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Jornal A Hora

Vale do Taquari

Publicada em 19/12/2015

Detentos aproveitam carências na fiscalização

A apreensão de quatro celulares no Presídio Estadual de Lajeado, nessa quarta-feira, expõe a fragilidade do modelo de segurança das penitenciárias gaúchas. O pouco aparato disposto pelo Estado aos órgãos de segurança facilita a ação criminosa e o ingresso de armas, drogas e aparelhos telefônicos prisão adentro. Há duas semanas, 409 objetos ilícitos foram recolhidos das acomodações de detentos.

Crédito: Estevão Heisler Apesar do efetivo aquém do necessários e da falta de equipamentos para a fiscalização, agentes da Susepe flagram tentativas de ingresso de itens no presídio de forma recorrenteApesar do efetivo aquém do necessários e da falta de equipamentos para a fiscalização, agentes da Susepe flagram tentativas de ingresso de itens no presídio de forma recorrente
Apesar do efetivo aquém do necessários e da falta de equipamentos para a fiscalização, agentes da Susepe flagram tentativas de ingresso de itens no presídio de forma recorrenteApesar do efetivo aquém do necessários e da falta de equipamentos para a fiscalização, agentes da Susepe flagram tentativas de ingresso de itens no presídio de forma recorrente

A cada instante criminosos tentam romper os sistemas de vigilância da Superintendência dos Servidos Penitenciários (Susepe) e repassar aos detentos do presídio de Lajeado itens proibidos pela segurança, sejam eles para o conforto dos presos, ferramentas para fugas ou aporte à criminalidade. Apesar do empenho dos agentes na busca por celulares, drogas e outros materiais, como serras e facas, muitas coisas passam despercebidas.

Prova disso, o resultado da revista geral realizada há duas semanas, na segunda-feira, dia 7. Ação organizada pela Susepe, com apoio da BM, Bombeiros e Polícia Civil recolheu 409 itens nas celas do regime fechado da penitenciária. Entre as apreensões, 36 aparelhos telefônicos.

Mas a “limpeza” do ambiente durou pouco. Três dias depois, os agentes encontraram dois envelopes feitos de espuma e fita adesiva nas proximidades do canil. Vazios, os pacotes continham até pouco tempo antes da localização dois celulares. “Alguém de fora arremessa o material e os detentos encontram uma forma de encontrá-los antes de nós”, afirma o chefe de segurança, Éberson Bonet.

No mesmo dia, um agente localizou um envelope parecido em cima do telhado. Dessa vez, o servidor chegou antes ao local e encontrou um celular Nokia envolto em espuma. Situação semelhante ocorreu nessa quarta-feira. Quatro aparelhos telefônicos foram apreendidos no pátio, entre o muro e as celas do albergue. Além deles, havia carregadores e cabos USB.

De acordo com o chefe de segurança, o arremesso de materiais às dependências do presídio é a principal tentativa de levar pertences cadeia adentro. “Também é a mais difícil de controlar, pois não temos efetivo suficiente para monitorar as redondezas da penitenciária.” Segundo Bonet, a área onde foram encontrados os últimos aparelhos, no lado oposto à guarita vigiada por policiais militares, é a mais suscetível da estrutura.

Costeado pela rua Waldemar Ely (via da rodoviária), o espaço tem apenas um muro com quase quatro metros de altura. Da parede até a cela do albergue são outros dois metros. Os objetos arremessados da rua, na grande maioria das vezes, acabam no chão para serem resgatados pelos detentos que, de dentro dos quartos, os recolhem com “varas de pesca” artesanais, feitas de cabos de vassoura e com um gancho de arame na ponta.

Dessa área também partem objetos para os detentos do regime fechado. Conforme Bonet, os arremessos da rua não chegam ao pátio central. “Então as pessoas de fora jogam ao lado do albergue e alguém acaba dando um jeito de atirar para o pátio.”

Tal prática, garante o chefe de segurança, será restringida a partir das próximas semanas com a transferência dos detentos para o novo albergue, inaugurado neste mês. Aos poucos, a direção da penitenciária pretende transformar as atuais celas em sede administrativa.

