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Jornal A Hora

Opinião

Ney Arruda Filho Ney Arruda FilhoAdvogado

Coluna com foco na essência humana, tratando de temas desafiadores, aliada à visão jurídica

Coluna publicada às sextas-feiras
Publicada em 08/03/2019

Alguma coerência

O ano de 2018 terminou cercado de dúvidas e expectativas. Entre sentimentos antagônicos de vitória e derrota, muitos esperaram ansiosos a virada para, enfim, sentir outra vez aquela agradável emoção de recomeço. Um novo ano, novos projetos, propósitos, novo governo, rumos ajustados. Também por isso é que os pontos de partida são sempre tão desafiadores e os caminhos a serem percorridos exigem alguma coerência. Senão o tempo, sempre ele, o tempo, cobra alguma coerência.

 

Antes mesmo do fechamento do ano velho, houve a polêmica dos fogos silenciosos. Vibração de alguns, dentre estes os que têm filhos pequenos, e questionamentos acerca das motivações da medida. Afinal, desde a invenção da pólvora a humanidade se deleita com o brilho e com os estrondos provocados pela criação da genialidade humana. A surpresa, ao menos para os humanistas, foi descobrir que a tal exigência do não barulho, ou a proibição do barulho, decorrera do sofrimento que o mesmo provoca nos pets. E foi do universo de proprietários de pets que emergiram as maiores expressões de aprovação. As crianças e os idosos agradecem, ainda que menos lembrados, já que serão beneficiados indiretamente com a iniciativa.

 

Ao raiar do novo ano, o apreço pela pólvora se materializa no cumprimento da promessa de devolver segurança ao cidadão de bem, aquele com mais de 25 anos, ocupação lícita, ficha limpa, sem processo criminal e não ligado a grupos criminosos. Ficou mais fácil possuir arma de fogo, seja em casa ou no trabalho.

 

E as novidades foram aparecendo, partindo da proposta anterior de reduzir o que dá. Até nos discursos o tempo é economizado, o que também impacta absurdamente na mensagem transmitida. Menos ministérios, menor reajuste do salário mínimo, olho vivo nas verbas públicas. A reforma da previdência em pauta, com a consolidação da cumulação de critérios, idade mínima e tempo de contribuição. Tudo seguindo o script que fora divulgado.

 

Na educação, uma surpresa: a universidade não é para todos, mas para poucos. Os investimentos devem se concentrar nos ensinos básico e técnico profissionalizante. Nada surpreendente para quem saudava o regime militar e proclamava que o país desejado era aquele de 30, 40 anos atrás. Pois bem, os mais experientes lembrarão que o acesso à universidade nas últimas décadas do século passado era limitado. Afinal, não havia a oferta de cursos superiores que existe hoje e o diploma era, sim, objeto de extremo desejo e um privilégio de uma elite econômica ou intelectual.

 

A porta de entrada de uma faculdade se abria basicamente para duas classes: os que podiam pagar e os que conseguiam passar no vestibular, que naquela época era de fato um obstáculo a ser superado. Outra prática comum nos anos 70, era hastear a bandeira e cantar o hino nacional nas escolas, pelo menos um dia na semana. Havia também as comemorações da “Semana da Pátria”, com a chama simbólica e os desfiles cívicos, embalados pelas bandas marciais das escolas, que passavam em frente ao “palanque oficial” onde ficavam as autoridades.

 

Hoje, em tempos de tecnologia e mídias sociais, o pedido do Ministro da Educação soa como uma tentativa de resgatar a imagem e a prática daquela escola dos anos 70. A tentativa de demonstração explícita de amor pela Pátria, de civismo, foi recebida por muitos como um retrocesso, por outros tantos como um saudável resgate. O que não ficou bem claro foi o porquê do governo voltar atrás e não levar adiante a iniciativa que, afinal, estava alinhada com o que foi prometido. Talvez as críticas ásperas, muito mais do que as defesas apaixonadas, tenham determinado o recuo, que não soou nada coerente com as promessas e propostas.

 

E a vida segue no tranquito de verão brasileiro e carnaval tardio. Afinal, não é de hoje que o ano só começa, mesmo e de fato, depois do carnaval. A morte de uma criança, acometida de uma doença que deveria estar erradicada por sucessivos programas de vacinação, fez aflorar novamente o pior resquício dos palanques. A bestialidade e o oportunismo tomaram proporções nunca antes vistas. Os fatos confirmam a máxima de Umberto Eco: a internet deu voz a uma legião de imbecis! Em verdade, mais do que dar vez e voz aos imbecis, a internet possibilitou que se identificassem os imbecis, que antes estavam reclusos nos seus círculos de relacionamento. Como a rede deu voz a todos os que a ela têm acesso, franqueou a informação, o conhecimento e o livre direito de manifestação, independentemente de consequências.

 

Daí, não dá nem pra falar de carnaval, do uso público das redes sociais, da exposição indiscriminada da miséria humana. Daí, não se pode esperar nenhuma coerência.

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