Pandemia e colapso econômico

Críticas de Bolsonaro colocam instituições em rota de choque

Presidente volta a defender retorno das atividades econômicas e do trabalho. Em pronunciamento na noite de terça e coletiva no fim da manhã de ontem, afirmou que o país está a poucos dias de entrar em falência e que milhares de pessoas ficarão desempregadas caso o isolamento continue

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Críticas de Bolsonaro colocam instituições em rota de choque
Em pronunciamento na noite dessa terça-feira, o presidente Bolsonaro criticou fechamento de escolas e ordens para suspensão de atividades econômicas. Para ele, o país não pode parar, sob risco de um colapso econômico, e chamou a covid-19 de “gripezinha”
Brasil

A postura do presidente da República, Jair Bolsonaro, de minimizar a pandemia de coronavírus no país e defender o retorno da normalidade econômica coloca em lados opostos o governo federal e os governadores.

Trouxe também descompasso em outras frentes. Os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maya (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AL), foram os primeiros a criticar o presidente após os pronunciamentos.

O primeiro foi na noite dessa terça-feira. Em cadeia nacional, Bolsonaro disse que o vírus é uma “gripezinha”. Também criticou a imprensa, a quem atribuiu a responsabilidade pelo pânico social.

No fim da manhã de ontem, concedeu uma coletiva em frente ao Palácio da Alvorada e voltou a criticar a decisão dos governadores em instituírem limitações de atividades econômicas e de trabalho. De acordo com Bolsonaro, o país está à beira de um colapso e que isso levaria a “esquerda” de volta ao poder.

O vídeo está disponível no youtube, na conta oficial do presidente. Por quase 17 minutos respondeu jornalistas e reforçou que as medidas de isolamento devem ser abrandadas. Destinadas apenas para pessoas acima dos 60 anos e doentes crônicos. Citou o presidente norte-americano, Donald Trump. De acordo com Bolsonaro, os EUA retornam a normalidade hoje. Informação contestada por jornalistas, pois no último pronunciamento de Trump, a data apresentada foi 12 de abril.

Ao término da entrevista, o presidente informou sobre uma reunião com o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta para que sejam alteradas políticas de controle, destinada para o isolamento de idosos e pessoas com comorbidades. “Conversei por alto com o Mandetta ontem (terça). Hoje vamos definir essa situação. Tem que ser, não tem outra alternativa”.

Em termos mundiais, o avanço do novo coronavírus obrigou cidadãos a ficarem reclusos. Segundo especialistas e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), a quarentena voluntária é a forma mais eficaz de conter o Covid-19.

Apesar de seguir liderando em número de infecções, a China conseguiu zerar as transmissões locais em regiões como a de Wuhan, epicentro da doença. Os resultados, afirmam autoridades, está diretamente ligado ao esquema de isolamento completo, que fechou cidades e impediu que a população saísse de casa.

“Lamentável. Não apresentou nenhuma alternativa”

O governador Eduardo Leite concedeu entrevista à rádio A Hora na manhã de ontem. Para ele, o isolamento ainda é o mais eficiente de evitar uma sobrecarga no sistema de saúde. Também lamenta a manifestação do presidente.

Para Leite, os pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro causam mais confusão e não ajudam nesse momento de pandemia no país. “Lamentável. O presidente não colabora. Não apresentou nenhuma alternativa. Os governadores tiveram uma videoconferência com ele ontem (terça) pela manhã. Em nenhum momento teve essa posição que apresentou ao povo brasileiro”, reforçou Leite.

O governador gaúcho concorda que o confinamento traz problemas econômicos. Por outro lado, afirma que é possível mitigar essas perdas por meio de decisões governamentais. Cita como exemplo política da Inglaterra, que destinou recursos públicos para o salário de trabalhadores. “É possível reduzir os problemas econômicos pela atuação do governo central. O risco de perda de vidas é complexo, pois atinge a capacidade pública de atendimento em saúde.”

O governador gaúcho reforçou que o mais urgente neste momento é proteger a vida da população. Os empregos e a economia ficam em segundo plano, disse.

