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Jornal A Hora

Estado

Publicada em 21/05/2016

Realidade das escolas afasta jovens da docência

Falta de estrutura, baixos salários e professores desmotivados são o cenário da educação. Como resultado, poucos jovens se interessam em seguir carreira na docência. A atuação do educador ultrapassa a sala de aula. Muitos fazem o papel de pai, mãe, de psicólogo. Para defender mais qualidade na educação, alunos vão às ruas e ocupam colégios.

Crédito: Anderson Lopes falta de estrutura, salários baixos e professores desmotivados fazem parte do quadro da educação da rede estadual e afastam o interesse dos jovens em seguir a profissão. Na primeira semana de greve, estudantes protagonizaram movimento para defender interesses dos docentes
falta de estrutura, salários baixos e professores desmotivados fazem parte do quadro da educação da rede estadual e afastam o interesse dos jovens em seguir a profissão. Na primeira semana de greve, estudantes protagonizaram movimento para defender interesses dos docentes

O sucateamento da educação pública na rede estadual interfere nas escolhas profissionais dos jovens. Estudos mostram que apenas 2% dos alunos do Ensino Médio demonstram interesse em cursar Pedagogia ou alguma licenciatura, caminhos para a carreira de professor.

Os problemas relatados pelos educadores são os mesmos faz, no mínimo, 20 anos. Diante dos insucessos em conseguir atingir as demandas, educadores se desestimulam, e as adesões nos movimentos do Cpers, sindicato que já foi considerado o maior da América do Sul, diminuem. Diversos fatores podem explicar essa tendência, desde a redução na capacidade de representação, até a decepção dos professores com a profissão.

A conselheira do Cpers, Neida de Oliveira, reconhece os entraves para mobilizar os professores para ações do sindicato na região. Na avaliação dela, o Vale tem um histórico de dificuldade na mobilização. Diante do momento atual, com ocupações e maior participação dos estudantes, acredita que a greve deflagrada nessa segunda-feira tende a ganhar proporção.

Novos professores encontram cenário pouco promissor

Todo esse cenário cria um clima pouco propício para novos professores, como o caso de Fernanda Klafke, 29. Formada em Ciências Sociais, ela assumiu a vaga de professora em novembro de 2012, e foi designada para as escolas Castelo Branco e Érico Veríssimo ambas de Lajeado. Além de lecionar em duas escolas, Fernanda ainda precisa dar aulas sobre matérias diferentes da sua formação.

“Eu tive que dar aula de História e Ensino Religioso. Cheguei cheia de gás para trabalhar Sociologia e não ministrei essa matéria”, relata. Diante disso, ela precisou encarar a desconfiança dos colegas mais velhos. “Comecei a dar aula com 25 anos, motivada, querendo mudar o mundo, e a recepção foi ‘nossa, tu é muito nova, não vai aguentar.’”

Na adolescência, Fernanda não imaginava ser professora. As dificuldades aliadas às decepções fizeram pensar em desistir da atividade. “Falta professor, o que é comum. Temos de substituir inventando uma aula do nada.” O que a mantém em sala de aula é o “desejo de mudar o mundo.”

Colega de Fernanda no Colégio Érico Veríssimo, Magda Jandrey Pereira, 20, afirma enfrentar problemas parecidos, especialmente a desconfiança dos colegas mais velhos. Diferente de Fernanda, que descobriu o interesse pela carreira em meio à faculdade, Magda afirma que sua “paixão” pela sala de aula começou cedo. “Eu fiz o curso do Magistério com 14 anos, na época apenas para ampliar os conhecimentos do Ensino Médio. Mas eu me encantei com a profissão, mesmo sabendo de todos os problemas.”

Apesar do encantamento, a escolha de Magda gerou desconfiança dos familiares. “Na época eu e minha mãe brigamos por eu decidir ser professora, e até hoje meus amigos dizem para eu trocar de profissão”. Mesmo jovem, ela afirma já ter passado por diversas outras áreas, e, mesmo assim, não se vê em outra profissão. “Trabalhei em comércio e outras coisas, ás vezes até ganhando mais. Mas não saio da sala de aula, pois é aqui que posso mudar o mundo”, revela.

