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Cidades acumulam prejuízos após temporal

Volume de chuva registrado desde sábado representa 123% do previsto para o mês

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Pensar O Vale

Vale do Taquari – A coordenadoria regional da Defesa Civil (DC) calcula os prejuízos decorrentes do temporal registrado no fim da tarde desse domingo. Dados preliminares apontam cerca de cem casas destelhadas, lavouras parcialmente destruídas e interrupções no abastecimento de energia elétrica para mais de vinte mil consumidores.

De acordo levantamento do Centro de Informações Hidrometeorológicas (CIH) da Univates, de Lajeado, choveu 185 milímetros (mm) entre a noite de sábado e às 15h de ontem. O volume representa 123% da média prevista para todo o mês, de 150 mm.

cO mau tempo pôs à prova a infraestrutura urbana. Bueiros entupidos congestionaram o fluxo da água, que inundou estradas e invadiu calçadas, prédios e paradas de ônibus. A maioria dos abrigos se mostrou ineficiente para acomodar usuários do transporte coletivo, como aquele em frente ao prédio do INSS, no centro de Lajeado, onde dezenas de pessoas se protegeram da chuva e vento.

Ao longo do dia, equipes de emergência trabalharam para solucionar os transtornos. Na área de concessão da AES Sul, 9,3 mil consumidores chegaram a ficar sem energia elétrica. Metade teve a conexão restabelecida até o meio dia de ontem, e o restante, no decorrer da tarde.

De acordo com o coordenador operacional da concessionária no Vale, Ricardo Slaghenaufi Neto, as quedas atingiram de forma geral diversos municípios, dentre eles Encantado, Estrela, Muçum, Roca Sales e Lajeado.

Em nota, a Certel Energia informou que o temporal prejudicou o fornecimento para 18,2 mil clientes em 47 municípios. Às 15h30min de ontem, todo o sistema estava restabelecido. A concessionária mobilizou 92 profissionais para atender à comunidade. O número telefônico, responsável pelo atendimento ao público em caso de transtornos, recebeu 976 ligações.

Conforme as entidades, entre as principais causas dos problemas no fornecimento esteve quedas de árvores, abertura de elos fusíveis, isoladores de média tensão danificados e pedaços de telhados de casas e outros objetos que caíram sobre a rede.

Vendaval e granizo destroem telhados

Segundo levantamento preliminar das entidades de emergência, casas destelhadas são o principal prejuízo decorrente do temporal. Estima-se que mais de cem moradias tenham sido prejudicadas. Durante todo o dia, equipes da Defesa Civil, com apoio do Corpo de Bombeiros, encobriram moradias com lonas e distribuíram folhas de brasilite.

Pelo menos 25 casos foram registrados em Estrela. Estragos aconteceram no bairro Indústrias, Pinheiros, Imigrante e Boa União. De acordo com o coordenador da DC na cidade, Jorge Both, pode ser decretada situação de emergência. “Estamos fazendo levantamento dos estragos.”

Em Lajeado, foram registrados pelo menos 20 casas afetadas. Segundo o responsável pela DC, Gilberto Schmidt, os bairros com mais danos são Jardim do Cedro, Campestre e São Bento. Uma das moradias mais danificadas em Conservas, foi a de Leonita Lopes de Souza, 54.

Por volta das 19h de domingo, ela e o filho Júlio Matheus, 5, foram à igreja da comunidade, momento que começou o temporal de granizo. Ao retornar para casa, percebeu de longe as telhas de brasilite quebradas. Dentro da residência, tudo estava molhado. Entre as perdas estão uma televisão, um aparelho de DVD, roupas e um ventilador.

Encantado não deve decretar situação de emergência. Segundo o coordenador local da DC, Getúlio Leonel Nunes, apenas uma casa teve telhas quebradas na Barra do Guaporé. Ninguém ficou desabrigado.

Entupimento de bueiros causou inundações nos bairros Santa Clara e Planalto, resolvidas ainda pela manhã de ontem. Duas árvores caíram no acostamento das rodovias ERS-130 e ERS-129, retiradas pelo Corpo de Bombeiros no início do dia.

