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Jornal A Hora

THE INTERCEPT EM LAJEADO

Publicada em 19/09/2019

“Esse é o tipo de combate à corrupção que queremos?”

Jornalistas Alexandre de Santi e Leandro Demori, do The Intercept, palestraram para uma plateia lotada no Teatro Univates na noite de ontem, e falaram sobre o vazamento de informações que envolvem membros do Judiciário brasileiro

Crédito: Fábio Kuhn Palestra reuniu ontem cerca de mil pessoas. Proponente do evento classificou como “debate histórico”
Palestra reuniu ontem cerca de mil pessoas. Proponente do evento classificou como “debate histórico”

Em quase três horas de um debate histórico entre a tarde e noite de ontem, a plateia que lotou o Teatro Univates tirou dúvidas e fez questionamentos a dois jornalistas que participam do trabalho jornalístico mais comentado do país no ano.

O painel sobre jornalismo investigativo e jornalismo independente no país teve como palestrantes Alexandre de Santi e Leandro Demori, editores do The Intercept Brasil. Mas, além dos estudantes profissionais da comunicação, o debate atraiu a atenção de pessoas ligadas a outras áreas, como a do Direito.
A segurança chegou a ser reforçada no campus da Univates e nas dependências do Centro Cultural, devido ao grande número de pessoas confirmadas no evento. Um protesto chegou a ser planejado pelo Movimento Direita dos Vales (MDV), contrários à presença dos jornalistas na Univates. O ato foi cancelado dias antes da palestra.

Linha do tempo e Vaza Jato

Inicialmente, Demori e Santi fizeram uma explanação sobre como se deu o trabalho conhecido como Vaza Jato. Desde junho, o Intercept têm revelado conversas entre membros da Operação Lava Jato e o então juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça, com supostas . Desde então, o veículo tem contado com parcerias com jornais e revistas de alcance nacional para a divulgação de novos diálogos.

A “linha do tempo” começa em 2013, com a onda de protestos que tomou conta do país. “A esquerda perdeu o pulso das ruas e os grupos de direita se apropriaram desses protestos de maneira inteligente e sagaz”, avalia Demori.
A partir daí, os dois relembram acontecimentos como o surgimento da Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a crise financeira pela qual passam veículos tradicionais de imprensa e o fortalecimento do sentimento anti-política, que resultou na eleição de Jair Bolsonaro.

“A Lava Jato surge com o propósito de combater a corrupção. Aí é a senha para fazer tudo o que quiser. E ela fornece notícia diária de alto poder explosivo, sem custos, para a imprensa. E isso se conecta com a anti-política. Então, surge a Vaza Jato, que consegue mostrar como parte dessa engrenagem funcionou e se é esse o tipo de combate à corrupção que queremos”, lembra Demori.

Santi, que é gaúcho, comenta que as informações vazadas não chegaram “por acaso” ao Intercept, que possui tradição em jornalismo investigativo nos Estados Unidos. “A fonte quer segurança jurídica. E nós queremos informação de impacto, de abalar as estruturas. O Intercept foi criado para fazer com o que o jornalismo seja apaixonante, a partir do leitor querer fazer parte disso”, diz.

QUESTIONAMENTOS AO INTERCEPT

Após a apresentação, jornalistas representantes de três veículos de imprensa da região – A Hora, Rádio Independente e O Informativo – fizeram perguntas aos palestrantes. Também chegaram dúvidas do público via WhatsApp, por meio do mediador do debate, Leonel José de Oliveira, professor da Univates. Confira alguns questionamentos:

Há 15 anos houve um baque na imprensa com a compra de dossiês para denegrir determinadas pessoas. E houve muita gente criticando o Intercept por supostamente “comprar” informações. Que critérios devem ser adotados quando essas informações chegam?
Intercept: Uma fonte entrar em contato e falar que tem um material é algo que acontece todos os dias conosco. A Vaza Jato não é exceção. Mas primeiro temos que verificar a autenticidade do conteúdo e se ele tem interesse público. Essas são as únicas perguntas que devem ser feitas. No caso dos áudios, eles tinham uma sequência lógica e vozes conhecidas. Compramos? Claro que não. Não se paga por entrevista. E nosso compromisso com a fonte é não revelar ela.

Como foi a repercussão da Vaza Jato em questão de fontes? Vocês estão sofrendo perseguições?
Intercept: Primeiro devemos ouvir os advogados, que são nossos consultores. Muitas fontes querem falar com a gente. Queríamos ter uma equipe maior, pois não conseguimos dar conta de tudo. E, sim, temos recebido ameaças. Posso dizer que fazer jornalismo hoje é pior do que era antes, pois as pessoas que estão no poder são mais truculentas. Eu (Leandro Demori) e o Glenn Greenwald andamos com seguranças, temos que nos cuidar mais.

A imprensa tem sido atacada de todos os lados. O próprio Intercept já sofreu críticas da esquerda. Mas, em relação a críticas de colegas da imprensa, como vocês reagem a isso? E qual o legado que fica da Vaza Jato?
Intercept: Toda crítica é bem vinda. Mas no programa Roda Viva, parecia que alguns jornalistas ouviram questões da rua e perguntavam para nós, nem sempre concordando com as ponderações daquelas pessoas. Mas, se forem jornalistas que veem isso como um trampolim, aí se trata de um comportamento mais desonesto. Quanto ao legado, é para refletir se esse é o tipo de combate a corrupção que a gente quer no país. Também é importante saber de pessoas que tinham desistido e agora querem voltar para o jornalismo.

Os vazamentos de informações tiveram o intuito de travar a Operação Lava-Jato?
Intercept: De forma alguma. O que queremos é revelar e mostrar como que funcionou todo esse processo. E acreditamos que o vazamento ajuda a Lava-Jato e fortalece a democracia. Se o Eduardo Cunha for solto amanhã, a culpa não vai ser nossa, e sim deles, que agiram de maneira irresponsável e ilegal.

O que vocês pensam sobre jornalistas que utilizam identidades falsas ou microcâmeras para obter informações?
Intercept: Depende do tamanho do caso. Quando se esgotam as possibilidades, não tem mais fontes é justificável trabalhar com uma microcâmera, por exemplo. Mas a nossa regra, do Intercept, é de ter transparência total, no limite do possível.

Quais foram os maiores erros durante a Vaza Jato?
Intercept: Nós cometemos dois erros na Vaza Jato. Um deles foi uma data, que era 2019 e saiu 2018. E outra foi quando o Glenn estava editando uma matéria e, pela pressa de querer publicar, fez um print e divulgou em seu Twitter. Só que aquelas informações ainda não estavam checadas. E havia um nome errado.

 

MATEUS SOUZA – mateus@jornalahora.inf.br

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