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Jornal A Hora

Vale do Taquari

Publicada em 07/10/2016

Ensino Religioso ganha mais espaço nas escolas da rede estadual

Disciplina de Seminários Integrados deixa de ser uma matéria separada e Ensino Religioso ganha espaço como uma área específica do conhecimento. Alterações passam a valer já em 2017.

Crédito: Thiago Maurique Alterações foram debatidas, no colégio Otília Corrêa de Lima. Conforme o coordenador pedagógico da 3ª CRE, Fábio Mallmann, imposições não geram resultados efetivos no sistema educacional
Alterações foram debatidas, no colégio Otília Corrêa de Lima. Conforme o coordenador pedagógico da 3ª CRE, Fábio Mallmann, imposições não geram resultados efetivos no sistema educacional

Diretores e coordenadores pedagógicos das escolas estaduais de Lajeado participaram nessa quarta-feira de uma reunião com representantes da 3ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE).

Foram debatidas alterações na grade curricular para o próximo ano, entre elas, o fim das aulas específicas de Seminários Integrados e a transformação do Ensino Religioso em uma grande área de conhecimento.

De acordo com a coordenadora da 3ª CRE, Greicy Weschenfelder, a mudança foi planejada com base em estudos. “Agora chegou a hora de pegar os regimentos, refletir, ver erros e acertos, sempre pensando no nosso aluno.”

Segundo ela, a nova grade curricular busca estabelecer uma educação integral ao estudantes, visando a formação de um cidadão crítico, além de melhorar o desempenho em avaliações como o Enem e os vestibulares.

Conforme Greicy, as reuniões com as equipes diretivas visam discutir e estabelecer as alterações para o próximo ano. Coordenador pedagógico da 3ª CRE, Fábio Mallmann defende a atualização do ensino diante da velocidade das mudanças sociais e do avanço tecnológico.

“O momento exige uma avaliação do trabalho e do currículo da escola e daquilo que a instituição de ensino e do seu significado na comunidade onde está inserida”, afirma. Segundo ele, o debate com os educadores e o corpo diretivo viabiliza o tempo necessário para os colégios se atualizarem.

“Reforça a concepção de uma educação que atende um projeto de país, de uma sociedade capaz de realizar seus sonhos sem perder do horizonte a responsabilidade social”, acredita. De acordo com Mallmann, o papel da CRE é alertar as escolas sobre a legislação para que as instituições tenham o suporte jurídico para implementar as mudanças de acordo com a realidade de cada comunidade.

Para a diretora da escola Otília Corrêa de Lima, Maristela Secco, os debates com representantes de diferentes instituições ajudam a estabelecer consensos e conflitar ideias divergentes. “Se não pararmos para pensar e reconstruir, vamos continuar usando um modelo defasado.”

Para a diretora, o principal desafios dos educadores hoje é como construir o conhecimento em jovens cada vez mais inseridos no ambiente virtual. Esse trabalho pode evitar a defasagem do ambiente escolar, diz a educadora.

Mudanças Recentes

Os dois últimos governos gaúchos também estabeleceram planos para mudar a educação nas escolas estaduais.

2007 – Governadora Yeda Crussius (PSDB) criou o Lições do Rio Grande. O projeto custou R$ 30 milhões aos cofres públicos e visava formar 21 mil professores, além de distribuir livros e cadernos de referência curricular para toda a rede estadual.

2011 – Com a mudança de governo, o Lições do Rio Grande foi descontinuado. No ano seguinte, o governo Tarso Genro (PT) estabeleceu uma reestruturação no Ensino Médio, com a criação do Politécnico. A proposta organizou o currículo de acordo com as áreas de conhecimento e alterou o método de avaliação, eliminando as notas e estabelecendo o desempenho conforme conceitos.

2015 – Abertamente criticadas pelo atual secretário estadual de Educação, Luís Antônio Alcoba de Freitas, as mudanças estabelecidas por Genro começaram a perder força no ano passado. Em setembro deste ano, Freitas culpou o modelo pelos resultados insatisfatórios das escolas gaúchas no Enem e prometeu mudanças no currículo para 2017.

Reforma horizontal

A diretora da Otília Corrêa de Lima enaltece as diferenças entre a proposta discutida no RS e a tentativa de reforma educacional proposta pelo governo federal. Considera lamentável a tentativa de imposição de um modelo sem consultar os profissionais do setor.

O coordenador pedagógico da CRE pensa ser inviável qualquer tipo de alteração curricular sem essa discussão.

“Ninguém muda por decreto ou por força de lei”, enfatiza. Segundo ele, a educação é um processo cuja efetividade depende da inclusão de toda a comunidade escolar.

“Esse movimento reforça uma política de autonomia para as escolas”, ressalta.

Para ele, as instituições têm mais capacidade para entender como o trabalho deve ocorrer para dar conta das particularidades de cada aluno e comunidade.

Nova base nacional

A ascensão do Ensino Religioso como uma das cinco grandes áreas do conhecimento foi definida durante os debates do Plano Nacional de Educação. Em debate desde junho de 2014, ele estipula a Base Nacional Comum Curricular, prevista desde 1988 na Constituição.

A mudança deverá ser implementada em todas as escolas a partir de 2018. Hoje o Ensino Religioso é uma disciplina da área de Ciências Humanas, junto com História, Geografia, Sociologia e Filosofia.

"Estamos construindo uma nova forma de pensamento."
“Estamos construindo uma nova forma de pensamento.”
Crédito: Anderson Lopes

“Queremos formar um aluno cidadão, que veja sentido na escola.”

A Hora – Que mudanças serão estipuladas a partir do ano que vem?

Greicy – O Seminário Integrado deixa de ser uma disciplina da grade curricular e se torna uma forma de prática. Ele buscava fazer pesquisa para tornar esse aluno mais crítico, mais leitor e apto a fazer projetos. Essa prática ocorrerá em todas as disciplinas, mas não será uma aula em separado. Teremos o Ensino Religioso como a quinta grande área do conhecimento. É uma área que vem com força total, ligada aos direitos humanos. Também vamos refletir a avaliação. Nossos pais, alunos e professores ainda não entendem a prática de competências e habilidades.

O nsino de religião nas escolas é polêmico e motiva debates históricos diante do direito à liberdade de crenças. Como isso será trabalhado?

Greicy – A disciplina é de suma importância diante da sociedade contemporânea. As pessoas fazem tudo pelo imediatismo, pautado no individualismo e não no coletivismo. Existe uma falta de crença, não religiosa, mas crença nas relações, no amor e na possibilidade de transformação da sociedade. Também tem a questão do respeito aos direitos humanos. Isso é ensino religioso. De forma alguma devemos trabalhar algum tipo de religião, seja católica ou evangélica, ou qualquer outra. Não vamos priorizar a religião, e sim a espiritualidade e valores que estão em falta na sociedade.

Qual sua avaliação sobre os resultados do Enem na região e de que forma essa reestruturação pode melhorar esse desempenho?

Greicy – Estamos construindo uma nova forma de pensamento. É cedo para colhermos resultados. Claro que não estamos satisfeitos com o desempenho atual. Mas não podemos culpar a escola, tão somente. É culpa de toda a sociedade. Nós precisamos apostar mais na educação e fazer com que nosso aluno encontre sentido na escola. A pessoa mais motivada vai ter melhores resultados nas avaliações. Não precisamos apontar o dedo, e sim pensarmos juntos outras estratégias e envolver toda a comunidade escolar nisso.

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