Cidades da região alta, como Arvorezinha, Relvado, Nova Bréscia e Doutor Ricardo pediram ajuda à DC Regional e devem decretar situação de emergência. Esses municípios também tiveram a maior parte das lavouras e aviários atingida pelos granizos.

Garagem cai sobre veículo

Pelos menos duas residências foram danificadas em Teutônia. Uma delas fica no loteamento Strauss, em Posses. A outra fica na estrada geral de Linha São Jacó. O corpo de bombeiros voluntários auxiliou moradores com a colocação de lonas.

Em Posses, os ventos fortes registrados por volta das 14h de domingo destelharam metade da moradia de 60 metros quadrados de Luiz Valmir Martins. Ele estava em casa com a mulher e a filha, quando escutou o estrondo. “Levamos um susto quando as telhas começaram a levantar e pedi para elas se abrigarem.”

Com a ajuda de vizinhos, no mesmo dia, conseguiu repor metade do brasilite danificado. Apenas a área da lavanderia permanece sem as telhas. O veículo Gol da família também foi danificado. O carro estava parado em frente à casa, quando foi atingido por uma das telhas da garagem. O impacto do objeto quebrou o para brisa.

Cratera abre em Lajeado

Por volta das 21h de domingo, o paralelepípedo na esquina das ruas Joaquim Nabuco e São Paulo, no bairro São Cristóvão, sucumbiu a chuva. Um buraco no meio da rua, com pouco mais de dois metros quadrados de diâmetro, era a confirmação de um temor antigo do aposentado Egídio Remontti, 67, que mora em frente ao local. “A casa sempre tremia quando passava um veículo pesado. Sabia que algo estava errado debaixo dessa pista.”

O buraco cresceu durante a madrugada. A cada nova erosão, Remontti saltava da cama ao ouvir o som dos bloquetos se desprendendo da rua. “Ninguém dormiu.” Na manhã de segunda-feira, a cratera superava os 20 metros quadrados. Durante todo o dia, novos deslizamentos aumentavam ainda mais as proporções do problema.

A casa do aposentado apresenta diversas rachaduras no chão e no teto. Segundo ele, é resultado de um problema nas tubulações de água instaladas sob a rua São Paulo. “Não posso afirmar, mas acho que foi isso que causou também essa cratera”, avalia.

Aulas suspensas em Forquetinha

Com medo de que mais de cem estudantes ficassem ilhados na Emef João Batista de Melo e também na escola estadual, as direções escolares decidiram liberar as crianças às 13h30min de ontem. Aumento no nível dois arroios Forquetinha e Arroio Alegre motivaram a atitude. No fim da tarde, a ponte sobre o Arroio Forquetinha, em Vila Storck, foi encoberta pela correnteza.

Linhas de telefone e internet ficaram grande parte do dia sem funcionar. A situação lembrou a enchente ocorrida em 2011, quando os afluentes transbordaram, causando prejuízos a empresas, moradores e às instituições educacionais.

UBS do Montanha é atingida

A estrutura da Unidade Básica de Saúde do bairro Montanha, em Lajeado, sofreu danos com o temporal. Houve infiltração e alagamento em alguns ambientes, atingindo computadores e outros equipamentos.

Entre às 13h e 22h de ontem, os atendimentos foram transferidos para o posto de saúde do São Cristóvão. Hoje, o horário de expediente também é alterado. A unidade funciona das 7h30min às 17h.

Segundo o secretário de Saúde, Glademir Schwingel, a medida é necessária porque a equipe que realiza os reparos não irá terminar todo o serviço a tempo de normalizar o atendimento nesta terça-feira. Amanhã, todos os serviços devem voltar ao normal.

Tempo deve abrir hoje

A tempestade ganhou força devido ao encontro de uma massa de ar frio com um ambiente quente e úmido, que atuava sobre o estado nos últimos dias. Conforme previsão do CIH, da Univates, o dia de hoje começa instável com pancadas de chuva, mas com volumes inferiores aos registrados ontem. No decorrer do dia, a frente fria se afasta e o tempo começa a melhorar. De acordo com a previsão do Clima Tempo, nova frente fria avança sobre o Rio Grande do Sul na sexta-feira, podendo resultar em novos temporais.

