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Jornal A Hora

Vale do Taquari

Publicada em 08/10/2016

Menos de 10% dos alunos estudam na área rural

Dados preliminares do Censo Escolar 2016 monstram os reflexos da centralização do ensino. Dos 54.150 alunos do Vale do Taquari, apenas 5.271 estão nas escolas do interior

Crédito: Fábio Kuhn Ex-aluna da Henrique Griebler, Forquetinha, Janete Grunewaldt se recorda da época em que o educandário tinha mais de cem alunos. Escola fechou devido à diminuição das matrículas no interior
Ex-aluna da Henrique Griebler, Forquetinha, Janete Grunewaldt se recorda da época em que o educandário tinha mais de cem alunos. Escola fechou devido à diminuição das matrículas no interior

Salas vazias e uma quadra esportiva abandonada restaram da Escola Municipal Henrique Griebler. Localizado em Arroio Alegre, Forquetinha, o educandário fundado em 1960 chegou a ter Ensino Fundamental completo e mais de 130 alunos na década de 90. Em 2004, um novo prédio foi inaugurado para melhorar o atendimento.

Entretanto, o número de alunos foi reduzindo com o decorrer dos anos. Quando a escola encerrou as atividades, em 2010, eram menos de 15. “As turmas eram multisseriadas. Acho que o aprendizado acabava prejudicado por causa disso”, relata a ex-professora e ex-diretora, Aldinha Bergmann Schmitz.

Os poucos estudantes que restaram na Henrique Griebler foram transferidos à Escola João Batista de Mello, para o descontentamento inicial da comunidade. “Nós (comunidade) não aceitamos muito bem no começo. Sempre tinha movimento aqui. Sem a escola, tudo ficou quieto”, relembra a moradora Ilse Verruck, 64.

Passados seis anos, há um consenso entre os moradores que a desativação foi necessária. “Era bom porque era perto de casa, mas tinha poucos alunos. Se ainda tivesse aberta, não sei se teria dez hoje”, argumenta a agricultora e ex-aluna Janete Grunewaldt, 28. Sem a possibilidade de sediar aulas, a administração municipal já chegou a cogitar a utilização do prédio para fins industriais.

A situação do escola de Forquetinha não é isolada. Dados preliminares divulgados pelo Censo Escolar 2016 evidenciam o desaparecimento das escolas no interior e a centralização do ensino.

Dos 54.150 alunos do Vale do Taquari, 48.870 estudam em instituições de ensino localizadas na área urbana – número correspondente a 90,27%. Restam apenas 5.271 estudantes (9,73%) na área rural (veja dados dos 36 municípios na tabela).

Conforme os dados do censo, oito municípios sequer têm escolas no interior (Colinas, Doutor Ricardo, Forquetinha, Lajeado, Muçum, Nova Bréscia, Travesseiro e Vespasiano Corrêa). Chama a atenção o fato de a maioria dos municípios ter a economia praticamente voltada ao setor agrário.

Em Colinas, a nucleação do ensino nas escolas do centro ocorreu em 1997. “A gente percebe que as escolas do interior fortalecem as comunidades, mas não havia como manter as atividades com três ou quatro alunos”, ressalta a atual secretária de Educação, Tânia Fensterseifer.

Ela percebe que a centralização é positiva, pois permite a ampliação da estrutura física e a realização de atividades extra-curriculares. “Aqui temos laboratório de informática, aulas de música, dança e patinação. Não seria possível implantar essa estrutura em diversas escolas do interior.”

Para aproximar os alunos do meio rural, Tânia enaltece que as escolas oferecem disciplinas voltadas à agroecologia.

Secretária de Educação de Forquetinha, Ana Paula Dalmoro Villa, também percebe as dificuldades financeiras em contratar profissionais para várias escolas. “Investir na centralização das atividades qualifica o atendimento”, percebe. A escola Henrique Griebler foi a última do interior a ser desativada no município de 2,5 mil habitantes.

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Crédito: Divulgação

Entre as exceções

A Escola Estadual de Ensino Médio São Miguel é um dos poucos educandários contra as tendências e que se fortalece. Localizada em Linha Sítio, Cruzeiro do Sul, a instituição de ensino atende 173 alunos do 6° ano ao Ensino Médio. As aulas ocorrem em três turnos.

“Ter uma escola no interior dá vida a comunidade”, enaltece a diretora Simone Inês Schmitt. Para ela, as atividades diversificadas acabam atraindo alunos de outras comunidades como São Rafael, Picada Aurora e até do centro.

Além de uma horta escolar, a São Miguel tem criação de porcos e galinhas. No ano passado, os alunos plantaram mais de 60 árvores frutíferas e criaram um pomar.

Escolas fechadas

No dia 11 de setembro de 2011, o jornal A Hora mostrou a tentativa dos Executivos de municipalizar antigos prédios de escolas estaduais. Conforme levantamento realizado na matéria “Abandono”, 43 prédios estavam sem uso em 18 municípios do Vale.

censo“Para que uma escola seja mantida na zona rural deve-se fazer uma análise responsável[…]”

Acompanhe a entrevista com Regiane Mallmann, assessora de educação ambiental/rural da 3ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE).

A Hora – Cidades como Forquetinha, Colinas e Travesseiro são quase essencialmente agrícolas. Como explicar que todos os alunos são do meio urbano?

Regiane Mallmann – Atualmente, verifica-se tanto no contexto mundial quanto regional a diminuição da atividade agrícola familiar, do número de famílias que permanecem no campo, dificultando a continuidade das atividades das escolas no meio rural.

No que se refere à educação, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9394/96) discorre: “na oferta de Educação Básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação, às peculiaridades da vida rural e de cada região” (art. 28). Nesse sentido, preconiza a qualidade na oferta de ensino, sendo que em alguns locais ocorre a centralização no atendimento dos educandos, baseado na diminuição do número de crianças nas comunidades de origem e na qualidade de atendimento da educação.

O ensino das escolas estaduais localizadas na área urbana, mas que atendem alunos oriundos do meio rural, tem características diferenciadas, com projeto político pedagógico voltado para a realidade onde estão inseridos.

A inexistência de escolas no interior é prejudicial ou benéfica aos alunos? Por quê?

Regiane – A escola do campo deve ser valorizada para assegurar o respeito às culturas locais. Constitui espaço de valorização da história e da relevante função social das pessoas que vivem na zona rural.

Para que uma escola seja mantida na zona rural, deve-se fazer uma análise responsável levando em consideração a realidade de cada comunidade rural e a qualidade da oferta de ensino para que as crianças tenham assegurado o pleno acesso ao desenvolvimento de suas habilidades e competências, o que pode não ocorrer na sua integralidade quando temos um número muito reduzido de alunos.

Na sua opinião, a centralização do ensino em escolas urbanas pode ser uma tendência para o futuro?

Regiane – A questão não é analisar tendências, mas perspectivas para permanência das escolas rurais em suas comunidades, baseadas em um estudo criterioso em relação às questões econômicas, pedagógicas e tecnológicas, para que o atendimento educacional prime pela sua qualidade.

 

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