“O isolamento social foi formado em cima do pânico”

Com uma análise próxima ao do presidente Bolsonaro, o deputado federal e ex-ministro da Cidadania, Osmar Terra, afirmou em entrevista também na manhã de ontem à rádio A Hora que há um exagero nas medidas adotadas para conter os efeitos de pandemia no país.

De acordo com ele, as medidas vão prejudicar a economia e também os contágios. “A economia está indo para o brejo e não tem resultado nenhum esse isolamento.”

Terra também é médico e na análise dele o auge do coronavírus será daqui duas semanas. Após esse período, irá diminuir e até início de junho a pandemia irá cessar, projetou. “O isolamento social foi formado em cima do pânico irracional das pessoas.”

Na avaliação dele, as ações dos governos de isolar pessoas, fechar escolas e restringir serviços são imprudentes. “Não existe base cientifica para este isolamento. O país não pode parar.”

Fundo de Guerra

O deputado estadual Edson Brum (MDB) defende uma união nacional para arrecadar dinheiro e enfrentar o Covid-19. “Quero fazer um exercício. Aqui na Assembleia Legislativa, se reduzirmos em 20% os subsídios dos 55 deputados chegaremos próximo a R$ 250 mil mensais. Isso é um terço do que recebem atletas como Geromel ou D’Alessandro. Mas somado todos, tanto da iniciativa privada como do setor público, chegaremos a R$ 20 bilhões nestes 90 dias cruciais da crise.”

Para ele, é preciso criar um “Fundo de Guerra” para enfrentar o vírus e também para fortalecer a economia, reduzindo efeitos do isolamento. “Também defendo o uso do Fundo Eleitoral e mais 280 fundos existentes em esfera nacional que totalizam R$ 220 bilhões. Isto sim daria ao país todas as condições de enfrentar a crise epidemiológica, garantindo a produção de alimentos necessários e para a economia em geral.”

Seguir princípios que parecem certos

A Univates foi pioneira na região ao suspender todas as atividades presenciais. Conforme o reitor Ney Lazzari, “o que nos resta é seguir as práticas que a princípio parecem que dão mais certo”.

Com quatro meses de descobrimento do vírus, ainda não há estudos e ciência acumulada para saber o que fazer, defende o professor. “Vacina, mesmo com literalmente todo o mundo evolvido, demorará mais de ano para estar na prateleira.”

Na análise do reitor, países como a China, Singapura, Coreia e diversos outros na Europa mostram que isolar as pessoas retarda a propagação do vírus. “Mais cedo ou mais tarde acabara passando para quase todas as pessoas. Assim, a prática é garantir que o sistema de saúde tenha condições de suportar. A questão econômica é importante sim, mas a distribuição do impacto da doença no tempo poderá salvar inúmeras vidas.”

“Não conseguiremos manter a organização social por muito tempo”

Para o presidente da Associação Comercial e Industrial de Lajeado (Acil), Cristian Bergesch, é preciso encontrar um equilíbrio, conhecendo os prós e contras da interrupção das atividades sociais e econômicas. “Não há dúvida que a vida vem em primeiro lugar, no entanto, essa vida como a conhecemos é baseada na maneira como nos comportamos em sociedade. Ao mudarmos nosso estilo de vida abruptamente, parando de produzir totalmente, não conseguiremos manter nossa organização social por muito tempo.”

Como consequência, diz haveria queda na arrecadação de impostos e não haveria como manter salários dos policiais em dia. “Imagine isso. Sem trabalho aumenta a insegurança.”

Na avaliação dele, há uma primeira amostra da epidemia no mundo. “Sabemos onde e quem ela ataca mais. São exemplos estrangeiros aplicados ou não à nossa realidade. Porém, não conhecemos as carências sociais futuras devido ao locaute atual. Só podemos prevê-las.”

Bergesch destaca que a Acil tem procurado colaborar com as autoridades locais em busca do entendimento de quais setores econômicos devem ou não funcionar.

Cristian Bergesch, presidente da Acil

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