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Jornal A Hora

Opinião

Ney Arruda Filho Ney Arruda FilhoAdvogado

Coluna com foco na essência humana, tratando de temas desafiadores, aliada à visão jurídica

Coluna publicada às sextas-feiras
Publicada em 19/10/2019

Falar é cada vez mais fácil

Ele nasceu branco. Seus pais são brancos, ele teve babá e estudou em escola particular. Nunca entrou numa escola pública. Ele não tem cartão do SUS e seu plano de saúde é premium. Não acredita em Deus e está convicto que, dentre os maiores males do país, estão os nordestinos e o coronelismo que representam. As políticas sociais somente beneficiam aos vagabundos que não querem trabalhar e perpetuam o ciclo interminável dos governos populistas.

Entende que as políticas de cotas são discriminatórias e inconstitucionais, pois criam privilégios e seguem premiando os vagabundos. A Lei Maria da Penha é um exagero e acaba punindo muito homem inocente. Dirigir falando ao celular deveria ser permitido pra quem tem carro automático, afinal, dá pra dirigir com uma só mão. O Estado deveria ser mínimo, gastar menos para sustentar a sua máquina e ofertar mais em saúde, educação e especialmente segurança. Seus meios de comunicação preferidos são as redes sociais, pois fica difícil conseguir reunir as pessoas cara a cara e em tempo real. Nelas, ele expõe suas ideias, fala sobre a sua vida, seus relacionamentos e sobre os acontecimentos que entende relevantes na sua cidade, no país e no mundo.

A descrição acima vai expressa sem pretensões de esgotamento ou de classificação. Muitas das características servem a mim mesmo, pela origem familiar e trajetória de vida. Talvez por isso e pelas convivências que tive oportunidade de experimentar é que penso ser necessária uma reflexão mais ampla, menos imediatista, sobre alguns males, suas causas e consequências. O abandono da escola pública e a migração para o ensino privado, pela classe média, pode ter ajudado o esvaziamento e a desmobilização que culminaram com o sucateamento do sistema. A falta de fé, por um lado, e a radicalização de dogmas religiosos, de outro, podem contribuir para o aumento da intolerância e, por consequência, para o aumento da violência. Sem os nordestinos, seguramente o estado mais rico do país não seria o que é. Ainda que não sejam perfeitas, as políticas sociais retiraram muita gente da linha de pobreza, assim como as cotas serviram para resgatar algumas dívidas históricas com negros e índios. Proteger o mais frágil em uma relação não significa afrontar o princípio constitucional da isonomia (igualdade). A experiência de um estado mínimo poderia ser catastrófica num país com tantas desigualdades como o nosso.

O culto à pureza e a exaltação do liberalismo enquanto doutrina se aproxima muito do “canto da sereia”. Não se sabe se ele nos levará ao prazer ou ao naufrágio. A história mostra que em momentos de crise, o terreno se torna fértil para o despertar de radicalismos. Em 1925, Adolf Hitler publicou “Mein Kampf”, que inspirou toda a doutrina nazista.

Guardadas as proporções, de tempo e de espaço, é fácil encontrar semelhanças de contexto e de pensamento. Não podemos perder nossa capacidade de reflexão e ação, que evitará que cometamos injustiças. E não apenas via internet, pois falar é muito fácil.

Artigo originalmente publicado em 27/11/2015

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