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Opinião

Ney Lazzari Ney LazzariReitor da Univates

Publicada em 30/11/2019

Os paradoxos de uma sociedade

Integrando uma comitiva de reitores de universidades comunitárias estivemos, no início de novembro, durante uma semana, visitando universidades e instituições de pesquisa em Israel.

Israel é um país com pouco mais de 70 anos, com população de aproximadamente 9 milhões de habitantes, dois milhões a menos que o Rio Grande do Sul. Em área, o RS é 12 vezes maior que Israel. Com pouquíssimos recursos naturais e com inúmeros conflitos latentes e mal resolvidos em todas as suas fronteiras, o país é considerado pelo Fórum Econômico Mundial como uma das nações mais inovadoras e desenvolvidas do mundo.

O merecido título não veio por acaso. Com grandes investimentos em educação e pesquisa para produção de alta tecnologia, principalmente nas áreas de segurança, uso sustentável da água e produção de alimentos, Israel é o país que mais tem startups per capita. De cada 40 trabalhadores de Tel Aviv, um está atuando em uma das inúmeras startups: há em Israel uma startup a cada conjunto de 1.400 pessoas. A taxa de desemprego no país não passa de 4% e a renda per capita, de US$ 40 mil, é cinco vezes a brasileira.

Praticamente todos os computadores e smartphones do mundo têm aplicativos desenvolvidos nas universidades ou centros de pesquisa de Israel, como os sistemas de segurança para e-mails, o já aposentado ICQ, o mundialmente reconhecido Waze ou o Mobileye para carros autônomos. Hoje são mais de 8.000 startups em Israel, atraindo pesquisadores, empreendedores e investidores do mundo todo. Estatisticamente, menos de 1% dessas startups se tornarão de fato as chamadas “unicórnios”.

As universidades são as grandes estrelas dessa transformação, atuando na formação de jovens tecnicamente qualificados e empreendedores com grande capacidade para criação de negócios de impacto global. As únicas sete universidades do país, todas públicas, estão entre as melhores do mundo. Todos os jovens israelenses, sejam eles homens ou mulheres, após o ensino médio, precisam obrigatoriamente prestar três anos de serviço militar e, depois disso, a maioria deles ainda faz um tour de mochila pelo mundo durante um ano. Isso faz com que os jovens ingressem na universidade com 23, 24 anos em média, mas com projetos de vida definidos e focados.

No sistema das universidades públicas israelenses os alunos pagam uma anuidade de aproximadamente US$ 3 mil. Além disso, a universidade também recebe do Estado de US$ 8 mil a US$ 12 mil por ano por aluno para sua manutenção. Esses valores são diferenciados dependendo da ênfase que o país está querendo dar para uma ou outra área do conhecimento, ou seja, o Estado induz as universidades a oferecerem mais ou menos vagas nesta ou naquela área. Neste momento, as áreas da matemática, das engenharias, da biotecnologia e da tecnologia da informação são as que mais recebem incentivos.

Uma população composta por um grande contingente de imigrantes que deixam tudo para trás sem muitas garantias é, por natureza, habituada ao risco. Soma-se a isso o sistema de universidades fortes, recursos financeiros privados e políticas públicas claras e definidas quanto aos setores de relevância no futuro. Tudo isso tem gerado um ambiente de inovação e atraído inúmeros centros de pesquisa de empresas internacionais. Empresas altamente tecnológicas como Dell, IBM, Intel e outras 250 têm unidades de pesquisa em universidades de Israel.

Estão sendo implantados nas universidades israelenses novos cursos que buscam juntar diferentes áreas do conhecimento: curso de Biodesign (juntando economia, medicina, arquitetura e administração); curso de Ciências e Humanidades (juntando humanidades, ciência da computação e psicologia); curso de Nanotecnologia (juntando engenharia, medicina e computação); e curso de Engenharia Biomédica (juntando engenharia, medicina, linguística e psicologia).

Estudos interdisciplinares propiciam pesquisas inovadoras, como, por exemplo, para a cura da cegueira crônica: procura-se entender biologicamente como os morcegos se locomovem e juntar esse conhecimento com a informática e a medicina. Outro exemplo de estudo interdisciplinar pode ser verificado na interpretação dos famosos manuscritos do Mar Morto, descobertos no final dos anos 1940 e ainda não totalmente decifrados. Nesse caso, juntam-se os conhecimentos de história e estudos bíblicos com os da biologia: os fragmentos de pele de carneiro em que estão os escritos foram juntados por técnicas de DNA. Os recursos financeiros para esse estudo vêm de uma “vaquinha” virtual criada no Google.

Paralelamente a todo esse avanço tecnológico, há também um país militarizado, duro com os países fronteiriços, permeado por uma crescente e retrógrada influência religiosa, vinculada ao judaísmo ortodoxo. Essa vertente do judaísmo, com cada vez mais espaço na sociedade e na política, caracteriza-se pela observação rigorosa dos costumes em sua forma mais primitiva, intransigente e xenofóbica.

São os paradoxos das sociedades modernas: de um lado, o que há de mais moderno em tecnologia e integração com o mundo e, de outro, o que há de mais atrasado em termos de regras sociais, costumes e intolerância com o que é diferente. Mas isso é assunto para outro artigo.

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