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Jornal A Hora

Comportamento

Publicada em 01/06/2019

O transtorno da selfie

Fotos editadas por aplicativos podem desencadear sérios transtornos psicológicos e distorção da realidade

Using smartphone
Using smartphone

Começa com a mania de tirar dezenas de fotos até conseguir uma boa o suficiente para postar nas redes sociais. Aos poucos, os filtros digitais são adicionados. Uns afinam o maxilar, aumentam os olhos, colocam cílios maiores. Deixam a pele aparentemente lisinha e saudável. Tudo não passa de uma brincadeira até que gradualmente a pessoa não se reconhece mais ao olhar-se no espelho. É onde entram os esteticistas e, nos casos mais graves, os cirurgiões plásticos.

“Precisei procurar tratamento. Em um ano e meio foram seis cirurgias plásticas e incontáveis idas aos centros de estética. Até que a minha família interviu”, conta a jovem estrelense Luísa, 32, (nome fictício para preservar a imagem da entrevistada). O desejo de se transformar na versão que o aplicativo do celular mostrava crescia à medida que a jovem se olhava no espelho e não se reconhecia como era naturalmente.

“Virou um Transtorno Dismórfico Corporal, uma espécie de distorção daquilo que eu enxergo e espero do meu próprio rosto e corpo”, relata.

A estudante e auxiliar administrativa conta que hoje, após o tratamento psicológico, feito em Porto Alegre, percebeu que só se deve recorrer aos esteticistas e cirurgiões quando necessário para a saúde ou imprescindível para a autoestima. “Cirurgias requerem responsabilidade e não devem ser motivadas por um padrão social inatingível de beleza”, enfatiza.

Pacientes procuram cirurgia para serem como as suas versões com filtro das redes sociais”

 

Ruben Penteado cirurgião plástico

Observar as publicações frequentes de blogueiras dentro de centros de estética, vendendo como normal a rotina de aplicações e mudanças físicas, foi um dos gatilhos para Luísa. “Não aceitava mais me olhar no espelho. Quando uma foto junto dos amigos era publicada sem edição, me sentia extremamente exposta”, relembra.

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A relação saudável com as clínicas de estética só chegou depois de terapia. “Hoje faço pequenos tratamentos para a manutenção da saúde da pele. Eu me sinto bonita, mas me arrependo por ter causado tamanha agressão ao meu corpo”, confessa.

Cuidado com os Apps

A evolução da tecnologia de edição de fotos por meio de aplicativos – como o Instagram, Snapchat e o Facetune – tem aumentado a insatisfação de muitos jovens com o próprio corpo.

O nível de perfeição física, antes visto apenas em revistas, agora está em todas as mídias sociais. “À medida que essas imagens se tornam a norma, as percepções sobre beleza mudam, o que pode afetar a autoestima e desencadear transtornos dismórficos corporais” argumenta pesquisa do Boston Medical Center, em um artigo publicado no JAMA Facial Plastic Surgery Viewpoint.

Em um ano e meio foram seis cirurgias plásticas e incontáveis idas aos centros de estética. Até que a minha família me alertou”

 

Luísa portadora de TDC

 

De acordo com o diretor Centro de Medicina Integrada e cirurgião plástico Ruben Penteado, o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é uma preocupação excessiva com uma imperfeição na aparência, frequentemente caracterizada por pessoas que tentam obsessivamente esconder suas falhas visíveis. “Isso pode incluir o envolvimento em comportamentos repetitivos, como consultar dermatologistas ou cirurgiões plásticos para mudar a aparência. O distúrbio afeta cerca de 2% da população e é classificado no espectro obsessivo-compulsivo”, afirma.

O artigo americano constatou que meninas adolescentes que manipularam suas fotos em aplicativos estavam mais preocupadas com a aparência do corpo do que as demais. Aquelas com TDC, buscam as mídias sociais como meio de validação e aceitação. Pesquisas adicionais do Boston Medical Center mostraram que 55% dos cirurgiões plásticos relatam ter consultado pacientes que querem melhorar sua aparência em selfies.

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Um novo fenômeno chamado Dismorreia de Snapchat também surgiu recentemente nos consultórios de cirurgiões plásticos. “Pacientes procuram cirurgia para serem como as suas versões com filtro das redes sociais”, alerta Penteado.

Segundo a pesquisa, a cirurgia não é a melhor solução nesses casos. “Operar aparência dessas pessoas pode piorar o TDC subjacente. É imprescindível que os médicos fiquem em alerta para detectarem os casos em seus consultórios”, ressalta. Penteado recomenda intervenções psicológicas como a terapia cognitivo-comportamental e o manejo do transtorno de maneira empática e sem julgamento.

“Selfies com filtro podem fazer com que as pessoas percam o contato com a realidade, criando a expectativa de que devemos estar perfeitamente preparados, bonitos e desejáveis o tempo todo. Isso pode ser especialmente prejudicial a adolescentes e pessoas com TDC. É importante que os cirurgiões compreendam as implicações das mídias sociais na imagem corporal para melhor tratar e aconselhar os pacientes”, defende Penteado.

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