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Jornal A Hora

Vale do Taquari

Publicada em 18/05/2016

Alunos viram aliados em defesa dos professores

No estado, cresce o apoio de estudantes à greve do magistério. Apesar da pressão, governo não indica que atenderá as reivindicações apresentadas até agora.

Crédito: Anderson Lopes Em ato em frente à escola, estudantes manifestaram apoio às reivindicações dos professores
Em ato em frente à escola, estudantes manifestaram apoio às reivindicações dos professores

Cartazes com palavras de ordem foram usados por estudantes da Escola Estadual Castelo Branco, em Lajeado, durante protesto ontem de manhã. A mobilização ocorreu um dia após alunos da escola Reynaldo Affonso Augustin, de Teutônia, e da também lajeadense Érico Veríssimo manifestarem apoio às reivindicações do Cpers.

Um grupo de alunos ficou em frente à escola por cerca de meia hora, antes do horário das aulas. Além de apoio às reivindicações da entidade sindical, os jovens pediam melhorias na escola e investimentos para modernizar os educandários. Hoje, uma nova mobilização ocorre às 9h na escola Reynaldo Affonso Augustin.

Para o aluno Tárlisson Bianchin Silva, 16, o valor repassado para a merenda escolar é absurdo e deveria ser repensado. “Quem come para R$ 0,36? É uma bolacha? Nem isso.”

Assim como ele, a estudante Sabrina Herrmann, 15, também exige melhorias nos investimentos à escola. Salienta a necessidade de mais verba. A aluna Rafaela Faleiro, 17, considera os professores injustiçados.

Negociações

Representantes do sindicato e do Estado fizeram a primeira reunião para tentar encerrar a greve.

Após cerca de uma hora e meia, o encontro acabou sem definição. O fim do parcelamento dos salários da categoria, regularização dos repasses às escolas e o pagamento do piso estavam entre os pedidos do Cpers.

Eles também são contra o projeto que muda a classificação de entidades privativas sem fins lucrativas como organizações sociais. Para a entidade, a medida seria uma forma de terceirizar parte do serviço público.

Segundo o coordenador de comunicação do Cpers, Enio Manica, a categoria foi desrespeitada pela ausência de secretários do governo Sartori.

Estudantes auxiliam na remobilização da categoria

Após o fim da greve do ano passado, professores se afastaram do Cpers e não se organizaram para a paralisação de 2016. Porém, o apoio dos alunos trouxe fôlego à categoria. “É a primeira vez que os alunos estão na luta conosco. E isso é muito positivo, pois eles perceberam que a Educação corre risco”, ressalta Manica.

“Não podemos iludir dizendo que há dinheiro”

Na avaliação da coordenadora- adjunta da 3ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Greicy Weschenfelder, as reivindicações apresentadas pelos professores são legítimas, mas é preciso levar em conta o panorama financeiro do Estado.

De acordo com Greicy, as demandas ligadas à remuneração dos profissionais tendem a ser as mais delicadas, apesar de reconhecer a defasagem.

Segundo ela, com o panorama financeiro exige uma avaliação ampla sobre a origem dos recursos. “A luta da categoria está sendo levada em consideração, mas não podemos iludir dizendo que há dinheiro para o pagamento do piso.”

Autonomia dos alunos

Para o coordenador pedagógico da 3ª CRE, Fábio Luís Malmann, a participação de estudantes na busca por melhoria no ensino demonstra uma evolução e a democratização do ambiente escolar.

Na análise dele, as reivindicações são parte de um movimento natural e saudável. O envolvimento dos estudantes demonstra uma maior capacidade de autonomia entre os jovens, diz.

Malmann minimiza a deficiência estrutural das 89 escolas do Vale. De acordo com ele, desde a nova gestão da regional, foi mantido o contato com representantes dos educadores para tentar atender as urgências. Salienta a tentativa de reduzir o déficit de professores e a continuidade de projetos ligados à educação.

A mobilização aproxima de novo estudantes e professores

Na avaliação do doutor em Sociologia, Cesar Goes, a participação dos estudantes na greve dos professores aponta para uma reorganização do movimento secundarista. Goes compara as ações atuais com a participação estudantil na luta contra o golpe militar de 1964.

A Hora – Como o senhor avalia o movimento de ocupação das escolas feito pelos estudantes?
Cesar Goes – Em última análise o RS entra dentro desse processo que tem marcado a retomada da mobilização estudantil, principalmente secundarista, desde as ocupações de escolas em São Paulo no ano passado. Então, cedo ou tarde, esse movimento chegaria aqui. Basicamente ele está vinculado ao processo, primeiro de dificuldade de pagamento dos professores, mas fundamentalmente do estrangulamento de verbas para a manutenção mínima das escolas. O movimento começa a reproduzir as ações já características do eixo Rio-São Paulo.

Esses movimentos são orgânicos e partem dos alunos, fazendo inclusive a ação inversa, com os adolescentes influenciando a participação dos professores. Que frutos esse tipo de mobilização pode trazer para a educação?
Goes – Pontualmente não tem como medir isso, salvo reivindicações mais imediatas, especialmente no que diz respeito a estrutura das escolas e na regularidade dos serviços. Do meu ponto de vista isso não terá um impacto real para que o estado traga algum aumento para os professores, já que o governo está em um comportamento muito cômodo que é se reproduzir em cima da crise, dizendo que tem de gerenciá-la e não construir alternativas. Mas, embora não tenha efeito sobre o salário, ele é importante pois ativa a sociedade para essa questão. A mobilização estudantil aproxima de novo estudantes e professores.

As ocupações estão ampliando o espectro da questão salarial e indo para outras áreas. Como essa mobilização se mantém daqui para frente?
Goes – O maior saldo é o ressurgimento das instâncias de deliberação estudantil e do movimento secundarista, e a formação de uma camada de lideranças. Não há possibilidade de manter um pique de mobilização permanente por muito tempo. Acho que vamos assistir ao aprofundamento das ocupações nas escolas e o exercício ativo da ideia de cidadania com o bem público. Esses movimentos serão muito positivos.

Que paralelo é possível traçar com outros processos encabeçados por estudantes?
Goes – O paralelo mais adequado é com o início da ditadura e da importância da revitalização do movimento estudantil, pois os secundarista naquele momento tinham muita importância também. Então o momento comparável é o período entre 1964 e 1968.

Como você avalia a resposta do governo a esse movimento de ocupação?
Goes – Eu não tenho muita dúvida, o Estado vai negociar por um tempo muito curto e depois vai usar a força policial para tirar os manifestantes. A gente corre o risco de ver uso de bombas de efeito moral, e o fato de ser menor ou não, é uma situação relativa. E o fato de serem menores não impede para o uso de meios dissuasivos. Eles vão usar da violência e está acabado.

O uso da violência contra adolescente não choca mais a sociedade?
Goes – Em parte. Um grupo vai condenar. Agora a classe média está muito alimentada por uma ideia constituída de legitimidade da violência do Estado. Então não acredito que a classe média vá condenar a ação policial, pelo contrário.

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