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Jornal A Hora

Vale do Taquari

Publicada em 26/02/2016

Alunos voltam às escolas. Incertezas também

Sob ameaças de paralisações, a rede estadual retoma as atividades nesta segunda-feira, 29. Se para os estudantes o início do novo ano letivo traz a expectativa de novas amizades e aprendizados, para os professores a única certeza é da continuidade de problemas históricos.

Crédito: Anderson Lopes Aposentada, Nilce Kofender, 56, lembra do tempo em que o salário de professora era suficiente para pagar cursos de graduação e pós-graduação, além de garantir o sustento da casa. Hoje, relata o descaso com a categoria
Aposentada, Nilce Kofender, 56, lembra do tempo em que o salário de professora era suficiente para pagar cursos de graduação e pós-graduação, além de garantir o sustento da casa. Hoje, relata o descaso com a categoria

A defasagem dos salários e a desvalorização dos profissionais são as principais reclamações dos professores estaduais. Docente de História, Gilson Luiz dos Anjos afirma que a categoria sofre com o descaso de diversos governos, mas relata o agravamento da situação no último ano.

“Além dos problemas de 2015, ainda existe orientação da Secretaria de Educação para aumentar as horas de atividades dentro da sala de aula”, relata. Segundo ele, para cada 20 horas de trabalho, ao menos 16 devem ser em classes.

“Implica em uma ou duas turmas a mais, com até 50 novos alunos em cada. Que tempo teremos para corrigir provas, trabalhos ou preparar a aula?”, questiona. Para dos Anjos, a falta de condições de trabalho faz com que muitos profissionais percam o interesse pela atividade.

Outros, por necessidade, trabalham até 60 horas por semana, lecionando diariamente nos três turnos, afirma. Conforme o professor, essa é a única forma de manter renda suficiente para sustentar uma família com o salário pago à categoria.

“Hoje, recebemos apenas 30% do piso nacional do magistério”, aponta. Diante do baixo salário, dos Anjos lembra ser impossível para um docente investir em cursos de qualificação, livros, revistas ou ter acesso a eventos.

Lembra que o magistério gaúcho não recebe o Vale-Cultura, subsídio do governo federal para custear acesso a bens e apresentações culturais. “Nos períodos eleitorais, falam sobre a importância da educação, mas não vemos nenhuma mudança na prática.”

Cita como exemplo as frequentes ameaças de parcelamento ou atraso nos salários, ocorridas desde 2015. Segundo ele, o governo antecipou que terá dificuldades para quitar o funcionalismo a partir de abril. “Anteciparam as receitas do IPVA e não sabem como farão durante o resto do ano.”

Conforme o professor, a sociedade precisa se inserir nas discussões sobre educação para forçar o governo a encontrar uma solução. Para dos Anjos, se as pessoas responsáveis pelo ensino não têm perspectivas de futuro, o mesmo ocorrerá com os alunos.

“Não tenho mais esperança”

Professora de Literatura, Maciane Rempel não acredita em melhorias na educação gaúcha. Para ela, ao mesmo tempo em que os governos fazem discursos enaltecendo o ensino e o papel do educador, a prática demonstra uma desvalorização gradual do setor.

“Recebemos material pedindo para voltarmos cheios de garra, entusiasmo e alegria. Mas olhamos nossos contracheques e não temos por que nos animar”, afirma. Conforme Marciane, a desilusão com a atividade aumentou nos últimos anos devido à pressão para evitar reprovações.

“O governo quer números positivos e por isso estão passando de ano analfabetos funcionais”, alerta. Lembra de um caso em que um aluno faltou às aulas por seis meses e mesmo assim foi aprovado.

“Até ele ficou surpreso”, destaca. De acordo com a docente, esse tipo de atitude contribui para o desinteresse dos estudantes. Para ela, menos de 5% dos jovens comparecem às aulas dispostos a estudar. O restante estaria mais preocupado em acessar o celular. “Só vem para aula porque são obrigados.”

A professora ainda considera injustas as alegações sobre a crise financeira do governo. Segundo Marciane, o Piratini culpa o funcionalismo pelos problemas do RS. “Não somos nós que quebramos o Estado e sim os incentivos fiscais, a sonegação e os salários dos cargos do alto escalão.”

Valorização perdida

A aposentada Nilce Kofender, 56, lembra com nostalgia do ano em que ingressou no magistério, em 1985. Na época, diz, os professores eram valorizados por toda a sociedade e recebiam subsídios suficientes para desenvolver um trabalho satisfatório.

“Nosso piso era cumprido à risca desde o início da carreira. Recebíamos sempre em dia e jamais se cogitou a chance de parcelar os salários”, conta. Lembra que o ordenado foi suficiente para concluir o Ensino Superior e um curso de pós-graduação, além de manter os gastos da casa.

“Hoje, para investir na qualificação, o professor precisa fazer financiamento em banco ou tentar o Fies”, aponta. Para ela, o momento é de total descaso com a educação, que deveria ser a base para crescimento do país e o desenvolvimento dos cidadãos.

Conforme Nilce, os frequentes casos de desrespeito de alunos contra professores nada mais são do que o reflexo da falta de consideração da sociedade para com os profissionais.

Categoria desmobilizada

Representantes do Cpers de Porto Alegre estiveram ontem em Lajeado para divulgar a agenda de mobilização da entidade. Entre as ações propostas, estão uma paralisação no primeiro dia de aula e uma assembleia geral no dia 18 de março para debater a possibilidade de greve.

De acordo com o diretor da entidade, Cássio Ricardo Ritter, as escolas da região não aderiram às iniciativas. Com isso, as aulas iniciam normalmente nesta segunda-feira, 29. “Nos últimos anos tivemos muitas greves sem nenhum trabalho de base na categoria, que acabou desmobilizada.”

Tanto Gilson dos Anjos quanto Marciane Rempel se dizem descrentes quanto aos mecanismos de pressão ao governo adotados pelo sindicato. Para o professor de História, as paralisações e greves realizadas nos últimos anos não surtiram nenhum efeito. “Lutamos por tanto tempo sem avanços. Por isso a categoria está desanimada”, avalia.

Segundo ele, a situação se agrava no momento em que pais e alunos questionam o respaldo dos professores em reivindicar seus direitos.

“A sociedade virou as costas para o magistério e a maior prova é o fato de as famílias acharem normal alunos desrespeitarem os professores”, afirma. Para dos Anjos, o resultado disso tudo são jovens sem limites e despreparados para enfrentar as dificuldades do mercado de trabalho e da vida pós-escola.

Sucateamento

Para o diretor do Cpers, a educação gaúcha passa por um processo de desmonte proposital. “O repasse das verbas para as escolas diminuiu e até a merenda está ameaçada.”

Segundo ele, sem recursos para realizar reparos e pinturas, as escolas recorrem a pais, alunos e voluntários para assegurar o início do ano letivo.

Conforme Ritter, o governo tem intenção de instaurar o caos na educação. “Fizeram o mesmo com a segurança pública”, ressalta.

Para o dirigente, o objetivo do Piratini é justificar a privatização e o encerramento de estatais usando a crise financeira como desculpa.

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