Versão Impressa

Jornal A Hora

Vale do Taquari

Publicada em 24/05/2016

Alunos protagonizam defesa pelo ensino

Contra o sucateamento dos colégios públicos da rede estadual e reivindicando salários justos aos professores, estudantes da Érico Veríssimo se inspiram em movimentos de ocupação de escolas

Crédito: Eduardo Amaral Ocupação da Érico começou na quarta-feira,18. Em meio a reuniões sobre os rumos do movimento, estudantes dividem responsabilidades
Ocupação da Érico começou na quarta-feira,18. Em meio a reuniões sobre os rumos do movimento, estudantes dividem responsabilidades

Alunos da escola Érico Veríssimo completam seis dias de ocupação. No primeiro fim de semana do ato, o A Hora acompanhou o movimento durante 26 horas ininterruptas. As atividades dos alunos, com supervisão de alguns professores, mostraram estudantes ainda surpresos com a própria atitude e encontrando métodos para manter o ato.

Apesar de terem se inspirado nas ações em outras cidades do RS, o movimento no Vale tem características singulares. A primeira diferença está na continuidade das aulas curriculares para professores e alunos que não aderiram à paralisação.

Outra diferença está no fato de os estudantes não terem acesso a todas as dependências do colégio. Com os organizadores, estão as chaves da sala 14, que serve como dormitório e local de reuniões, além do espaço destinado ao Grêmio Estudantil. O acesso à cozinha é limitado aos horários em que há funcionários ou professores da escola.

Rotina da ocupação

As tarefas foram divididas em pequenos grupos, que cuidavam desde a alimentação até a portaria. Na sexta-feira, o jantar começou a ser preparado por volta das 21h30min. Tudo com tempo cronometrado, pois a cozinha seria fechada às 22h30min.

Enquanto cozinhavam, os estudantes discutiam o futuro da mobilização e como será a recepção na volta às aulas. Após o jantar, eles se reuniram para fazer uma avaliação do dia e também para se prepararem para o sábado, quando a principal atividade programada era um luau. O evento buscava chamar mais pessoas para a ocupação.

A grande preocupação foi a questão da segurança. “Nosso movimento é pacífico, então temos que ter muito cuidado para ninguém entrar com bebidas”, ressaltavam enquanto decidiam a melhor forma para garantir a segurança. Na divisão de tarefas, decidiram manter um aluno na portaria para fazer a triagem dos participantes.

Às 9h30min de sábado, todos estavam em pé. Enquanto alguns faziam a higiene, Paulo de Tarso, 17, preparava o café na sala do Grêmio Estudantil. O aluno do 1º ano diz ter participado de outros protestos. “Me sinto vivo fazendo quando estou em uma manifestação.” Ele destaca a necessidade de privações para poder fazer mudanças.

O café da manhã foi a única refeição garantida aos ocupantes, isso porque sem a chave da cozinha eles não tinham como preparar o almoço. Durante o sábado, os alunos concentraram as atividades na preparação do luau, iniciado às 20h. O evento teve a participação de estudantes de outras escolas.

Por volta das 11h, uma das vice-diretoras esteve no local e se comprometeu a voltar à escola até as 13h para que os estudantes pudessem almoçar. Apesar do acordo verbal entre representantes da diretoria e alunos, ninguém esteve no local para abrir a cozinha.

O almoço foi garantido graças à colaboração do Cpers, que foi comunicado da dificuldade e levou cachorro-quente para os alunos.

A gente vê que os professores estão tristes, porque o salário é baixo e ainda está atrasado. Vemos que eles trabalham por amor mesmo.”

Lucas Ritter Estudante da Érico

Solidariedade é uma das motivações

Entre os principais motivos apontados pelos manifestantes, está a preocupação com o futuro da educação pública e com as condições dos colegas de outras escolas. Todos ressaltam a qualidade do ensino e da infraestrutura da Érico. Todas as salas têm condicionadores de ar, por exemplo. Investimentos que partem da própria comunidade escolar.

Depois de seis anos longe dos estudos, Carlos Alf, 23, ingressou no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) do colégio. Ele é um dos que destaca a boa situação da escola em comparação com outras instituições. “O nosso colégio é bom. Não temos os problemas de outros. Então, estamos fazendo isso por eles também”, afirma Ritter ao justificar sua participação no movimento.

Ela é uma novidade na vida de Alf. Outra preocupação do jovem, que sonha seguir a carreira de professor de Educação Física, é o futuro do ensino.

Ele afirma que tem sofrido contestações por integrar o movimento. “Minha namorada, familiares e amigos estão surpresos e dizem que não vai adiantar nada. Mas é que eles estão de fora e não entendem”, ressalta.

Também estudante do EJA, Lucas Ritter, 20, ficou quatro anos fora da escola. A presença dele na ocupação, diz, é resultado do descaso governamental. “A gente vê que os professores estão tristes, porque o salário é baixo e ainda está atrasado. Vemos que eles trabalham por amor mesmo.”

Diferente dos colegas, o engajamento da presidente do Grêmio, Agatha Chaves, 15, é antigo. “Eu sempre fui envolvida com movimento estudantil e por isso estou recebendo apoio da minha família”, afirma.

Acredita que o modelo educacional precisa mudar para poder ser atrativo ao aluno. “Entendemos que a escola tem de estar inserida na sociedade. Se ela for integrada, o aluno vai querer participar.”

Estudante do 3º ano, Ediny Goergen, 17, se mostra preocupada com a recepção dos professores contrários à ação. “Eu temo que alguns professores peguem no meu pé (sic) por eu estar aqui”, afirma. Apesar do medo, a adolescente realça a necessidade de participar. “Eu não conseguiria dormir se não estivesse aqui.”

Diálogo com a direção

O grupo tenta manter uma relação pacífica com a diretoria, mesmo assim, os momentos de tensão são perceptíveis. Segundo a dirigente do Grêmio, após decidirem a ocupação, os alunos começaram a sentir uma forte resistência da diretoria.

Apesar disso, Agatha contemporiza e tenta manter a boa relação com a diretora. Na avaliação dela, o atrito ocorre pela surpresa na ação dos alunos. “É uma novidade para eles, mas também é para nós. Estamos tomando todos os cuidados para manter a ordem.”

Os manifestantes preparam atividades na escola. Já estão programadas aulas públicas ao longo da semana.

Em todo o RS, 128 escolas estão ocupadas por alunos.

Polêmicas são evitadas

Uma das marcas do grupo que ocupa a escola é a heterogeneidade. Reúne jovens engajados, que já participaram de outras manifestações, até quem nunca esteve em um protesto. Também é possível ver posições diferentes sobre temas polêmicos, porém, os debates que extrapolam a ocupação são evitados.

São evitadas discussões sobre partidos políticos. Segundo os integrantes do movimento, a questão da educação não deve ser “nem de esquerda, nem de direita, mas de todos”. Com essa percepção, os debates se concentravam nas reivindicações, como melhor infraestrutura e mais professores. Em especial para que os docentes ministrem aulas dentro de sua formação.

Notícias relacionadas
Educação

Univates abre processo seletivo para o curso de Medicina

Candidatos podem se inscrever até dia 21 de janeiro

Estado

Piratini recua e estuda não votar pacote em janeiro

Incerteza com relação ao número de votos para aprovação de sete projetos na Assembleia Legislativa motiva… Leia mais

Educação

Aplausos para os pioneiros da Medicina na Univates

Em cerimônia histórica, universidade do Vale do Taquari formou os primeiros 19 médicos no anoitecer de hoje… Leia mais