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Opinião

Raquel Winter Raquel WinterProfessora e consultora executiva

Publicada em 27/05/2018

Quem sentou ao meu lado

Semanalmente vou trabalhar em Porto Alegre e para o deslocamento opto pela prática e confortável viagem de ônibus. São muitas as vantagens: tranquilidade no trânsito, tempo para ler, dormir e especialmente para responder calmamente aos diversos e-mails que permanecem na pasta dos “não lidos” por tempo suficiente para merecerem a promoção para a pasta dos “esquecidos”.

Bem, o ritual básico desta viagem é escolher um assento junto a uma janela. Ao sentar, fechar as cortinas. Aprecio a paisagem, mas fico enjoada se ficar olhando-a enquanto viajo. Você deve estar pensando por que escolho um lugar junto à janela se fecho as cortinas ao sentar?

A resposta não é muito simpática, mas prefiro sentar-me em um lugar que permita maior privacidade, evitando que tenha que levantar para o outro passageiro sentar, permitindo que eu fique bem quietinha.Há mais uma vantagem em sentar à janela que é poder virar o rosto e dormir, evitando assim qualquer contato seja lá com quem se sentar ao meu lado.

Dia desses depois de embarcar, acessei meus e-mails e iniciei a saga da redação das respostas. Logo ao iniciar a digitação do primeiro e-mail, uma senhora sentou-se ao meu lado. Olhei-a superficialmente e sorri levemente, querendo que ela compreendesse que aquele sorriso significava: – Bom dia, tenha uma ótima e silenciosa viagem.

Continuei respondendo meus e-mails, quando senti a sensação de estar sendo observada. E estava. Virei os olhos e dei de cara com a senhora me olhando em silêncio, desta vez, era ela quem esboçava um leve sorriso revelado em lábios rachados pelo frio.

– Lamento – disse ela, olhando para minhas mãos que seguravam o celular.
– O que a senhora lamenta?
– Que esta será mais uma viagem em que não terei companhia para conversar. Ninguém mais conversa nas viagens de ônibus. Todos ficam aos celulares ou estão tão cansados que adormecem.
– A senhora tem razão – respondi. Façamos o seguinte, irei concluir esse e-mail que necessito responder ainda hoje pela manhã e então poderemos conversar.
– Não, imagine. Fique tranquila, foi só um comentário.

Sorri novamente, desta vez com um toque amarelado no sorriso. E continuei minha tarefa com certa dificuldade de concentração. E, ao pensar, me dei conta que há alguns anos quando viajava de ônibus sempre ouvia histórias incríveis das pessoas que sentavam ao meu lado. Algumas compartilhavam sua vida inteirinha.

Percebi então que, realmente, não haviam novas histórias. Me dei conta que toda essa reflexão poderia ser reportada inclusive para nossa maior viagem, a vida. Quem teria sentado ao meu lado durante este tempo? Seria eu uma boa companhia nessa jornada?

Talvez fosse interessante permitir que alguma companhia inesperada como aquela senhora ao meu lado pudesse me surpreender com suas histórias. E isso seria válido para a viagem de ônibus e também para a viagem da vida. Olhei para o lado e ela havia adormecido. Talvez na próxima viagem eu desembarque e saiba quem sentou ao meu lado.

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