bibiana Faleiro Diretora Ana Martins, da escola Guararapes, trilhou sua vida pela educação e relembra momentos marcantes
Diretora Ana Martins, da escola Guararapes, trilhou sua vida pela educação e relembra momentos marcantes

A diretora da Escola Estadual de Ensino Médio Guararapes, Ana Saldanha Martins Zang, 48, avalia os desafios de ser professor e como essa atividade interfere na vida dos estudantes.

A Hora – Por que escolheu a profissão?

Ana Saldanha Martins Zang • Essa escolha sempre esteve comigo, foi uma decisão tomada com o tempo, com os exemplos que a gente tinha das escolas em que estudei. Sempre com o sentimento de orgulho de ser professora. Não me imagino fazendo outra coisa, nessa trajetória também surgiu a oportunidade de ser diretora, e já são quase 10 anos neste cargo, é algo que me realiza demais. Poder transformar vidas, poder modificar realidades, realmente valorizar a educação, com pequenas coisas que a gente pode fazer aqui no ambiente escolar.

Quais são as maiores dificuldades na profissão?

Ana • As maiores dificuldades hoje perpassam as condições de trabalho, na questão da valorização financeira, e também na questão das estruturas das escolas acompanharem toda a modernização, de realmente colocar a educação em primeiro lugar. Essas condições de trabalho muitas vezes impede de qualificar o trabalho na sala de aula, o trabalho pedagógico, as relações, do professor e do aluno, de tu oferecer condições para que ele atue no mercado de trabalho, então essas condições que depende de uma política educacional que realmente priorize a educação, e daí vai refletir diretamente na qualidade do ensino, deste profissionais que mais tarde vão estar no mercado de trabalho.

O que é mais gratificante?

Ana • Eu acho que tem muitas coisas, vejo que o que mais gratifica é a gente ver a transformação na vida dos alunos, que a gente às vezes percebe lá no final, quando ele está até fora da escola, a gente vê ele uma boa pessoa, bem colocado profissionalmente, está feliz, acho que é isso, tu lida com pessoas, e pode transformar a vida delas. Isso perpassa todas as outras dificuldades. Ver que alguém está precisando de ti, que tu é um exemplo que pode ser seguido, que pode ajudar a tornar algo cada vez melhor.

Tem alguma história que te marcou?

Ana • Muito tempo atrás, faz pouco que contei para a minha filha. Uma aluna me entregou uma carta pedindo para ir morar na minha casa, se eu podia ser a mãe dela. Naquele momento, eu era uma referência para ela, ela me via como mãe. Eu não pude atender ao pedido dela, mas estava tendo um papel importante naquele momento. Ela viu na forma como a gente orientava, conversava, se preocupava, cuidava, que eu poderia estar no lugar dessa mãe. É algo que eu levo sempre, porque é uma coisa que é profundo demais.

Como tu vê a valorização do professor hoje?

Ana • Aqui, na nossa escola, no nosso município, a gente ainda percebe muita atitudes que valorizam a escola, a presença do professor na vida dos alunos, mas no geral, no momento a gente sente que há um movimento da sociedade, para resgatar a educação, a importância dela, desse papel do professor. Precisa de mais ações do governo, ainda mais porque somos uma escola pública.

Como é exercer várias funções durante o dia, além de ser professor?

Ana • É muito desafiador, mas eu me encontro tão bem, eu me realizo muito neste pap. É dinâmico, não é todo o dia a mesma coisa. É descobrir mundos novos, um crescimento pessoal muito grande, de poder vivenciar essas histórias. Às vezes as questões burocráticas nos impedem de ter esse contato pessoal, estar mais próximo dos alunos e das famílias, onde às vezes as necessidades são maiores.

Lembra de alguma professora que tenha te marcado também?

Ana • Teve uma professora e diretora, a irmã Anita, no colégio de irmãs, ela era muito rígida, ereta, mas ao mesmo tempo tinha um lado carinhoso que a gente admirava. Um olhar firme, que nos fazia sentir confiantes e seguros. Quando somos crianças precisamos dessa segurança da escola e dos nossos pais, de que eles estão ali estendendo a mão. Ela sempre equilibrava o sério do trabalho que exigia dela, mas quando precisava estar próximo, ali estava ela. Acho que isso também equilibra o meu trabalho. Essa lembrança, desse perfil, que a gente precisa desmistificar um pouquinho essa imagem de professor rígido. Sempre quero que eles vêm à minha sala, que é um lugar que eles têm a impressão de que só vão ser chamados a atenção.

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