Edição 08/04/2020 Edição impressa

Terça-Feira08 de Abril, 2020

opinião

Ney Arruda Filho

Ney Arruda Filho

Advogado

Coluna com foco na essência humana, tratando de temas desafiadores, aliada à visão jurídica

Vivendo numa cidade inteligente

Por

Vale do Taquari
Pensar O Vale

Sou nascido na Lajeado dos anos 1960. Pouca gente, menos carros. Morei no centro, depois no Florestal e, já adulto, no final da década de 1980, descobri os encantos de viver em Moinhos. Primeiro num apartamento, pra depois mudar para uma casa, numa tranquila rua de calçamento. Tenho muita consciência do enorme privilégio que isto representa. Morar num bairro tranquilo, próximo do centro, dotado de comodidades e de serviços que faltam pra muita gente. Bem, a vizinhança era ótima, cheia de crianças.

Meus 3 filhos usufruíram muito das amizades e das companhias. Na frente, tinha o Rafael, o Vinícius e o Piu. De um lado o Felipe e a Letícia, do outro a Clarissa. Na esquina, o Gui e a Renata, fora os outros tantos que moravam nas ruas próximas e volta e meia apareciam de bicicleta pra brincar, pra jogar taco, futebol. Portões abertos, eles circulavam entre as casas e atravessavam a rua com a autoridade de donos que eram.

… as novas crianças não usufruíam da mesma liberdade e da mesma autoridade de donos que as anteriores …”

Um dia, apareceu um vizinho com um abaixo-assinado. Ele morava mais pro lado da Minuano. Era pra asfaltar a rua. Perguntei o motivo e ele me falou em progresso. Questionei o que era progresso e ele sorriu. O calçamento era irregular e os motoristas reclamavam. Afinal, poderia estragar os “autos”. Respondi a ele que não iria assinar, que viviam muitas crianças ali e asfaltando viraria uma pista de corrida, como já era a Emilio Conrad. Mais: que conversaria com os vizinhos mais próximos para que não assinassem. Ele se irritou. Fiz uma última pergunta: quanto teremos que pagar por esse asfalto? Nada, respondeu ele, a Prefeitura é quem vai pagar. Mais um motivo pra eu não assinar. Procurei o Luis e a Leda, vizinhos de frente e, pelo que recordo, eles também não assinaram. Com outros, meu eu argumento recebeu sorrisos amarelos e alguns “vou pensar”, mas acredito que todos tenham assinado. Coisa parecida aconteceu dia desses. Moradores da rua José Schmatz protestaram contra o asfaltamento. Foi notícia, tem até processo na Justiça.

Mas passei por lá ontem e já começaram a asfaltar, independente da opinião dos moradores.

A minha rua não é mais a mesma. Me dou o direito de chamá-la de minha, pois a habito faz quase 3 décadas. Nada melhorou com o asfalto. As crianças cresceram, algumas casas foram vendidas e outras crianças vieram. As novas crianças não usufruíram da mesma liberdade e da mesma autoridade de donos que as anteriores. Consequências do “progresso”, no conceito do vizinho do abaixo-assinado. A Leda faleceu, o Luis vendeu a casa. Rafael, o Zanatta, foi estudar em Porto Alegre, morou no exterior, se formou em administração pela Ufrgs e é Secretário de Planejamento de Lajeado. Vinicius, seu irmão, é arquiteto. Eles provavelmente lembrarão do fato, do abaixo-assinado, de como era antes e de como ficou depois. Eles certamente lembrarão com saudades do quanto era bom morar na picada Moinhos. E ainda é. Melhor e mais inteligente, sem asfalto.

bravo