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Jornal A Hora

Opinião

Raquel Winter Raquel WinterProfessora e consultora executiva

Publicada em 22/07/2018

Momentos

Depois de transitar maravilhada por vias seculares, sentei-me num lindo restaurante e pedi água e vinho. De frente ao Phanteon, entrei em transe observando, respirando, absorvendo cada segundo daquele espetáculo.

Uma estrutura que antecedeu Cristo, sobreviveu a guerras mundiais, saques, agora assume o compromisso de motivar milhares de pessoas do mundo todo a movimentarem-se até o seu espaço (sim, seu, afinal mais de dois mil anos de ocupação lhe concedem o direito a usucapião!) para conferir de perto suas façanhas.

Distraída em meus pensamentos, tive minha atenção sequestrada por algo muito menos definitivo do que aquele esplêndido arranjo de mármore e concreto.

Fui enfeitiçada por um brinquedo similar a uma leve peteca de plástico que alguns estrangeiros vendedores ambulantes arremessavam para o alto. Quando arremessados, aqueles brinquedinhos ficavam iluminados e subiam, subiam, subiam muito, muito alto. Um voo leve, divertido, descomprometido, explorador. Depois desciam, desciam e desciam até pousar em um novo espaço ou mesmo nas mãos de quem os arremessou.

Aquele festival de luzinhas voadoras e alegres contrastou de forma irreversível com a dureza, imobilidade e frieza daquele inacreditável patrimônio histórico. Lá estava ele, o Phanteon, sabendo que nunca poderia voar leve, que jamais pousaria em outros lugares. Tenho certeza que, se ele pudesse, trocaria toda a sua perpetuidade por alguns minutos daquela aventura e, ainda assim, incondicional liberdade dos brinquedinhos chineses.

Concluí que o Pantheon e as petecas voadoras podem nos ensinar uma importante lição: que o peso literal ou metafórico que por vezes assumimos em busca de sobrevivência ou reconhecimento além do nosso tempo poderá nos trazer prestígio, admiração, feitos e, é claro, um cansaço enorme. Que acumular anos ou tesouros pode nos deixar em evidência, experientes, mas, também, pesados demais para voar.

Por outro lado, passar a vida tão leve, alçando voos incertos, pode nos colocar em inesperados vendavais levando-nos a pousos desastrosos. Bem, bonito mesmo foi observar o contraste de ambos. É a vida, não se pode ter tudo.

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