Telas sobre o pátio

Vem do Presídio Regional de Santa Cruz um exemplo de restrição ao arremesso de objetos ao local. Nessa quinta-feira, a Susepe inaugurou a instalação de quase 600 metros quadrados de telas sobre o pátio das galerias A e B. A partir de ação do Conselho da Comunidade na Execução Penal, com apoio de entidades parceiras, foram investidos R$ 38 mil na obra.

Tal medida também será adotada na futura penitenciária feminina de Lajeado, que deverá ser inaugurada em março. A obra é paga pela comunidade. No entanto, não há previsão orçamentária por parte do Estado para aplicar telas sobre o presídio. Para isso, dizem agentes, a estrutura precisará de adaptações, o que demanda maiores recursos.

Pela porta da frente

Outras tentativas de levar objetos ou materiais de consumo para dentro do presídio passam pelo portão principal, seja por visitas íntimas ou no interior de itens que teriam permissão para o ingresso. Exemplo disso ocorreu nas últimas semanas, quando a segurança flagrou quatro serras de metal escondidas dentro de uma peça de MDF.

Segundo Bonet, dois fatores são determinantes para o sucesso da fiscalização, dentro ou fora dos muros: o número de agentes e os equipamentos de revista. No que tange ao quadro funcional, esse deveria ser pelo menos 40% maior, pois, além de funções internas, os servidores precisam realizar atividades como trasnportar detentos para atendimento médico. “E para cada preso que levamos deve haver dois agentes.”

Mesma condição ocorre no caso da aparelhagem. O presídio não tem, por exemplo, um escanear corporal. Nesse caso, a revista se limita a forma manual. Alguns objetos, como aqueles que são introduzidos nas partes genitais, têm grande chance de passar despercebidos.

Em visita para inauguração do novo albergue construído pela comunidade, no começo do mês, o governador José Ivo Sartori ressaltou a necessidade de modernização do sistema carcerário, com amplitude tecnológica e de monitoramento, para torná-lo mais eficiente. “Temos uma profunda ausência de uma interlocução generalizada no sentido de ter política penitenciária para todo o país.”

“95% dos assaltos são egressos do sistema prisional”

Chefe da delegacia de Polícia Civil de Lajeado, delegado Juliano Stobbe destaca os riscos decorrentes do ingresso de itens proibidos no presídio, em especial de celulares. Acredita que o sistema carcerário é um dos pontos mais delicados da área de segurança pública e demanda maior atenção e aporte por parte do Estado.

Jornal A Hora – O que representa para a segurança pública detentos terem em mãos celulares, facas e drogas?
Juliano Stobbe – É um risco enorme. Tanto entre os presos quanto para os agentes e para a população em geral. O presídio de Lajeado, em proporção, é um dos mais superlotados do RS. Em tese teria capacidade para 128 vagas no regime fechado e tem mais de 300 detentos. Isso é extremamente perigoso. Imagina uma rebelião com uma população carcerária três vezes superior a que deveria, munida com armas como facas e estoques.

A Hora – Quais prejuízos são causados à investigação o fato de um detento portar um celular?
Stobbe – Chega a se tornar algo quase que impeditivo para a investigação. Ao mesmo tempo que interceptamos ligações, têm outros meios de comunicação que não conseguimos interceptar. O problema é que os detentos trocam de chip a cada dois, três dias. Além disso, o aparelho gira na cela para todos utilizarem. O assunto mais delicado da segurança pública hoje é a questão dos presídios, por vários fatores. Pela incapacidade do Estado em gerenciar os próprios presídios, pela falta de vagas que faz com que presos perigosos sejam colocados em liberdade, pela falta de fiscalização do semiaberto. 95% dos assaltos praticados em Lajeado, não tenho dúvida, são egressos do sistema prisional. A segurança pública é encarada com total desprezo.

2015_12_19_estevão heisler_delegado juliano stobbe

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