Lavouras destruídas

A queda de granizo, associada ao vento, causou grandes prejuízos às lavouras. Maiores perdas ocorreram em plantações de tabaco, mas também foram registradas nas de trigo, milho, uva e abóbora. Levantamento do Sistema Mutualista da Afubra mostra que a chuva de granizo atingiu mais de mil lavouras de fumo no Vale do Rio Pardo e Taquari na madrugada ontem.

De acordo com o gerente técnico, Iraldo Backes, assim que o tempo melhorar tempo, a equipe técnica da entidade iniciará os trabalhos de levantamento dos prejuízos. “Muitas estufas foram danificadas pelas pedras de gelo e o vento.”

Bastou 2 minutos para que boa parte da lavoura de fumo da família de José Carlesso, em Boqueirão do Leão, fosse destruída. “Cem arrobas estragaram. Um prejuízo de R$ 12 mil.”

Cerca de 40% das plantações, em Encantado, foram prejudicadas. A maior parte delas de milho, nas Linhas Chiquinha, Divertida e Barra do Guaporé, somando mais de 20 hectares devastados.

Outro problema foi o destelhamento de aviários. Na propriedade de Neodir Slaiffer, em Linha Divertida, será preciso trocar mais de 800 folhas de brasilite. Um custo superior a R$ 8 mil. A plantação de 1,5 hectares ficou devastada. Diz que dependerá do seguro do PróAgro para conseguir recomeçar.

Jusimar Brandão, da Linha Chiquinha, teve perda total. Foram mais de 50 mil pés de hortaliças, entre cenouras, abobrinhas, couves, beterrabas, alfaces e tomates. Outros 5 hectares de milho e pelo menos 15 toneladas de pêssego quase prontos para colheita. De acordo com ele, o granizo atingiu as frutas, deixando-as com buracos de 1,5 centímetros. “Não sei por onde recomeçar. Perdi tudo o que estava plantado.” Sem seguro, dependerá de auxílio municipal.

Transtornos em Lajeado

A água invadiu parte da Av. Sete de Setembro, próximo à esquina com a rua Santos Dumont. Alguns moradores ficaram ilhados dentro de casa durante toda a tarde. Mario Moreira, que mora há menos de seis anos em um prédio que ficou ilhado, reclama. “Todo ano acontece isso. É culpa desses aterros que liberam em outros locais, e a água acaba batendo aqui.”

Precisou de uma escada para acessar a sacada de casa, no primeiro andar. No apartamento acima, Luciana Gomes Oliveira apenas observava o acúmulo de água na rua, e o redemoinho que se formava próximo a um dos bueiros. Junto da filha, ela torcia pelo fim da chuva para conseguir sair de casa.

Outras ruas também foram inundadas de forma parcial. A rua José Schmatz, na esquina com a Mathias Rockenbach, no bairro Florestal, ficou interditada durante a tarde. Na Av. Décio Martins Costa, o Arroio Engenho transbordou e trouxe apreensão para moradores. O local costuma ser sempre o primeiro a inundar durante as enchentes.

Próximo dali, na rua Santos Filho, dois veículos que estavam estacionados foram atingidos pela água e ficaram parcialmente submersos. Na Av. Beira Rio, no bairro Conservas, houve alagamento em alguns pontos da via. Uma residência teve parte do muro destruído após represar água.

Houve transtornos também no centro, na região conhecida como “Cantão do Sapo”. Durante a tarde, algumas vias foram interrompidas pelo excesso de água na pista e nas valetas. Muitos moradores chegaram a retirar pertences de dentro das casas. No fim do dia, as ruas foram liberadas e ninguém precisou deixar a residência.

Arroios e açudes transbordaram em diversas áreas da cidade. No bairro São Bento, o Saraquá invadiu a várzea e quase atingiu a ponte da ERS-513. Também foi registrado deslizamento de terra no aterro do viaduto sobre a BR-386, que interliga os bairros Hidráulica e Alto do Parque. A rodovia não precisou ser interditada.

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