Carreira não gera interesse de adolescentes

Os baixos salários e as condições de trabalho são alguns dos fatores que afastam os jovens de buscar a vida de professor. Segundo a pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC) em 2013, apenas 2% dos estudantes do Ensino Médio têm interesse em ser professores. Com isso, a renovação do quadro tende a ficar prejudicada nos próximos anos.

Porém, o abandono na educação parece ter chegado ao limite também para os estudantes. Durante a semana, eles ocuparam escolas e protestaram contra o governo do Estado. Além do apoio aos professores, os alunos gaúchos reivindicam melhorias nos prédios das escolas, mais professores, entre outras reclamações.

O movimento tem estimulado a participação do magistério, invertendo assim a lógica. Agora, muito alunos influenciam os professores. O colégio Érico Veríssimo foi ocupado nessa quarta-feira à noite. Além disso, os adolescentes realizaram protestos em Teutônia, Santa Clara do Sul e Lajeado. A última passeata foi registrada nessa sexta-feira, quando estudantes do Castelinho se uniram aos colegas do Érico durante protesto.

A semana de protestos no Vale

A primeira escola sem aulas na região foi Reynaldo Affonso Augustin em Teutônia, onde alunos realizaram manifestações desde segunda-feira. Mesmo sem a adesão dos professores a greve, o colégio não está tendo dias letivos devido as ações. Além do Augustin, o município também teve manifestação no colégio Gomes Freire de Andrade, na quinta-feira. No mesmo dia, os adolescentes de Santa Clara também protestaram.

Nas demais cidades as ações dos estudantes foram crescendo ao longo da semana. Em Lajeado o Érico realizou a primeira atividade na segunda-feira, mesmo dia em que os jovens do Castelinho fez sua primeira atividade. Ontem, os alunos das duas escolas realizaram mais um protesto, bloqueando o trânsito por cerca de meia hora e criticando Sartori.

Cpers tem dificuldade em representar categoria

Com redução drástica no quadro de sindicalizados, o Cpers sente uma grande dificuldade em mobilizar o magistério. Neida de Oliveira atribui a situação à falta de investimentos, desmotivação dos profissionais e o não cumprimento de acordos entre Estado e sindicato. Segundo ela, o problema se agravou há cerca de um ano e meio, quando aumentaram as dificuldades nas negociações com o governo e a pressão sobre a categoria.

As cobranças, segundo ela, não restringem à relação com o governo do Estado, mas também dentro das escolas. No caso do Vale, Neida afirma que as dificuldades estruturais são menos graves em relação ao restante do estado, o que também acaba afastando pessoas das greves. Entretanto, ela atribui essa situação melhor à maior participação da comunidade escolar na rotina das escolas.

Com um mais envolvimento da sociedade nas discussões por melhorias no serviço prestado, acredita haver um ganho de representatividade para a categoria. De acordo com ela, parte da desmotivação da classe é efeito do histórico de decisões governamentais.

“Nossa identidade profissional vem sendo violentada pelos baixos salários e condições de trabalho. Fomos sendo desvalorizados e isso afeta a dignidade da profissão.”

Para o coordenador pedagógico da 3ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRE) e professor, Fábio Luís Mallmann, o panorama econômico é outro fator influente na força sindical de diferentes setores. Salienta, no entanto, a importância da representatividade de classes dentro do ambiente democrático.

Para ele, a situação encontrada na educação não é exclusividade do estado e demonstra a necessidade de um aprofundamento do debate sobre estrutura e funcionamento do setor no país. Ele reconhece a defasagem salarial da categoria, mas indica situação semelhante em outras áreas de atuação, em referência à média salarial.

Mallmann indica andamento dos debates sobre a Base Nacional Comum Curricular e a atuação do Estado na tentativa de reestruturação do Ensino Fundamental e a ampliação das escolas em tempo integral. De acordo com o coordenador, nesse panorama, a atuação do sindicato ganha mais importância como forma de defender melhores condições de trabalho, estruturais e de funcionamento das escolas.

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